domingo, março 26, 2006
O Espírita e o Espiritismo
1-As Palestras e os Palestrantes
A vivencia no meio Espírita nos tem ensinado muito.
Estudioso e observador tenho refletido muito sobre nossa conduta frente ao desenvolvimento e interação da doutrina seja em meio aos Espíritas seja entre os simpatizantes.
Surge a cada tempo modernidades e procedimentos por parte principalmente daqueles que tem mais projeção no meio Espírita, proferindo palestras ou pela mídia que hoje se estende pela Internet mundo afora.
Muitas de nossas palestras e encontros são infelizmente executadas pela mediunidade ostensiva do expositor que não se da o trabalho de apresentar a temática por escrito mostrando antecipadamente o estudo do tema pedido pelas entidades. E dizem que isso é por que o seu “guia” o inspirará no momento oportuno.
Dessa forma o expositor dá oportunidade aos espíritos que possivelmente o acompanham fazerem declarações não condizentes com a verdadeira doutrina. Conseqüentemente divulgam assuntos distorcidos pela falta de estudo do que o Espírito esteja passando ao médium, expositor, no caso, que também tem suas próprias dificuldades em controlar sua sensibilidade e seu próprio entusiasmo.
Sabemos que a mediunidade é sensibilidade e que enquanto seres sensíveis encarnados em proposta de melhoramento intelectual e moral somos extremamente instáveis.
O fato de o expositor se colocar em atitude de recolhimento e muitas vezes em prece sincera, lembra nos a postura daqueles que oram em meio às multidões para serem notados e serem reconhecidos, no caso, como médiuns. E isto propicia um ar de misticismo próprio às pessoas que não conhecem a doutrina, e para os estudiosos uma decepção, pois a mediunidade é uma aptidão natural e fisiológica do ser humano.
O fato assim torna-se uma sessão mediúnica publica, sem o aval do raciocínio, principal ponto da Doutrina, passando ao publico o que lhe advém da inspiração corre o risco de pela sua própria instabilidade emocional passar idéias e informações que não passam da idéia própria seja do Espírito desencarnado que o inspira seja dele próprio enquanto espírito encarnado através o animismo, que é também um tipo de mediunidade a ser considerado.
Esse procedimento cada vez mais difundido e a profusão de escritos psicográficos sem o mínimo de estudo têm provocado um vicio doutrinário, criando dogmas e mitos, que em sua essência a Doutrina veio explicar e tornar claro como aspectos naturais. O Espiritismo não inventou Espíritos e nem crendices, pois isto já era muito difundido antigamente mas fez sim descortinar a verdade e a naturalidade dos fatos ditos extraordinários.
Se fizermos um estudo profundo do Movimento Espírita, iremos ver que alem da falta de conhecimento e estudo dos livros que deram inicio ao saneamento e educação dos fenômenos ditos paranormais, maravilhosos, a Codificação, propaga-se procedimentos e praticas anteriores à Doutrina. Para os quais ela se propôs esclarecer e corrigir esclarecendo por meio experimental e lógica racional o caráter maravilhoso que eram constituídos esses fenômenos.
Nada temos contra os que querem perpetuar neste procedimento, alertamos porem que deveriam assumir a responsabilidade do que dizem e escrevem. Esclarecendo a opinião publica que tudo o que é ditado pelo Espírito expressa a opinião individual, pessoal, limitada da personalidade que se comunica, acrescida das possíveis falhas humanas.
Conscientizar o publico que o Médium, não é mais que um intermediário com suas próprias imperfeições e dificuldades, que não lhe permitem dar garantia do que fala e escreve.
Um ponto importante é fazer conhecer ao publico que nenhum Espírito encarnado médium é porta voz do mundo espiritual, e se assim alguém procede é de maneira leviana.
Que se diga ao publico de maneira clara que os Espíritos desencarnados por sua vez não são mais inteligentes e nem tem o poder de tudo saber e tudo resolver, que a nossa responsabilidade, encarnados, está exatamente no trabalho serio e responsável daquilo que nos cabe por força da nossa necessidade de desenvolvimento intelecto moral. E isso não pode ser transferido a ninguém nem mesmo aos Espíritos.
Os possíveis auxílios do mundo espiritual por Espíritos interessados no nosso desenvolvimento só são possíveis se nós tivermos conhecimento suficiente para desenvolvermos uma idéia, um trabalho, ou podemos ser intuídos mas os Espíritos não podem fazer por nós. Isso seria derrogar a Lei Natural, e portanto ir contra Deus.
Imaginando que pudesse ser possível o que acabamos de expor, o que seria de nós? Seriamos autômatos, máquinas executando o que nos fosse proposto, sem responsabilidade e nem desenvolvimento intelectual.
O Espiritismo é em suma uma ferramenta, que nos facilita o entendimento da nossa origem, da causa dela, e do objetivo da mesma, resta-nos portanto trabalhar, estudar, e conscientizar que tendo sido criados simples e ignorantes mas com o mesmo quinhão de inteligência podendo desenvolver segundo nossa vontade, e evitar deslizes que nos retardem na marcha evolutiva.
Ouvir o mundo espiritual e refletir alem disso solidarizarmo-nos na vida material como seres fraternos que precisamos viver social e coletivamente, criando condições aos Espíritos refratários para sentindo a ternura se amoldarem também às necessidades próprias de todos, a evolução e o aperfeiçoamento.
Vivenciando cada vez mais o amai vos uns aos outros.
Concluindo precisamos fazer cada vez mais que as nossas palestras sejam sucintas objetivas e acima de tudo bem estruturadas em estudo serio e conscientemente sem participação ostensiva e permissiva dos Espíritos na medida que enquanto médiuns educados podemos conduzir.
Nada de longos depoimentos que se propõem muito mais demonstrar a capacidade intelectual de quem fala, mas procuremos ouvir aquele que nos da a sua atenção. Além disso, longas exposições só fazem confundir e propiciar sono da platéia do que esclarecer possíveis. Os temas precisam estar de acordo com a necessidade do publico, esclarecendo fatos e ocorrências do dia a dia.
Precisamos divulgar que o Espiritismo em si não determina procedimento, não tem mandamentos, não constrange ninguém a aceitá-lo, explica, informa, racionaliza e deixa aos profitentes o direito e a responsabilidade da escolha.
2-A Reencarnação e a opinião pública
Muito se tem falado do dogma da reencarnação, conceito filosófico espírita, e de alguns espiritualistas. Programas televisivos apresentam cidadãos até bem intencionados mas totalmente despreparados, sem domínio de palco na mídia, para num debate mal orientado, cujos coordenadores, se assim podemos chamar, não se dão o trabalho de ler algo a respeito, para no mínimo conduzir e questionar com propriedade. Em sua grande maioria, esses programas estão mais interessados em obter pontos de audiência do que esclarecerem a opinião pública. Escolhem pessoas que nada sabem do tema, e que são espiritualistas alimentando crendices antigas, ledores de sorte, ou pessoas que se dizem espíritas porque o título dá prestígio, status que não podem sustentar devido à total falta de conhecimento doutrinário. Aliás, essa falta pode ser notada no meio espírita, onde encontramos na realidade diversas orientações, ou melhor, uma miscelânea espiritualista e espírita. A maioria de seus profitentes por sua vez, se fazem orientar pela enxurrada de livros psicografados por espíritos que mais não fazem do que expressar opinião própria, muitas vezes errônea e viciada nas mesmas crendices do passado, de aspectos da vida e da reencarnação.
Precisamos esclarecer o fato de acordo com o entendimento doutrinário, e além disso de modo a atingirmos o público em geral em sua área de conhecimento e de aceitação doutrinaria, ou artigo de fé que optaram seguir.
Sabemos que os espiritualistas em geral aceitam a idéia de alma, e ainda mais, que esta, após a morte deve ocupar um lugar perante Deus no céu ou no inferno, para conceituarmos por uma das filosofias que pregam esta idéia. É claro que muitos outros destinos se dão à alma depois da morte. Não vamos nos ater a todos eles, pois que a proposta é esclarecermos a opinião pública sobre o que pensa o espírita.
A idéia da pré-existência do Espírito não é uma primazia do espiritismo. Desde a antiguidade os povos já acreditavam na existência de algo mais do que a matéria no corpo físico. Os povos egípcios, construíram as famosas pirâmides com o intuito da reencarnação. Segundo o Livro dos Espíritos, Pitágoras já preconizava a reencarnação.
É evidente que à essa época a idéia era a transmigração das almas, admitida pelos mais eminentes pensadores. Idéia que não sabemos por qual meio chegara a eles, se revelada ou intuída. É claro que toda e qualquer idéia que atravessa os tempos e perdura em meio aos conhecimentos da humanidade, precisa ter um cunho sério e verdadeiro. Do contrario desapareceria pela sua própria inércia.
É ainda a forma que tomou a idéia no decorrer dos tempos em que abandonando a simplicidade da idéia primeira de que todos reencarnariam em corpos vários, inclusive dos animais irracionais para a do fato de só reencarnar em corpos humanos.
Isso demonstra um avanço na intelectualidade humana, crescendo o conceito de individualidade do Espírito e demonstrando ainda que o fato de encarnar precisa ter uma utilidade qual seja a da evolução.
Não esqueçamos que em O Livro dos Espíritos, o conceito reencarnacionista nos dá um maior domínio da idéia. Preconiza o fato de precisarmos encarnar ou reencarnar tantas quantas vezes necessárias para que cresçamos como indivíduos inteligentes, cuja personalidade seja a unidade de uma grande família espiritual que somos.
Se considerarmos que tudo o que fazemos na Terra enquanto Espíritos encarnados, visando o aprendizado que nos permita – como ao aluno na escola – o avanço para estudos mais aprofundados. E ainda levarmos em conta que tudo o que queremos em nossa vida material é acertar e progredir em todos os aspectos, fazendo para tanto os esforços necessários para podermos conquistar o que julgamos bom para nós.
Aprendemos quando crianças, que precisamos refazer tudo o que fizemos erradamente, para poder demonstrar que compreendemos e sabemos como deve ser feito, e que isso nos proporciona uma satisfação intima dignificante do dever cumprido.
Considerando a nossa atual capacidade intelectiva de recursos muito limitados, mas mesmo assim de vontade extremamente forte em acertar e reparar o que tenhamos estragado seja em qual ramo de atividade nos especializamos, pois que nosso íntimo se sente maculado se assim não procedermos.
Sabendo da infinita sabedoria Divina em nos proporcionar meios e ferramentas para podermos aprender e reparar tudo quanto não tenhamos conseguido fazer de forma correta, precisamos então de um meio para essa atividade construtiva progressista.
Seu filho é capaz de lhe demonstrar que depois de orientado e apreciar exemplos, pode também executar uma tarefa de maneira correta. Com isso o filho demonstra seu orgulho em poder ser considerado artífice. Supondo que estava terminando o dia quando ele e você constataram que havia o erro, é lógico que você diria: “filho vamos descansar” e depois de uma noite de repouso e reflexão sobre o que nos sucedeu hoje haveremos de encontrar uma solução de reparo.
Pois bem, assim age o Pai Misericordioso, quando nos permite reencarnar para reparar os erros e nos tornarmos artífices.
Reencarnar é muito mais uma oportunidade de engrandecimento através do aprendizado e a construção do que uma prova ou expiação, como têm preconizado os Espíritos e os Espíritas mal informados. É uma maneira intelectiva de proporcionar que reparemos o que em silêncio nos consome a paz íntima. Uma ferramenta de progresso e desenvolvimento intelectual do Espírito.
Desta forma a reencarnação com seu esquecimento temporário, evita o enfrentamento do Espírito em falta com aquele que a quem ofendeu, ou prejudicou, dando assim uma conotação mais justa e igualitária a ambos. Não preconiza que devemos nos manter passivo, esperando, fazendo orações, evangelho no lar, e outros que tais que o movimento espírita inventou, para nos livrarmos da responsabilidade. Mas, que precisamos trabalhar intensamente para podermos conquistar essa Paz interior tão almejada.
Reencarnar é viver intensamente o momento atual nos esforçando para acertar e não incidir no erro novamente.
Reencarnação é pois, a melhor maneira de podermos compreender os mais inextricáveis problemas que nos tem atormentado a idéia e que por nosso orgulho e falta de entendimento vivemos nos acovardando perante a dor e as dificuldades que é ter de transpô-los um a um, mostrando com a execução das tarefas que nos foram confiadas, que estamos vivendo a oportunidade de acordo com todos os nossos esforços em melhorarmos nossa disciplina.
Reencarnação pois, é a idéia mais coerente com os princípios de justiça e eqüidade para que se possa entender o princípio da solidariedade entre todos, e mais ainda o único meio de podermos nos sentir serenos perante aos nossos muitos enganos enquanto encarnados, pois que a ninguém é pedido a perfeição mas o reparo. A perfeição é decorrência dos muitos reparos que fazemos em nossas experimentações. Enquanto sentirmos essa possibilidade, saberemos nunca estarmos desamparados, sempre haverá esperança e a nenhum de nós será negada a oportunidade.
Luiz G. Scalzitti