sábado, outubro 20, 2007
Por que a verdade não é de ninguém?
Por que a verdade não é de ninguém?
"O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer aceito livremente e pela razão. Longe de temer para a fé dos espíritas a leitura de obras que o combatem, ele lhes diz: Lede tudo, pró e contra, e escolhei com conhecimento de causa".
(Revista Espírita, janeiro de 1868 - resposta de Allan Kardec a uma obra que refutava o Espiritismo)
José Benevides Cavalcante
Uma das características da história da humanidade é a disputa pela verdade. Em nome dela, os homens se digladiaram e a intolerância se instalou. Neste particular, o primeiro campo de luta foi, sem dúvida, a religião. A idéia do sobrenatural estabeleceu uma separação nítida entre o profano e o sagrado, a verdade do homem e a verdade proibida, jamais questionada. A primeira, próxima e limitada, era inteligível e, portanto, objeto da razão; a segunda, distante e infinita, somente alcançada pela fé, que os mandatários ditavam.
No século XVI, em pleno período da Inquisição Religiosa, um jovem padre espanhol decidiu não aceitar certos dogmas da Igreja. Seu nome? Miguel de Servet. Impetuoso e idealista, ousou empunhar a bandeira da razão, como primeiro critério de verdade. Logo estava no livro negro dos hereges, perseguido pelo movimento repressor. Chegou a fazer medicina em Paris, onde contestou através de experiências, as afirmações de Galeno, quanto ao sistema circulatório do corpo humano. Na Basiléia, na Suíça, cidade governada por Calvino, um dos grandes líderes do protestantismo ouviu e discordou de suas pregações. Foi preso e julgado. Atuando em defesa própria, esteve próximo de convencer o júri de sua inocência. Porém Calvino, autoritário e intransigente, destituiu o juiz e ele próprio passou a presidir o tribunal. Para ele, toda a verdade estava encerrada na Bíblia. Ao final do julgamento, dirigindo-se ao réu, Calvino lhe perguntou:
É verdade que o senhor leu o Alcorão?
Sim, senhor.
E o senhor concorda com o que está escrito nesse livro?
Não concordo com tudo, Excelência- respondeu- mas concordo com muita coisa que está escrita ali. Mas é possível que futuramente venha a concordar com outros pontos de que hoje discordo.
Sua resposta fora tomada por provocação e bastou para ser condenado à fogueira.
Além de Servet, muitos outros espíritos corajosos, como Giordano Bruno e Johann Huss, precursores do liberalismo, desafiaram a verdade institucionalizada, pagando alto preço pela ousadia, mas preparando o mundo para uma nova era.
Hippolyte Léon Denizard Rivail, em 1857, na França, também ousou discordar publicamente da verdade institucionalizada, fazendo nascer a figura ousada de Allan Kardec, ao proclamar a nova doutrina. O período negro da inquisição, que matava homens, já havia passado; agora, no máximo, poderiam queimar livros, sob a crença ingênua de que, assim, estariam destruindo idéias.
A nova doutrina decorria de um amplo movimento espiritual, que reunia Espíritos de mente aberta, impulsionados pelas grandes conquistas do pensamento humano. Essa doutrina vinha proclamar a verdade, sem vínculo com interesses religiosos, políticos ou econômicos. Não podia, portanto, se constituir numa instituição, numa seita ou numa igreja, mas numa doutrina progressista, acessível às idéias renovadoras. Para tanto era fundamental a presença de Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, para assumir a sua constituição, desvinculada de qualquer outro interesse que não fosse a busca da felicidade humana.
Poucos entenderam que, no pensamento espírita, não poderia haver idéias preconcebidas, que nele a verdade não seria mais tratada como propriedade particular de um homem ou de um grupo, mas como conquista de todos, sem as barreiras da discriminação e sem as chagas a intolerância. O espírita, na acepção ampla do termo, não seria um religioso comum, que se encerra no estreito mundo do fideísmo dogmático, fechando os olhos à realidade do mundo. Ele não olharia apenas numa direção, mas em todas as direções possíveis, assimilando a verdade, vinda de onde vier, dispensando, pelo menos por momento, aquilo com que não pôde concordar.
Advogado, vice-presidente do CE. Caminho de Damasco e USE Intermunicipal de Garça – SP. Autor da obra : Fundamentos da Doutrina Espírita.
e-mail: jobenevides@bol.com.br
Publicado no Correio Fraterno edição de 40 anos – set/out - 2007
"O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer aceito livremente e pela razão. Longe de temer para a fé dos espíritas a leitura de obras que o combatem, ele lhes diz: Lede tudo, pró e contra, e escolhei com conhecimento de causa".
(Revista Espírita, janeiro de 1868 - resposta de Allan Kardec a uma obra que refutava o Espiritismo)
José Benevides Cavalcante
Uma das características da história da humanidade é a disputa pela verdade. Em nome dela, os homens se digladiaram e a intolerância se instalou. Neste particular, o primeiro campo de luta foi, sem dúvida, a religião. A idéia do sobrenatural estabeleceu uma separação nítida entre o profano e o sagrado, a verdade do homem e a verdade proibida, jamais questionada. A primeira, próxima e limitada, era inteligível e, portanto, objeto da razão; a segunda, distante e infinita, somente alcançada pela fé, que os mandatários ditavam.
No século XVI, em pleno período da Inquisição Religiosa, um jovem padre espanhol decidiu não aceitar certos dogmas da Igreja. Seu nome? Miguel de Servet. Impetuoso e idealista, ousou empunhar a bandeira da razão, como primeiro critério de verdade. Logo estava no livro negro dos hereges, perseguido pelo movimento repressor. Chegou a fazer medicina em Paris, onde contestou através de experiências, as afirmações de Galeno, quanto ao sistema circulatório do corpo humano. Na Basiléia, na Suíça, cidade governada por Calvino, um dos grandes líderes do protestantismo ouviu e discordou de suas pregações. Foi preso e julgado. Atuando em defesa própria, esteve próximo de convencer o júri de sua inocência. Porém Calvino, autoritário e intransigente, destituiu o juiz e ele próprio passou a presidir o tribunal. Para ele, toda a verdade estava encerrada na Bíblia. Ao final do julgamento, dirigindo-se ao réu, Calvino lhe perguntou:
É verdade que o senhor leu o Alcorão?
Sim, senhor.
E o senhor concorda com o que está escrito nesse livro?
Não concordo com tudo, Excelência- respondeu- mas concordo com muita coisa que está escrita ali. Mas é possível que futuramente venha a concordar com outros pontos de que hoje discordo.
Sua resposta fora tomada por provocação e bastou para ser condenado à fogueira.
Além de Servet, muitos outros espíritos corajosos, como Giordano Bruno e Johann Huss, precursores do liberalismo, desafiaram a verdade institucionalizada, pagando alto preço pela ousadia, mas preparando o mundo para uma nova era.
Hippolyte Léon Denizard Rivail, em 1857, na França, também ousou discordar publicamente da verdade institucionalizada, fazendo nascer a figura ousada de Allan Kardec, ao proclamar a nova doutrina. O período negro da inquisição, que matava homens, já havia passado; agora, no máximo, poderiam queimar livros, sob a crença ingênua de que, assim, estariam destruindo idéias.
A nova doutrina decorria de um amplo movimento espiritual, que reunia Espíritos de mente aberta, impulsionados pelas grandes conquistas do pensamento humano. Essa doutrina vinha proclamar a verdade, sem vínculo com interesses religiosos, políticos ou econômicos. Não podia, portanto, se constituir numa instituição, numa seita ou numa igreja, mas numa doutrina progressista, acessível às idéias renovadoras. Para tanto era fundamental a presença de Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi, para assumir a sua constituição, desvinculada de qualquer outro interesse que não fosse a busca da felicidade humana.
Poucos entenderam que, no pensamento espírita, não poderia haver idéias preconcebidas, que nele a verdade não seria mais tratada como propriedade particular de um homem ou de um grupo, mas como conquista de todos, sem as barreiras da discriminação e sem as chagas a intolerância. O espírita, na acepção ampla do termo, não seria um religioso comum, que se encerra no estreito mundo do fideísmo dogmático, fechando os olhos à realidade do mundo. Ele não olharia apenas numa direção, mas em todas as direções possíveis, assimilando a verdade, vinda de onde vier, dispensando, pelo menos por momento, aquilo com que não pôde concordar.
Advogado, vice-presidente do CE. Caminho de Damasco e USE Intermunicipal de Garça – SP. Autor da obra : Fundamentos da Doutrina Espírita.
e-mail: jobenevides@bol.com.br
Publicado no Correio Fraterno edição de 40 anos – set/out - 2007