domingo, abril 08, 2007

 

BREVE HISTÓRIA DA UNIFICAÇÃO

BREVE HISTÓRIA DA UNIFICAÇÃO (DE TORTEROLI A THIESEN)
Autor: Mauro Quintella

CAPÍTULO 1
AS PRIMEIRAS CASAS ESPÍRITAS
O primeiro passo em prol da unificação do movimento espírita brasileiro foi dado em 1881, quando a Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade promoveu, no dia 6 de setembro, no Rio de Janeiro, o 1º Congresso Espírita Brasileiro, cuja finalidade era reunir os grupos espíritas existentes na capital e, se possível, no país.
Nesse Congresso foi criado o Centro da União Espírita do Brasil, a primeira instituição unificadora do movimento espírita nacional, cuja instalação oficial deu-se no dia 3 de outubro, sob a direção de Afonso Angeli Torteroli. A edição de novembro da REVISTA DA SOCIEDADE ACADÊMICA dá a relação dos grupos filiados até aquele mês.
Infelizmente, porém, o Centro da União não passou de mera tentativa. Devido à própria incipiência do movimento e da luta ideológica que, àquela época, já dividia os espíritas em místicos e científicos, a instituição acabou se desorganizando.
Essa divergência foi a maior responsável pelo clima de desunião que vitimou a família espírita brasileira no Século XIX. Os místicos supervalorizavam o lado religioso da Doutrina Espírita, enquanto os científicos a entendiam como ciência, filosofia e moral. Como o Centro da União estava sob a direção do científico Angeli Torteroli, é possível que os místicos tenham boicotado o projeto.
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Em 1882, a Sociedade Acadêmica, um grupo majoritariamente científico, publica a primeira edição de A GÊNESE em português. No prefácio, lê-se o seguinte: "... conquanto alguns condiscípulos mostrassem o desejo de que modificações fossem feitas em certos pontos deste volume, de acordo com as idéias manifestadas na obra OS QUATRO EVANGELHOS (...), publicamos a presente tradução de A GÊNESE sem a mínima alteração e mesmo sem anotações (...). A Sociedade Acadêmica julga que não lhe assiste, como a ninguém, o direito de alterar o plano e, menos ainda, as bases fundamentais (...) das obras publicadas pelo nosso mestre... ".
Por afinidade ideológica, a quase totalidade dos místicos gostava de OS QUATRO EVANGELHOS de J.B. Roustaing, enquanto a maioria dos científicos não aceitava a obra (podem ter existido raríssimas exceções de lado a lado). Como se vê, desde o Século XIX, os livros do advogado bordelense contribuem para dificultar a unificação do movimento espírita nacional.
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Por causa do fracasso do Centro da União e das divisões internas do movimento, Augusto Elias da Silva, o criador do REFORMADOR (na época, um jornal), pensa em fundar outro centro unificador.
No dia 27 de dezembro de 1883, ele faz uma reunião com os 12 companheiros que o ajudavam no REFORMADOR. Nesse encontro, eles decidem fundar uma nova instituição, que não fosse nem mística, nem científica. A fim de congregar todos os grupos existentes, ela devia ser ideologicamente neutra.
No 1º de janeiro de 1884, é fundada a Federação Espírita Brasileira, a FEB. Seu primeiro presidente é o Marechal Ewerton Quadros. Para comprovar a neutralidade da nova sociedade, os científicos Angeli Torteroli e Joaquim Távora são convidados a se cadastrarem como sócios-fundadores. Augusto Elias transforma o REFORMADOR no órgão oficial da FEB.
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Em 1889, o Marechal Ewerton Quadros foi transferido para Goiás, ficando impossibilitado de permancer à frente da FEB.
Para seu lugar, foi eleito o famoso médico e deputado Adolfo Bezerra de Menezes, que, há cerca de três anos, havia chocado a sociedade carioca com a sua conversão ao Espiritismo. A intenção dos febianos era colocar um elemento de grande prestígio e força moral na presidência, a fim de fortalecer o processo de unificação.
Surpreendentemente, porém, assim que assume a presidência da FEB, Bezerra convoca um inesperado congresso para o 31 de março de 1889.
Cerca de 34 grupos compareceram ao congresso e aceitaram sua sugestão de criar um novo centro federativo, no qual cada agremiação teria um representante. A idéia não era nova, pois o antigo Centro da União Espírita do Brasil já havia tentado colocá-la em prática. Como vimos, sem sucesso.
Por que Bezerra preferiu fundar outra sociedade federativa, ao invés de utilizar a FEB para esse trabalho? Falecem-nos meios para responder a essa pergunta.
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Existem divergências quanto ao nome desse novo centro. Alguns pesquisadores dizem que ele ressuscitou o Centro da União Espírita do Brasil, outros afirmam que a instituição se chamou Centro Espírita do Brasil. Como o próprio Bezerra o chamou de Centro Espírita Fraternidade, em um artigo para o jornal O PAIZ, ficamos com a terceira opção.
Bezerra entregou-se de corpo e alma ao trabalho da unificação. No final de 1889, muito sobrecarregado e desejando dedicar-se ainda mais ao Centro Espírita Fraternidade, Bezerra passou a presidência da FEB ao colega médico Francisco Dias da Cruz.
Animado com o projeto do Fraternidade, Bezerra dividiu os centros em categorias e instalou a Escola de Médiuns. Também pretendia também lançar uma revista de estudos práticos, fazer conferências públicas e realizar experimentações científicas.
No entanto, o esforço de Bezerra foi inútil. Os melindres pessoais não permitiram a divisão dos centros em categorias. A Escola de Médiuns foi instalada, mas pouquíssimos alunos procuraram o curso. Por sua vez, os dirigentes não apareciam nas reuniões de diretoria. Os místicos acharam o programa do Centro muito científico e esses não prestigiaram o empreendimento. Em síntese, o movimento não apoiou a programação de Bezerra.
Desapontado, Bezerra fechou a casa, abandonou o trabalho de unificação e passou a freqüentar exclusivamente o Grupo Ismael, também chamado de Grupo dos Humildes ou Grupo do Sayão, principal reduto dos místicos.
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A união era difícil, mas necessária.
Em outubro de 1890, é promulgado o Código Penal da República, que, maldosamente, associa a prática do Espiritismo a rituais de magia e adivinhações. O texto dizia o seguinte no Artigo 157: "É crime praticar o Espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talimãs e cartomancia (...), inculcar curas de moléstias (...) e subjulgar a credulidade pública. Pena: prisão celular de 1 a 6 meses e multa de 100 a 500 $".
Os espíritas reclamaram com Campos Sales, Ministro da Justiça da época, mas isso nada adiantou. O relator do Código, João Batista Pinheiro, limitou-se a dizer que o texto referia-se à prática do "baixo" Espiritismo. Como se existissem dois Espiritismos...
Na verdade, os republicanos utilizaram os espíritas como bodes expiatórios para diminuir a oposição católica ao novo regime, causada pelo desatrelamento entre a Igreja e o Estado.
Como conseqüência do Código, vários companheiros foram presos em 1891, no Rio de Janeiro.
Preocupado com possíveis focos de resistência ao regime, o Governo autorizou a polícia a invadir reuniões e residências à procura de opositores. Para evitar confusões, muitos centros decidiram fechar temporariamente.
Na comemoração do 7º aniversário do REFORMADOR, Augusto Elias da Silva afirma que a FEB é a única instituição capaz de unir os espíritas.
Em 1893, a Revolta da Armada contra o Floriano Peixoto fez com que o Governo endurecesse ainda mais o regime. Nessa época, os espíritas apresentaram novo protesto ao Congresso Nacional contra o Código Penal. O esforço foi inútil. A comissão revisora do Código não atendeu às reivindicações dos espíritas.
Vitimado por dificuldades externas e internas, o REFORMADOR deixa de circular no último trimestre daquele ano. Apenas Bezerra de Menezes se mantém firme na sua coluna semanal em O PAIZ.

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Em 1894, com a situação política abrandada, Augusto Elias investe contra o marasmo que dominara o movimento.
Junto com Fernandes Figueira e Alfredo Pereira, ele inicia uma campanha financeira para sustentar e ampliar os projetos da FEB. O REFORMADOR volta a circular e a diretoria retoma seu programa de neutralidade entre místicos e científicos.
A proposta foi defendida no editorial intitulado "Sectarismo": "O espírita está, pois, em seu verdadeiro posto quando se coloca entre o homem de ciência e o homem de fé, não possuindo as crendices de um, nem, por igual, as negações de outro. Não nos desviemos do nosso lugar. Postos entre a fé e a razão, evitemos os exageros do sectarismo, pois que ele é o verdadeiro inimigo".
Insatisfeitos com a política conciliadora da FEB, os científicos, encabeçados por Angeli Torteroli, abandonam a instituição e fundam, no dia 4 de abril de 1894, outra casa federativa, o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil.

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No final de 1894, após quatro anos, Dias da Cruz decide deixar a presidência da FEB. O motivo era o receituário mediúnico da Assistência aos Necessitados, departamento beneficente da entidade, que prescrevia remédios homeopáticos.
Como médico, Dias da Cruz tinha restrições a essa atividade.
Júlio César Leal parecia ser o candidato ideal. Advogado, professor de Humanidades e grande estudioso do Espiritismo, Leal também era um ardoroso adepto da homeopatia mediúnica. Prestigiado por todos, é eleito presidente da FEB.
O problema é que Júlio César não manteve a mesma neutralidade de Dias da Cruz, passando a apoiar os científicos, em detrimento dos místicos.
O REFORMADOR, sob a direção dos místicos Leopoldo Cirne e Alfredo Pereira, começou a fazer oposição ao presidente, publicando uma série de artigos intitulada "Nossa Missão". Aceitando a subordinação da FEB, Júlio César nomeia um representante da casa para o conselho federativo da União Espírita. Além disso, passa a freqüentar assiduamente o reduto científico, relaxando seu trabalho na FEB, onde quase não aparecia. Os místicos reagiram duramente.
Em julho, a crise chega ao auge. O vice-presidente Dias da Cruz ainda tentar fazer a situação retornar ao equilíbrio, através do artigo "Tolerância e Bondade". Era tarde demais. Júlio César Leal, sob pesada resistência interna, renuncia à presidência da FEB e filia-se à União.
Percebendo que os místicos pretendiam tomar o poder e recolocar a FEB na liderança do movimento sob uma bandeira mística, Dias da Cruz não assumiu o cargo vago, alegando sua incompatibilidade com o receituário mediúnico e qualquer programa radical. "Chegara a oportunidade dos místicos", como disse Silvino Canuto Abreu. O primeiro passo para a vitória era eleger um presidente místico forte, que lhes garantisse a hegemonia interna e externamente anulasse a ação dos científicos da União Espírita. Leopoldo Cirne e Alfredo Pereira, líderes da movimentação, não tiveram dúvida. A pessoa certa para essa tarefa era Bezerra de Menezes.

BIBLIOGRAFIA:

TORTEROLI, UM NOME QUASE ESQUECIDO, Mauro Quintella, JORNAL ESPÍRITA, setembro de 1985.
ESBOÇO HISTÓRICO DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA, Editora da FEB.
BEZERRA DE MENEZES, Canuto Abreu, FEESP.
REFORMADOR, edições do Século XIX existentes na BIBLIOTECA NACIONAL, Rio de Janeiro.
A POSIÇÃO ZERO - INTRODUÇÃO HISTÓRICA E DIALÉTICA A ROUSTAING, série de artigos de Luciano dos Anjos, publicada no jornal OBREIROS DO BEM do Rio de Janeiro, em 1979.


CAPÍTULO 2
A SEGUNDA GESTÃO DE BEZERRA

Durante o tempo em que esteve afastado do trabalho de unificação, Bezerra abandonou a postura de equidistância entre o misticismo e o cientificismo, assumida em 1889, na sua primeira gestão à frente da FEB, e transformou-se num autêntico representante da primeira tendência.
Acredito que essa mudança deve-se à influência que os místicos Bittencourt Sampaio, Antônio Luís Sayão e Frederico Júnior exerceram sobre ele, durante o período em que Bezerra se isolou no Grupo Ismael (também chamado de Grupo dos Humildes e Grupo do Sayão), principal reduto do pensamento místico e roustainguista, que funcionava nas dependências da FEB.
Na minha avaliação, foi durante essa fase que Bezerra aprofundou seu conhecimento sobre OS QUATRO EVANGELHOS de J.B. Roustaing e tornou-se um defensor incondicional da obra.
O pesquisador Luciano dos Anjos pensa diferente e afirma que Bezerra já era místico e roustainguista em 1889. Minha posição baseia-se em trecho do livro ESBOÇO HISTÓRICO DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA (p. 24 da edição de 1924), redigido por Leopoldo Cirne, contemporâneo de Bezerra.
Os fatos, porém, falam por si mesmos. Basta comparar as duas gestões de Bezerra. Enquanto a primeira teve até certo colorido científico, a segunda foi claramente mística e roustainguista.

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Alfredo Pereira e Leopoldo Cirne não perderam tempo e levaram a idéia da candidatura a Dias da Cruz e Augusto Elias. Embora defendessem o princípio da conciliação, os dois aprovaram o projeto. Que podiam fazer? Quem teria coragem de vetar o nome de Bezerra? Só um científico!
A princípio, Bezerra de Menezes, não quis aceitar o convite, alegando que seu perfil não agradaria a todas as tendências. Como resposta, os dirigentes febianos disseram que ele teria poderes discricionários para imprimir a orientação que julgasse mais acertada. O famoso médico pediu um tempo para pensar na proposta e ouvir a opinião de seus guias espirituais. À noite, na reunião mediúnica do Grupo Ismael, Bezerra foi estimulado pelo Espírito Santo Agostinho e decidiu aceitar o cargo.

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É assim que, no dia 3 de agosto de 1895, Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti assume novamente a direção da FEB, numa assembléia em que os estatutos da instituição foram reformados para concederem amplos poderes ao novo presidente e tornarem obrigatório o estudo de J.B. Roustaing (artigo 4º , 1º parágrafo).
Em novembro, o novo presidente inicia uma série de artigos no REFORMADOR contra a ideologia científica e o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil.
Dias da Cruz fica na vice-presidência da FEB até o final de 1895 e, depois, recolhe-se a voluntário ostracismo. Mantendo sua postura ideológica, ele não entrou na luta entre místicos e científicos.
Augusto Elias e Bezerra de Menezes foram convidados para a diretoria do Centro da União. Elias assumiu o cargo e efetivamente trabalhou pela instituição. A aceitação de Bezerra foi pro forma, como ele explicaria depois.
Esse convite dos científicos ao presidente febiano é muito estranho. Uma de duas. Ou eles pretendiam cooptá-lo ou desconheciam o projeto de Bezerra.
Para acelerar o processo de unificação, o Centro da União convocou um Congresso Espírita Permanente, cujas reuniões se dariam semanalmente, até quando os delegados julgassem necessário.
O fim do Centro da União deu-se em 1897, depois de dois anos de disputa com a FEB pela liderança do movimento. Abaixo seguem os lances dessa verdadeira batalha ideológica, travada nas páginas da imprensa espírita. De um lado, Bezerra comandando os místicos, de outro, Torteroli liderando os científicos.

15 de novembro de 1895

Bezerra publica seu primeiro artigo contra os científicos, "Res non verba". A matéria critica a montagem da peça "O crime do padre Amaro" de Eça de Queiroz numa das reuniões ordinárias do Congresso Espírita Permanente.

1º de janeiro a 1º de março de 1896

Bezerra publica a série "Os tempos são chegados".

15 de março de 1896

Bezerra publica o artigo "Falsos profetas".
A União, através do Ofício no 248, publicado no REFORMADOR, afirma que suas posições doutrinárias não são infalíveis e pede que os centros espíritas se manifestem sobre o problema da conceituação do Espiritismo.

1º de maio de 1896

Bezerra publica o artigo "Pelo fruto se conhece a árvore".

1º de julho de 1896

Bezerra publica o artigo "Espiritismo - ciência ou religião?".
O Centro da União exonera Bezerra de sua diretoria, acusando-o de ter militância político-partidária.

15 de agosto de 1896

Bezerra publica o artigo "A verdadeira propaganda", onde afirma que aceitou ser diretor do Centro da União na esperança de que a instituição seguisse um caminho correto.
Na sua avaliação, sua exoneração deu-se por suas motivos doutrinários e não por sua possível militância partidária.
Bezerra critica Torteroli por ter afirmado que Jesus não era seu senhor - e sim seu irmão e seu igual. Ao final, pede que o movimento se decida entre a FEB e o Centro da União.

1º de setembro de setembro de 1896

Bezerra publica um Aviso, comunicando que ele e a FEB não tinham mais nenhuma relação com o Centro da União.
O fato do REFORMADOR divulgar notas e ofícios do Centro da União não representava ligação com a entidade e sim mera condescendência.
O presidente informa que destituiu o representante da FEB junto ao Centro da União, nomeado na gestão de Júlio César Leal.
No mesmo número do REFORMADOR, Bezerra divulga o artigo "Ainda a propaganda espírita".

15 de setembro de 1896

O Centro da União publica o Ofício no 487 no REFORMADOR, onde explica o verdadeiro sentido da frase de Torteroli sobre o Nazareno: Jesus não é meu senhor - e sim meu irmão amado, que me auxilia a chegar até ele.
Bezerra publica o artigo "Clama, não cesses", onde contesta o lema Amor, Deus e Liberdade da União, afirmando que quem não segue Jesus, não pode invocar o nome de Deus.
O presidente febiano critica também o uso de flâmulas na porta do Centro da União: "Os templos não têm flâmulas (...). Isso é próprio de festas mundanas, nunca de exercícios religiosos".

11 de outubro de 1896

O científico Vítor Antônio Vieira publica no JORNAL DO BRASIL uma extensa e pesada crítica aos artigos de Bezerra.
Em determinado trecho, diz a matéria: "Os argumentos produzidos pelo Dr. Bezerra de Menezes, em prol da sua orientação espírita, não passam de vistosas bolhas de sabão, sopradas pelo seu misticismo para deslumbrar a simplicidade ignorante dos que não sabem ou não querem se dar ao trabalho de raciocinar".
Em seu livro VIDA E OBRA DE BEZERRA DE MENEZES (p. 112, FEB), Sílvio Brito Soares diz que o texto acima é do "chefe" da "tal União". Com isso, o atribui erradamente a Angeli Torteroli.

15 de outubro de 1896

Bezerra publica outro artigo com o título "Pelo fruto se conhece a árvore" (o primeiro saiu em maio).
O presidente da FEB critica uma mensagem ditada pelo Espírito Luíza Maia, intitulada "Prece".
Essa página faz parte de uma coletânea de textos mediúnicos, publicada como apêndice do EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO editado pela Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade.
Bezerra não gostou da tese de que Deus não castiga nem perdoa, contida na mensagem: "Tu (Deus) me criastes com o livre-arbítrio para eu ter o mérito do meu progresso moral e intelectual. Tu não me castigas e não me perdoas, porque só te vinculas comigo pelo teu amor".

2 de novembro de 1896

Bezerra publica a primeira parte do artigo "Fiat Lux".
Na mesma edição do REFORMADOR, o Centro da União divulga o Ofício no 522, afirmando que levará o problema da natureza e conceituação do Espiritismo à decisão do Congresso Espírita Permanente.

15 de novembro de 1896

Bezerra publica a segunda parte de "Fiat Lux" e a primeira parte de "Uma simples réplica".
Como o próprio nome diz, o segundo artigo é uma resposta às criticas do científico Vítor Antônio Vieira.
O Centro da União divulga o Ofício no 529 no mesmo número do REFORMADOR, afirmando que adotará a conceituação de Espiritismo que for votada na sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente, marcada para o final do mês.

1º de dezembro de 1896

O REFORMADOR informa que alguns grupos espíritas romperam com o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil: Esperança e Fé de Franca, Filhos de Deus de Barra do Piraí e Antônio de Pádua de Ouro Preto.
Bezerra publica a terceira parte de "Fiat Lux" e a segunda parte de "Uma simples réplica".

15 de dezembro de 1896

Bezerra divulga a quarta parte de "Fiat Lux", onde afirma que o Espiritismo do Centro da União é influenciado pelo Positivismo de Augusto Comte.
Angeli Torteroli publica o livro O ESPIRITISMO NO BRASIL E EM PORTUGAL, onde reproduz o artigo de Vítor Antônio Vieira, originalmente veiculado no JORNAL DO BRASIL.

1º de janeiro de 1897

O noticiário do Centro da União, publicado no REFORMADOR, informa que a instituição realizou uma "procissão cívica" (passeata), como atividade preparatória da sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente.
Leopoldo Cirne, vice-presidente da FEB desde a saída de Dias da Cruz, publica o artigo "Pax", pedindo a união da família espírita brasileira.
Esse texto de Cirne é inusitado e surpreendente. Como ele pôde pedir paz e união quando foi um dos responsáveis pelo embate entre místicos e científicos?
Isso demonstra que alguma coisa havia mudado na cabeça de Leopoldo Cirne. Será que ele percebeu, tardiamente, que o convívio democrático entre as facções era mais importante que a vitória de uma delas?

15 de janeiro de 1897

Bezerra publica o artigo "Paz".
Nesse texto, o presidente febiano discorda abertamente de Cirne e chega a ser agressivo: "Guerra aos que dão costas à luz".
Leopoldo silencia - mas realmente havido de posição sobre algumas coisas. Essa mudança só ficou clara quando ele substituiu Bezerra na presidência da FEB em 1900.

1º de fevereiro de 1897

Bezerra publica o artigo "Mirabile dictu".
O presidente febiano discorda da idéia de definir o Espiritismo em um congresso. Segundo ele, essa definição já havia sido dada por Kardec e Roustaing.
O famoso médico também questiona a representativa do Congresso Espírita Permanente, que, na sua avaliação, era composto por apenas 12 entidades.

1º de março de 1897

O REFORMADOR transcreve uma carta da revista espírita PERDÃO, AMOR E CARIDADE de São Paulo.
Esse documento pede que os centros que discordarem do Centro da União cerrem fileira com a FEB.
A revista diz que vai publicar mensalmente o nome dos grupos que passarem para o lado da Federação.

15 de abril de 1897

Bezerra responde às críticas da revista RELIGIÃO ESPÍRITA, mensário do Centro Espírita do Rio Grande do Sul.

28 de agosto de 1897

Uma sessão extraordinária do Congresso Espírita Permanente comemora o 16º aniversário da primeira perseguição aos espíritas brasileiros. Augusto Elias da Silva estava presente.

1º de setembro de 1897

A REVISTA ESPÍRITA DO BRASIL, órgão oficial do Centro da União, publica o artigo "Praticamos a ciência espírita e a moral cristã", onde faz a defesa de suas posições doutrinárias:
a) Jesus era um filósofo e, por isso, não fundou uma religião;
b) conforme afirmou Kardec, a moral de Jesus é a parte essencial dos Evangelhos;
c) não há contradição entre o cultivo da moral cristã e a prática da ciência;
d) O Espiritismo é uma ciência integral e progressiva;
e) a finalidade do Espiritismo é regenerar a sociedade;
f) as posições doutrinárias dos científicos encontram respaldo nos congressos espíritas de Barcelona, Madri e Paris.
O texto foi assinado pela Diretoria Central do Centro da União.

1º de novembro de 1897

Augusto Elias da Silva, Ernesto dos Santos Silva, João Gurgel Valente, José Vila Franca e Manoel Joaquim Maximino divulgam um lacônico comunicado ao movimento espírita, informando que haviam saído do Centro da União.
Não há indícios de que Pinheiro Guedes, Lima e Cirne e Júlio César Leal também tenham abandonado a casa.

15 de novembro de 1897

No artigo "Lamentável", Bezerra comenta a saída de alguns membros do Centro da União.
Segundo ele, os cinco elementos, que ocupavam cargos na diretoria, saíram, por vontade própria, decepcionados com o comportamento moral de Torteroli.
Abaixo segue um resumo do artigo. As acusações a Torteroli estão grifadas por nós.

"Os jornais desta capital publicaram (...) declaração (...) firmada por cinco diretores do Centro (da União).
Gravíssimos motivos (...) atuaram no ânimo desses confrades para assim procederem (...), e são de tal ordem (...), que somos forçados a desprezar o exemplo que tolerância, que encerra o citado aviso (...), em face (...) dos verdadeiros atentados em nome (...) de uma doutrina santa, prostituída e sacrificada por quem se inculca falsamente apóstolo e propagandista (...).
Há (...) um grupo que faz do Espiritismo uma espécie de balcão, com uma sacola à entrada, em que visitantes são taxados a tanto por cabeça (...), há (...) um lugar (...), em cujo frontespício se ostenta uma tabuleta-reclame, com inscrições espíritas, mas, em cujo interior, o que se faz é a exploração da imoralidade, a que o Espiritismo apenas serve de engodo e pretexto.
Antes de finalizar, sentimos necessidade de endereçar algumas palavras à infeliz criatura (Torteroli), cujo (...) procedimento nos obriga a esse protesto (...). O déficit de uma existência malbaratada em orgias de prazer, quando deveria ter sido posta ao serviço do bem e da verdade, há de exigir longos séculos (...) para que possa vir a ser equilibrada.
Recue enquanto é tempo desse despenhadeiro fatal a que sua fraqueza o arrastou e em cujo fundo o aguardam as mais lancinantes dores, quando não a própria morte moral."

O texto de Bezerra dá a entender que Torteroli ganhava dinheiro com as atividades espíritas e, além disso, entregava-se a algum tipo de viciação. O presidente da FEB não diz qual era o móvel dessas "orgias de prazer".

27 de novembro de 1897

Em defesa de Torteroli, os outros membros do Centro da União publicam uma matéria na GAZETA DE NOTÍCIAS, jornal diário do Rio de Janeiro.
Vejamos os trechos mais significativos do artigo.

"Vossa Senhoria devia ser compelido a provar tudo o que escreveu em seu jornal contra o Centro da União Espírita.
Não o fazemos e até perdoamos as diatribes porque sabemos que (...) Vossa Senhoria guarda (...) certo rancor contra um dos diretores do Centro (Torteroli), porque ele teve a ousadia de não obedecer a Vossa Senhoria e dizer-lhe algumas verdades desagradáveis (...).
Esse homem é um daqueles que lançaram os fundamentos do Espiritismo no Brasil (...).
Esse homem, que esse senhor (...) diz que faz do Espiritismo uma "espécie de balcão", com uma "sacola à entrada", não quis ganhar dinheiro, podendo até fazê-lo sem rebuço (...).
Esse homem nada tem, vive paupérrimo, empregando tudo o que possui (...) em prol do Espiritismo.
Esse homem (...), que Vossa Senhoria atou ao seu pelourinho (...), tem faltas, sabe que há de expiá-las, mas não as esconde hipocritamente, como aqueles fariseus e doutores da Igreja (..).
Esse homem (...) vos perdoa (...) porque vê que estais eivado do mesmo vírus dos fariseus. É o vírus do fanatismo religioso. A vossa linguagem é por demais católica (...). Ela cheira à sacristia".

O texto é enfático em afirmar que Torteroli não ganhava dinheiro com o Espiritismo. Pelo contrário. Ele estava sem recursos porque colocava suas economias a serviço da causa. A bem da verdade, devo informar que ele realmente morreu pobre. Muito doente, aos 79 anos de idade, foi internado numa enfermaria pública da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro. Vindo a falecer, no dia 11 de janeiro de 1928, seu enterro teve que ser custeado pelo Coronel Antônio Barbosa da Paixão, companheiro de lides espíritas (Torteroli militou até o fim da vida).
Por outro lado, o texto diz que ele tinha faltas a expiar. Os redatores estavam concordando com Bezerra ou falando em termos genéricos? Fica difícil saber...
Não tenho procuração de Torteroli para defendê-lo, no entanto, gostaria de aventar duas hipóteses que, talvez, o isentem de culpa:

a) é possível que Torteroli cobrasse uma espécie de dízimo dos freqüentadores do Centro da União para ajudar nas despesas da casa. Essa prática é questionável, mas não é passaporte para o inferno;

b) é possível que Torteroli tenha fruído prazeres, que Bezerra e os cinco diretores do Centro da União consideraram imorais. Para Angeli Torteroli, o Espiritismo não era uma religião. Por isso, ele tinha um comportamento muito liberal, dentro e fora dos centros. Advogado, jornalista e professor, montava peças teatrais, fazia passeatas espíritas, enfeitava as fachadas das instituições e fazia reportagens policiais. O cronista Hermeto Lima do JORNAL DO BRASIL (edição de 13 de janeiro de 1928) conta que os boêmios, que não tinham onde dormir ou haviam perdido o último bonde, pernoitavam no centro espírita de Torteroli. Uma atitude laica demais até para os dias de hoje.

Em carta aos companheiros, também publicada na GAZETA DE NOTÍCIAS, Torteroli reclama: "Supomos que os que nos guerreiam (...) sabem que estão faltando à verdade e exagerando os fatos, na intenção de matar o Centro da União Espírita para dar grande vida à Federação (...)" .
Noticiando sua morte, a FEB é mais complacente (REFORMADOR de janeiro de 1928): "De qualquer modo (...) que se encare o feitio moral de Torteroli, jamais se poderá escurecer a sua sinceridade ao serviço, afrontando todas as malquerenças (...) e jamais regateando predicados de generosidade aos seus semelhantes (...)".

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Sob a férrea oposição de Bezerra, que bateu forte no seu dirigente máximo, o Centro da União Espírita de Propaganda no Brasil acabou fechando no final de 1897.
Com o fim do Centro da União, os científicos se desarticularam e uma FEB totalmente mística e roustainguista voltou ao comando do movimento. Bezerra de Menezes havia sido vitorioso.
Pouco a pouco, a idéia de que o Espiritismo era ciência, filosofia e religião foi se firmando. Essa tese interessava à Federação. Com ela, os espíritas mais racionalistas acabavam aceitando o lado religioso da Doutrina e a FEB perdia o qualificativo de mística. Isso facilitaria a união do movimento em torno da Federação e a irradiação da sua plataforma doutrinária.
Com a aceitação da tríade ciência-filosofia-religião, os termos místicos e científicos acabaram caindo em desuso até desaparecer.
No entanto, a verdadeira paz e a completa união estavam longe de serem atingidas. A defesa da obra de Roustaing pela FEB, que fazia parte das divergências entre místicos e científicos, mas passava meio despercebida no meio das discussões sobre o caráter do Espiritismo, passou a incomodar os companheiros que aceitavam o aspecto religioso da Doutrina, mas não gostavam do trabalho do advogado bordelense.
BIBLIOGRAFIA:
Jornais e revistas
GAZETA DE NOTÍCIAS, edição de 27 de novembro de 1897
JORNAL DO BRASIL, edições de 11 de outubro de 1896 e 13 de janeiro de 1928
REFORMADOR, edições de 1895 a 1900
REVISTA DA SOCIEDADE ACADÊMICA, edições de 1881 a 1882
O RENOVADOR, Sociedade Acadêmica, edição de agosto de 1897
REVISTA ESPÍRITA DO BRASIL, Centro da União, edições de agosto a dezembro de 1897
REVISTA ESPÍRITA DO BRASIL, Liga Espírita do Brasil, edições de 1935 a 1938
OBREIROS DO BEM, Associação Espírita Obreiros do Bem, edições de 1978 a 1989

Livros
GRANDES ESPÍRITAS DO BRASIL, Zêus Wantuil, FEB
ALLAN KARDEC - VOLUME 3, Francisco Thiesen e Zêus Wantuil, FEB
ESPIRITISMO BÁSICO, Pedro Franco Barbosa, FEB
BEZERRA DE MENEZES, Canuto Abreu, FEESP
VIDA E OBRA DE BEZERRA DE MENEZES, Sílvio Brito Soares, FEB
BEZERRA DE MENEZES, O MÉDICO DOS POBRES, Francisco Aquaronte, Aliança
BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO, Humberto de Campos, FEB
OS INTELECTUAIS E O ESPIRITISMO, Ubiratan Machado, Antares
O ESPIRITISMO NO BRASIL E EM PORTUGAL, Angeli Torteroli, Sociedade Acadêmica
ESBOÇO HISTÓRICO DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA, FEB
http://www.universoespirita.org.br/NOVA_ERA/BREVE_HISTORIA.htm

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