sábado, janeiro 27, 2007

 

RESPOSTA A UMA PERGUNTA SOBRE ESPIRITISMO RELIGIOSO

RESPOSTA A UMA PERGUNTA SOBRE O ESPIRITISMO RELIGIOSO
Revista Espírita – Janeiro - 1863

Um residente de Bordeaux, a quem não temos a honra de conhecer, manda-nos a pergunta que se segue. Julgamos preferível responder pela Revista, para instrução de todos.
“Li numa de vossas obras: “O Espiritismo não se dirige àqueles que têm uma fé religiosa qualquer, com o fito de os des viar, e aos quais essa fé basta à sua razão e à sua consciência, mas à numerosa categoria dos incertos, dos incrédulos, etc.”
"Ora, por que não? Não deveria o Espiritismo, que é a verdade, dirigir-se a todos? a todos os que estão no erro? Ora, os que crêem numa religião qualquer, protestante, judaica, católica ou qualquer outra, não estão no erro? Sem dúvida, porque as diversas religiões professadas hoje dão como verdades incontestáveis e nos obrigam a crer em coisas completamente falsas ou, pelo menos, em coisas que podem vir de fontes verdadeiras, mas inteiramente mal interpretadas. Se está provado que as penas são apenas temporárias — e Deus sabe se é um leve erro confundir o temporário com o eterno — se o fogo do inferno é uma ficção e se, em vez de uma criação em seis dias se trata de milhões de séculos, etc; se tudo isto está provado, digo eu, partindo do princípio que a verdade é una, as crenças surgidas de uma interpretação tão falsa desses dogmas não são nem mais nem menos do que falsas, pois uma coisa é ou não é; não há meio termo.
"Por que, então, não se dirige, também, o Espiritismo a todos os que acreditam em absurdos, para os dissuadir, como aos que em nada crêem ou que duvidam, etc?"

Aproveitamos a oportunidade da carta, da qual extraímos as passagens acima, para lembrar, mais uma vez, o objetivo essencial do Espiritismo, sobre o qual o autor da carta não parece bastante edificado.
Pelas provas patentes que ele dá da existência da alma e da vida futura, base de todas as religiões, é a negação do materialismo e, conseqüentemente, se dirige aos que negam ou duvidam. É bem evidente que os que não crêem em Deus nem na alma não são católicos, judeus ou protestantes, seja qual for a religião em que nasceram, inclusive o budismo e o islamismo. Ora, pela evidência dos fatos, são levados a crer na vida futura com todas as suas conseqüências morais; a seguir, são livres de adotar um culto que melhor lhes convenha à razão ou à consciência. Aí, porém, termina o papel do Espiritismo; ele ajuda a fazer os três quartos do caminho; transpor o passo mais difícil — o da incredulidade. Aos outros cabe fazer o resto.
"Mas" — perguntará o autor da carta — "Se nenhum culto me convém?"
Ora, ficai onde estais. Aí o Espiritismo nada pode. Ele não se encarrega de vos fazer um culto a força nem de discutir para vós o valor intrínseco dos dogmas de cada um; deixa isto à vossa consciência. Se o que o Espiritismo dá não vos basta, buscai, entre todas as filosofias existentes, uma doutrina que melhor satisfaça às vossas aspirações.
Os incrédulos e os duvidosos formam uma classe muito numerosa; e, quando o Espiritismo diz que não se dirige aos que têm uma fé qualquer, e aos quais esta é bastante, entende que aquele não se impõe a ninguém e não violenta nenhuma consciência. Dirigindo-se aos incrédulos, chega a convencê-los por meios próprios, pelos raciocínios que sabe terem acesso à sua razão, desde que os outros foram impotentes. Numa palavra, tem o seu método, com o qual, diariamente, obtém belíssimos resultados; mas não tem uma doutrina secreta. Não diz a uns: abram os ouvidos, e a outros: fechai-os. A todos fala pelos seus escritos e cada um é livre de adotar ou rejeitar sua maneira de encarar as coisas. Assim, faz crentes fervorosos dos que eram incrédulos. Eis tudo o que ele quer. Àquele que dissesse: "Tenho minha fé e não quero mudá-la; creio na eternidade absoluta das penas, nas chamas do inferno e nos demônios; continuo até crendo que é o Sol que gira, porque a Bíblia o diz, e creio ser este o preço de minha salvação", responde o Espiritismo: "Guardai as vossas crenças, já que elas vos convém; ninguém procura vos impor outras; eu não me dirijo a vós, pois nada quereis de mim". E nisto ele é fiel ao seu princípio de respeitar a liberdade de consciência. Se alguém se julga em erro, é livre de fitar a luz, que brilha para todos; os que se julgam certos têm liberdade de desviar o olhar.
Mais uma vez, o Espiritismo tem um objetivo do qual não quer nem se deve afastar; sabe o caminho que deve seguir e segui-lo-á sem se desviar pelas sugestões dos impacientes. Cada coisa vem a seu tempo e querer ir muito depressa é, às vezes, recuar em vez de avançar.
Ainda duas palavras ao autor da carta. Parece-nos haver uma falsa aplicação do princípio que a verdade é una, concluindo daí que certos dogmas, como o das penas futuras e da criação, receberam uma interpretação errada, e de que tudo deve ser falso na religião. Não vemos todos os dias as ciências positivas reconhecendo certos erros de detalhes, sem que, por isso, a ciência esteja radicalmente errada? A Igreja não se pôs de acordo com a ciência em relação a certas crenças de que outrora fazia artigo de fé? Não reconhece hoje a lei do movimento da terra e dos períodos geológicos da criação, que havia condenado como heresias? Quanto às chamas do inferno, toda a alta teologia concorda que é uma imagem e que por ela se deve entender um fogo moral e não material. Sobre vários outros pontos as doutrinas são menos absolutas do que outrora. Daí pode concluir-se que um dia, cedendo à evidência dos fatos e provas materiais, ela compreenderá a necessidade de uma interpretação em harmonia com as leis da natureza, sobre pontos ainda controvertidos. Porque nenhuma crença poderia racionalmente prevalecer contra essas leis. Deus não pode contradizer-se estabelecendo dogmas contrários às suas leis eternas e imutáveis, e o homem não pode pretender pôr-se acima de Deus, decretando a nulidade dessas leis. Ora, a Igreja, que compreende esta verdade para certas coisas, compreendê-la-á igualmente quanto a outras, notadamente no que concerne ao Espiritismo, em todos os pontos fundados sobre as leis da natureza, ainda mal compreendidas, mas que serão cada dia melhor compreendidas.
Não nos devemos apressar a rejeitar tudo, porque certas partes são obscuras e defeituosas; e cremos útil, a propósito, lembrar a fábula: “A Macaca, o Macaco e a Noz.”

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