sábado, novembro 17, 2007

 

Devemos publicar tudo quanto os Espíritos dizem?

Devemos publicar tudo quanto os espíritos dizem?
Esta pergunta nos foi dirigida por um dos nossos correspondentes. Respondemo-la da maneira seguinte:
Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?
Quem quer que possua uma noção, por menos profunda ue seja, do Espiritismo, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram sobre Terra o envoltório visível; despojando-se, porém, do homem carnal, nem todos se revestiram, por isso mesmo, da túnica dos anjos. Há-os de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade -- eis o que não podemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, estúrdios e brincalhões; falsos sábios, vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malévolos e, o que nos parecia inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia do mundo, há sensuais vilões e crapulosos, que se arrastam na lama. Ao lado disto, sempre como na Terra, temos seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes. Como, entretanto, o nosso mundo não está na primeira nem na última posição, posto seja mais vizinho da última que da primeira, disso resulta que o mundo dos Espíritos encerra seres mais avançados intelectual e moralmente que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que ainda estão abaixo dos homens mais inferiorizados.
Como, porém, tais seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens, de exprimir os seus pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser um reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios. Serão levianas, triviais, grosseiras, mesmo obscenas, sábias, científicas ou sublimes, conforme seu caráter e sua elevação. Revelam-se por sua própria .linguagem. Daí a necessidade de não aceitar cegamente tudo que vem do mundo oculto, e submetê-lo a um controle severo.
Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poder-se-ia fazer uma coletânea muito pouco edificante.
Temos a nossa vista uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é a prova disto. Dela pode dizer-se que uma senhora não a recomendaria como leitura à filha. Por isto, não a recomendamos aos nossos leitores.
Há pessoas que acham isto engraçado e divertido. Então que se deliciem na intimidade, mas o guardem para si próprias. O que é ainda menos concebível é que se vangloriem de obter comunicações malsãs: é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas.
Isto não prejulga absolutamente nada em relação a moralidade atual, pois conhecemos pessoas afligidas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se presta o seu caráter. Entretanto, como todos os efeitos, este também deve ter uma causa. E se não a encontramos na existência presente, devemos procurá-la num estado anterior. Se não estiver em nós, estará fora de nós; e ai nos achamos por alguma coisa, quando mais não seja, pela fraqueza de caráter.
Conhecida a causa, de nós depende fazê-la cessar.
Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas.
Se forem dadas pelo que valem, haverá apenas meio-mal. Se o forem como estudo do gênero, com as precauções oratórias, os comentários e os corretivos necessários, poderão mesmo ser instrutivas, pois dão a conhecer o mundo espírita em todas as suas fraquezas.
Com prudência e habilidade tudo pode ser dito. O mal, entretanto, é dar como sérias coisas que chocam o bom senso, a razão e as conveniências.
Neste caso, o perigo é maior do que se pensa.
Para começar, tais publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de aprofundar-se e discernir entre o verdadeiro e o falso, principalmente numa questão tão nova quanto o Espiritismo. Em segundo lugar são armas fornecidas aos adversários, os quais não perdem a oportunidade para tirar dai argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita; porque, diga-se mais uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas que são notórios absurdos.
Alguns mesmo podem ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna deles.
As pessoas que estudaram a fundo a ciência espírita sabem qual a atitude que convém a este respeito. Sabem que os Espíritos zombeteiros não tem o menor escrúpulo de enfeitar-se com nomes respeitáveis; mas sabem também que esses Espíritos só abusam daqueles que gostam de se deixar abusar, que não sabem ou não querem esclarecer as suas astúcias pelos meios de controle já conhecidos.
O público, que ignora isto, vê apenas uma coisa: um grave absurdo oferecido à sua admiração. Dir-se-á então: se todos os espíritos são deste quilate, então não roubaram o epíteto que lhe deram.
Sem a menor dúvida, tal julgamento é inconsiderado. Eles são com justa razão acusados de leviandade. Deve ser-lhes dito: estudai o assunto e não examineis apenas uma face da medalha.
Há, porém, tanta gente que julga a priori e sem se dar ao trabalho de virar a página, principalmente quando não existe boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto possa dar motivos de censura. Porque se a má vontade juntar-se à malevolência, o que é muito comum, eles ficarão encantados de achar onde morder.
Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas, tais publicações não terão mais influência do que hoje teria um livro que encerrasse heresias científicas. Até lá nunca seria demasiada a circunspeção, porque há comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em escala muito maior que a dos grosseiros ataques e as injúrias de certos adversários. Se algumas fossem feitas com tal objetivo, não teriam melhor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, dando lugar, assim, a uma crítica fundamentada. Esses tais queixam-se do julgamento temerário de seus antagonistas, sem atentar para o fato de que muitas vezes é a sí mesmo que falta a couraça. Aliás, a despeito de todas as precauções, seria presunção suporem-se ao abrigo de toda crítica. A princípio, porque é impossível contentar a todo o mundo; depois, porque há pessoas que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por seu estado, outros por seu caráter. Riem muito da religião. Não é, pois, de admirar que riam dos Espíritos, pois não o conhecem. Se ainda estas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação; infelizmente em geral não brilham, nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e, ainda muito menos pela lógica.
Tomemos, então, o melhor partido: pondo de nosso lado a razão e a conveniência, ai meteremos também os trocistas.
Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos. Uma, porém, não é menos essencial, pois diz com a própria natureza das comunicações espíritas, e por isso não a devemos omitir: os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão escutados. As comunicações grosseiras e inconvenientes, algo simplesmente falsas, absurdas e ridículas, não podem deixar de emanar senão de Espíritos inferiores: o simples bom senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se vêem complacentemente escutados: ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e, muitas vezes, se apoderam destes e os dominam a ponto de os fascinar e os subjugar. A importância que, pela publicidade, é dada às suas comunicações, os atrai, os excita e os encoraja. O único e verdadeiro meio de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito tudo aquilo que não for razoável, tudo aquilo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e com cujo nome ele se enfeita. Então, quando vê que perde o tempo, afasta-se.
Julgamos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações. Publicar sem exame, ou sem corretivo, tudo quanto vem desta fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Esta é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que apresentamos à apreciação daqueles que, desinteressados na questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de dizer a nossa maneira de pensar sobre a ciência que é objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, não pretendendo impor nossas idéias a quem quer que seja, nem as apresentar como leis. Se há quem partilhe de nossa maneira de ver é porque, como nós, supõem estar certos. O futuro mostrará quem tem razão.

Fonte:
Revista Espírita, novembro de 1859

Comments: Postar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?