sexta-feira, abril 10, 2009

 

A FÉ E A RAZÃO

A FÉ E A RAZÃO
Fadel David Antonio Filho
I. SOBRE A FÉ

Provavelmente, desde os tempos pré-históricos, quando o homem já havia dominado o fogo para iluminar as trevas da noite e aquecê-lo do frio, ele deve ter se questionado sobre o sentido da existência. Provavelmente, quando já organizado em pequenas comunidades, e tendo conseguido equacionar os principais problemas de sobrevivência; o homem deve ter começado a se indagar, na busca de explicações, sobre os fenômenos com os quais se deparava no seu cotidiano e ao seu derredor. O por quê, o para quê e o como sempre intrigaram a mente humana.
Na busca de algum sentido ou propósito, explicação ou compreensão para os fenômenos ou fatos que fugiam da sua capacidade de entendimento ou controle, o homem foi levado a buscar respostas dentro de seu próprio universo imaginário.
Este lado emocional do homem, dominado por angústias, desejos e temores, levou-o a construir todo um conjunto de alegorias que alimentou o estabelecimento de uma cosmovisão escatológica cada vez mais apurada na qual passaram a co-existir dois 'reinos' ou “‘realidades’ distintas: o físico ou material e o espiritual. Este último, considerado ‘superior’ ao primeiro, passou a ser chamado de ‘mundo espiritual’”.
Estabeleceu-se, assim, a divisão entre o que era humano (mundo material ou físico) e o que era divino (mundo espiritual) e tal concepção veio a impregnar profundamente a nossa cultura ocidental.
A partir daí, surgiu a noção de que, ao homem, estavam vetadas certas áreas do conhecimento ou do saber, cujo acesso só era permitido aos seres divinos ou a Deus. É dentro desta tradição, por exemplo, que a teologia judaico-cristã incorpora a idéia do conhecimento ou saber proibido, da transgressão (ou do pecado) e da culpa impostos à humanidade como expiação ou castigo, pela' desobediência' (ou melhor, seria dizermos 'ousadia'?!) do primeiro casal humano. A alegoria envolvendo Adão e Eva, ou seja, a tentação de comer o"fruto proibido" e a conseqüente expulsão do casal dos jardins do Éden, pode ser interpretada como o momento no qual a humanidade, ainda primitiva adquirira a capacidade do raciocínio e a consciência de ser. Este momento crucial aconteceu a partir de um cérebro que evoluiu e tornou-se capaz de armazenar informações da experiência vivida e deduzir daí a melhor ação a ser executada. O homem perdera a 'inocência', deixando de agir só com o instinto, como os seres irracionais. Estava capacitado, agora, para adquirir conhecimento e inquirir. Ousou e por isso foi 'castigado'.
Sobre este assunto, escreveu LIGHTMAN (1999, D6), professor de Ciências Humanas e palestrante Sênior de Física no Massachusetts Institute of Technology (MIT), que: "Durante séculos. a cultura ocidental foi dominada pela noção de que algumas áreas do conhecimento eram inacessíveis. ou proibidas, ao entendimento humano. Nessa visão, a humanidade só é capaz de entender o que Deus se digna a revelar. Zeus acorrentou Prometeu a uma rocha por ter dado o fogo aos homens. São Tomás de Aquino (1225-1274) fazia distinção entre conhecimento científico –passível de descoberta pela mente humana - e conhecimento divino, 'superior ao conhecimento do homem '. O conhecimento divino 'não pode ser buscado pelo homem por meio da razão, mas, uma vez revelado por Deus, deve ser aceito pela
fé"'.
Desta forma, explica FERRY (1999), fica evidente que a proposição das crenças religiosas, de modo geral, mesmo aquelas que se preocupam com as criticas alheias, está em oposição, por princípio, ao discurso da ciência e da razão, pelo simples fato de se embasar numa 'Revelação '.
A 'verdade revelada' pretende, pois, ser uma verdade que não depende da prova ou demonstração científica. Isto significa que sua essência não pode ser avaliada pelo método experimental, basicamente porque seu objeto (Deus), está além dos parâmetros passíveis ao tipo de experimentação praticada pelas ciências. Além disso, a chamada 'verdade revelada' implica na imposição de uma fé, que significa literalmente uma confiança que deve ser imune ao exame crítico e à discussão racional, isto é, ao chamado procedimento científico.
Em razão disso, surgiram os dogmas, as 'verdades' imutáveis e infalíveis que alimentaram, durante séculos, a intransigência, a intolerância, o medo e o irracionalismo de grupos e mesmo de povos inteiros.
A fé religiosa alimentou também o medo da morte, que os gregos denominavam de tanatus e que Sigmund Freud demonstrou ser uma das forças motrizes da alma humana. A busca da eternidade encontrou, assim, na fé religiosa, o devido amparo e esperança para os espíritos intranqüilos e angustiados.
As crenças baseadas na fé geraram instrumentos sociais de dominação, através dos quais o acesso ao saber e ao conhecimento ficou restrito a grupos privilegiados de pessoas que se arvoravam como os representantes do mundo divino na Terra.
O grande cientista e sábio Albert EINSTEIN (1994, 19), ao opinar sobre religião, escreveu que para ele "a religião é vivida antes de tudo como angústia. Não é inventada, mas essencialmente estruturada pela casta sacerdotal, que institui o papel de intermediário entre seres terríveis e o povo, fundando assim sua hegemonia". E, completa ele que, comumente,``(...) entre a casta política dominante e a casta sacerdotal se estabelece uma comunidade de interesses´´.
Sobre este assunto, ainda é FERRY (op.cit.) quem explica que o magistério da Igreja foi imposto ao longo dos anos à custa de autoridade, de excomunhões contra hereges e contra quem ousasse contestar os dogmas e a 'verdade revelada'. Para isso criou-se um instrumento ignóbil, infamante, sanguinário e insano, o Tribunal da Santa Inquisição, que não poupou nem o sábio Galileu, pelo fato do mesmo ter discordado da visão geocêntrica, aceita.. até então, como incontestável pela fé religiosa. Entre as milhares de vitimas sacrificadas por esta macabra instituição religiosa, encontra-se um frade, o grande Giordano Bruno, queimado vivo, em 1600, porque cometeu o erro de usar a razão para explicar certos conhecimentos científicos.
O poder autoritário da Igreja sempre usou a superstição e a ignorância para impor uma fé fundamentada no medo, na ameaça, no sofrimento, no sacrifício, na culpa e na indulgência falaciosa.
Por outro lado, muitos filósofos e estudiosos do espírito humano creditam à fé religiosa a imposição de regras e limites à conduta do homem, determinando o que é comportamento ético e de certo modo desestimulando os excessos e reprimindo as anomalias. Isto tudo, sem entramos no mérito da legitimidade ou não dos métodos e meios que, de uma maneira geral, são empregados pelas religiões e crenças, num primeiro sentido de controle, mas que também acaba por estabelecer formas aceitáveis de convivência social.
Se o universo físico é o domínio da Ciência, que usa o concurso da razão como instrumento explicativo, sobre seu correlato espiritual ela nada tem a dizer. Este universo espiritual, entretanto, é igualmente real para quem nele acredita, através da fé.
E, à Ciência não cabe responder questões como o por quê da existência do Universo ou se ele tem algum propósito. A religiosidade, com base na fé, toma para si tais explicações e ainda de quebra fornece, àqueles que acreditam que a vida é algo transcendental, a esperança (mesmo que possa ser ilusória) de recuperar o Paraíso, perdido com a queda do homem pelo pecado.
Esta busca do Paraíso, de Xangri-lá, de Agartha ou do Éden, perdido pelo homem nos primórdios da humanidade, é observada em quase todas as religiões e crenças do mundo. Este mito de que houve uma Era de Ouro no passado remoto da humanidade alimenta, ainda hoje, a esperança de que viveremos um evento semelhante num futuro impreciso. O Apocalipse de São João ou a propalada Era de Aquário dos esotéricos são exemplos de discursos que alimentam o mito, para cuja crença é preciso ter muita fé e imaginação.
II SOBRE A RAZÃO
Segundo a mitologia grega, o domínio do fogo, dado por Prometeu aos homens, constituiu um passo fundamental na evolução da humanidade.
Para a tradição judaico-cristã, o homem conheceu o fruto proibido ou a 'árvore' do conhecimento e a racionalidade, porém pagou o alto preço de perder a 'inocência' e os prazeres da vida no Éden.
De qualquer maneira, na medida em que o homem evoluiu das formas primitivas de primatas e adquiriu consciência de sua existência, estabeleceu uma relação interativa com o mundo usando primeiramente como meio os cinco sentidos.
As imagens do mundo ao derredor estavam diretamente relacionadas com o que via, ouvia, cheirava e tocava. O uso do intelecto e do raciocínio, para tentar explicar o mundo foi certamente lento e exigiu o concurso de mecanismos cerebrais como por exemplo, a observação, a comparação, a dedução, o armazenamento das informações registradas pelos sentidos, etc. No entanto, a maior parte dos avanços técnicos, até o
Século XV de nossa Era, estavam relacionados à busca de soluções para facilitar a própria sobrevivência ou pela necessidade de alcançar maior eficiência e segurança com relação aos embates cotidianos. A invenção da roda, da escrita, a domesticação de animais e plantas, a percepção das estações do ano, o conhecimento dos padrões dos ventos dominantes e do movimento dos astros no firmamento e, conseqüentemente, das rotas marítimas mais seguras, garantiram ao homem certo domínio sobre o meio natural, embora a visão do fantástico impregnava-lhe, ainda, a imaginação e determinava muita coisa de sua realidade.
A partir de uma série de acontecimentos que ocorreram na Europa, entre os Séculos XVI e XVII, deu-se início a uma mudança radical no pensamento ocidental.
Como explica LIGHTMAN (op.cit.), algumas mentes mais inquietas e inquiridoras começaram a perceber que o Universo como um todo era cognoscível e apreensível para os seres humanos.
Na busca de explicações e entendimento dos fenômenos do mundo, através da razão e do raciocínio lógico, o homem procurava desfazer-se das mistificações impostas como verdades até então consagradas. Neste intento, não cabia preocupar-se se havia ou não propósito ou sentido para o mundo. A Ciência apresentava-se como uma postura 'neutra'.
Esta nova maneira de ver o mundo levou à construção de uma cosmovisão diferente e não-teleológica. O mundo físico, palpável, mensurável, confrontável, passível de ser analisado pelo método experimental, era o único que poderia ter validade para o homem.
Nascia, assim, a Ciência positivista, cartesiana e mecanicista. O arcabouço filosófico da Ciência moderna, com base na razão, tomou impulso com a contribuição de homens de gênio como Isaac Newton, Descartes e Darwin, entre outros.
A essência do racionalismo no pensamento científico pressupõe, sempre, a dúvida.Há necessidade da demonstração experimental sobre todas as formas e ângulos de vista. Não há nada no conhecimento científico que seja definitivo e irretocável. A autocrítica deve, sempre, permear toda descoberta. Portanto, descartam-se dogmas e verdades absolutas. Os paradigmas da Ciência são, assim, exemplos de saber relativo e pretensamente neutro e pragmático.
O conhecimento do mundo propalado pela razão impõe regras de procedimento e ordenação das observações feitas. Exige o registro dos fatos como testemunho e a experimentação como prova é como um estímulo à curiosidade da mente humana no sentido de impulso para conhecer e entender o funcionamento do mundo.
Há, contudo, implícita, no intuito do homem em usar o método científico, a necessidade de controlar os eventos, explicar, dominar ou pelo menos entender os fenômenos da vida e da morte.
A idéia de que o Universo é uma grande máquina e como tal pode ser estudada nas suas panes componentes teve como premissa facilitar o entendimento de suas engrenagens e do seu mecanismo. Entretanto, essa maneira de estudar o mundo levou a Ciência a compartimentar o conhecimento a uma tal forma que perdeu-se a noção do todo. Esse cientificismo reducionista acarretou, muitas vezes, o impasse e o radicalismo. Transformou o saber científico em domínios estanques do conhecimento, um domínio fragmentado não só do mundo, mas com relação ao próprio homem.
Contudo, hoje, esta forma de pensar é amplamente questionada pelos próprios cientistas, demonstrando a excelência dos mecanismos da razão, em corrigir os desvios e se sujeitar à autocrítica.
Nota-se, assim, uma evolução da Ciência, no sentido de emancipar-se dos limites rígidos impostos pelo racionalismo cientificista e reducionista. Surgem na Ciência moderna, os questionamentos sobre a moral, a ética, o sentido e a sabedoria que implicam as suas descobertas. Há mais modéstia, menos otimismo e menos confiança nos cientistas, hoje, do que nos do passado, com relação aos benefícios do progresso. Isso levou ao surgimento de uma ética científica, que para alguns trata-se de uma espécie de auto-censura e, para outros, uma maneira de evitar os desvios da
Ciência e de certa forma 'humanizar' a razão. Com isso, cai por terra a idéia de neutralidade da Ciência e da razão.

III A FE E A RAZÃO - CONCILIAVEIS OU NÃO?

O embate entre a fé e a razão pode ser sentido ao longo da história do homem.
A fé religiosa dominou o pensamento do homem, por séculos, nas diversas culturas, mesmo nas civilizações mais complexas e refinadas. Por exemplo, no Egito Antigo a religião estabelecia as relações da existência do indivíduo, do nascer ao morrer e além da morte, permeando todos os momentos da vida de cada um. A exceção encontramos na Antiga Grécia, berço da filosofia ocidental, onde a razão e a lógica se desenvolveram. Embora os gregos (e mais tarde os -romanos) tivessem elaborado uma complexa cosmovisão, rica em mitos e existisse uma religião compartilhada pelo cidadão comum, havia menos intolerância e a essência dessa religiosidade não trazia o peso do castigo decorrente de um pecado original, nem de 'verdades reveladas' ou dogmas invioláveis. O mito era uma forma de explicar o mundo e a religiosidade consistia numa maneira pragmática de viver a vida.
Por outro lado, o radicalismo, a intransigência e a intolerância marcaram, na maioria das vezes, a fé religiosa, em particular o cristianismo. As Cruzadas, por exemplo, foram expedições militares enviadas à Terra Santa para aniquilar os infiéis, além dos objetivos comerciais camuflados pela fé religiosa dos promotores. Foram tão
violentas que os povos do Islã chamavam os cristãos de bárbaros. Outro exemplo, a Inquisição, não poupou ninguém; bastava uma simples suspeita e milhares de pessoas eram assassinadas nas fogueiras ou submetidas a indescritíveis torturas, pelo crime de consciência ou por pura ignorância, tão comum naqueles tempos medievais. Tudo em nome date dominante que não admitia contestação.
Nas terras da América, a religião abençoou o genocídio dos povos indígenas, em nome de uma fé que para aquela gente não fazia o menor sentido. Foi assim que desapareceram, ao fio da espada ou despedaçados pelo arcabuz e pelo canhão, as civilizações Inca e Asteca, bem como centenas de povos indígenas que se recusaram a se tornar cativos.
Infelizmente, o Século XX e o início do Século XXI, que marca a entrada do 3° Milênio da Era Cristã, ficarão registrados nos anais da História pelos violentos conflitos de fundo religioso: na Irlanda do Norte, na Iugoslávia-Kosovo, na Palestina-Israel, entre a Índia e o Paquistão, entre o Irã e o Iraque, e mais recentemente, dentro da Indonésia, só para citar alguns.
Igualmente, nossa época marca a radicalização do Islamismo contra o Ocidente Cristão e mesmo dentro do próprio mundo Ocidental, industrializado, moderno e democrático, observa-se um crescente exacerbamento da fé religiosa, na forma de milhares de seitas e cultos cristianizados que se utilizam da mídia eletrônica e se transformam, não raro, em poderosas e ricas organizações, com ramificações no mundo dos negócios. A fé religiosa passa a ser um produto altamente vendável e rendoso, à semelhança das franquias e dos 'fast food'.
FERRY (op.cit.) mostra, em seu magistral artigo, que um dos acontecimentos mais importantes deste fim de século consiste na reconciliação da Igreja Católica com os regimes democráticos, que foram por ela combatidos desde a Revolução Francesa.
Contudo, vale lembrar que na maioria dos pontos cruciais, ao longo da história da Ciência, a Igreja sempre se mostrou hostil com relação às descobertas de novas verdades pela razão.
Ainda de acordo com FERRY (op.cit.), na medida em que muitas descobertas científicas vinham desmentindo ou, no mínimo, questionando "seriamente as afirmações literais da Bíblia, consideradas durante séculos como verdades intocáveis ", era preciso, portanto, reforçar a fé, proibindo, negando ou repudiando essas descobertas.
Sem a necessidade de detalharmos os exemplos do passado, os inenarráveis processos promovidos por católicos e protestantes, condenando à morte milhares de inocentes, acusados de serem hereges, pretensas bruxas, possuídos pelo demônio, sacrílegos ou simples judeus (acusados de usura, blasfêmia ou teomicídio), sabemos, entretanto, o que se escondia por trás da fé, em muitos destes casos: a mesquinhez, a inveja, a traição, a ignorância, a malevolência ou a pura ganância. A condenação dos Cavaleiros Templários e a morte na fogueira de seu último grão-mestre, Jacques
DeMolay, corresponde exatamente ao exemplo.
No nosso Século X:X, essa intolerância e radicalismo da fé permaneceram, sem fogueiras, mas com as conseqüências da condenação pública. Nos EUA, por exemplo, as discussões e embates entre 'criacionistas' (que aceitam somente a versão bíblica
para explicar o surgimento da vida na Terra) e os 'evolucionistas'(que rejeitam a versão bíblica e aceitam as afirmações científicas), ainda hoje ocorrem e chegam a ser muito 'elucidativas' e 'hilárias', para não dizer ridículas e inconseqüentes.
Assim foi o celebre caso de Thomas Scope, então um jovem professor de ciências em uma escola pública de Dayton (Ohio, EUA), onde, em 1925, sofreu um ruidoso processo (conhecido como "O processo do Macaco") no qual foi condenado a pagar 100 dólares de multa por ter ensinado a teoria da evolução aos seus alunos.
Antes, em 1923, ainda nos EUA, cinco professores do Kentucky Wesleyan College foram demitidos pelo simples fato de terem defendidos a tese de que não havia contradição entre a evolução e a Bíblia.
É igualmente assustador que fatos semelhantes continuem acontecendo nos EUA, muitos nas décadas de 80 e 90. Por exemplo, em 1999, em alguns Estados americanos, devido à pressão dos 'lobbys' cristãos' criacionistas', as escolas não puderam ensinar a teoria da evolução de Darwin, nem a idade geológica da Terra aceita pela Ciência, nem mesmo a teoria do Big-Bang, sobre a origem do Universo. É lei, portanto deve ser acatada e ponto final. Isso ocorre, lembremos, na maior potência do mundo atual.
Sobre isso recordemos que, desde 1860, o evolucionismo já havia sido condenado pela Igreja, no Concílio de Colônia e Charles Darwin excomungado.
Recentemente, aqui no Brasil, um pastor neopentecostal, num desses programas televisivos de pregação religiosa, tão em moda nos nossos dias, usava a seguinte argumentação: dizia ele que a Bíblia era imutável, que durante séculos nenhuma das 'verdades reveladas' ou fatos ali descritos foram desmentidos. Por outro lado, dizia ele, uma 'verdade cientifica ' hoje, pode ser desmentida por outra nova verdade, amanhã, perdendo aquela sua validade.
Ora, o dito pastor não considerou algo fundamental, como diriam Jean-Claude CARRIERE, Jean AUDOUZE e Michel CASSÉ (1991,35): “A Ciência duvida, a religião afirma" (JCC); “E justamente porque afirma que ela ainda tem tantos fiéis"
(MC), pois "Uma religião que duvidasse seria inconcebível" (JA). Embora reconhecendo que a razão não explica tudo e a Ciência está longe de ser um instrumento perfeito do conhecimento, é, entretanto, o melhor de que dispomos.
Talvez a imagem e a explicação do Universo e da vida não seja ainda exatamente esta que a razão propõe, nem muito menos o que a Revelação impõe.
Talvez fosse mais interessante se nos dispuséssemos a analisar, com a mente aberta e sem qualquer preconceito, uma famosa frase dita por PASTEUR (apud FERRY, op.cit.,Dl) “que se um pouco de ciência nos afasta de Deus, muita ciência nas reconduz a ele".
O grande equívoco do homem, no nosso entender, é cada um aferrar-se à. Idéia de que a razão ou a fé religiosa podem ter resposta para tudo.
A constatação feita por JUNG (1990), de que o homem não sabe mais fabular e que recusa-se a entender que os mitos são formas antiqüíssimas da Ciência e que poderíamos aprender muito com essa velha sabedoria, pode conter profunda e reveladora verdade.
Por outro lado, entendemos que a razão, com todas as suas possíveis limitações, nos oferece os meios mais adequados e convincentes para entendermos o mundo.
Como explica SAGAN (1997,41): 110 modo científico de pensar é ao mesmo tempo imaginativo e disciplinado. Isso é fundamental para o seu sucesso. A ciência nos convida a acolher os fatos, mesmo quando eles não se ajustam as nossas preconcepções. Aconselha-nos a guardar hipóteses alternativas em nossas mentes, para ver qual se adapta melhor à realidade. Impõe-nos um equilíbrio delicado entre uma abertura sem barreiras para idéias novas, por mais heréticas que sejam, e o exame cético mais rigoroso de tudo - das idéias novas e do conhecimento esclarecido ", pois, “além disso, os cientistas têm em geral o cuidado de caracterizar o status verídico de suas tentativas de compreender o mundo - que vão desde conjeturas e hipóteses, que são altamente experimentais, até as leis da Natureza, que são repetidas e sistematicamente confirmadas por muitas pesquisas sobre o funcionamento do mundo. Mas até as leis da Natureza não são absolutamente certas. Pode haver novas circunstancias nunca antes examinadas (...) ".
Deduz-se desta longa explicação una premissa que ao nosso ver, é de fundamental importância: a imaginação. Exatamente aquela imaginação que impulsiona o espírito cientifico, armado fortemente com seu método, a atingir uma espécie de 'religiosidade cósmica'. E aqui vale distingui-la, como diria Albert EINSTEIN (op.cit.), das crenças das multidões ingênuas que consideram Deus um ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo, um Deus antropomórfico, que fez o homem à sua semelhança e com ele também trava relações pessoais, com todo o respeito e reverência, claro.
Por sua vez, esta espécie de religiosidadee - cósmica, como descreve EINSTEIN (op.cit,23), “(...) consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório ".
Talvez, melhor seria pensar o mundo, não como uma grande máquina mas como um grande pensamento, diria ainda Albert- Einstein.
Neste caso, teríamos a liberdade total em imaginar Deus, se for o caso, como bem julgássemos, sem idéias impostas, sem antropomorfismos e sem egoísmos. Ou mesmo, não imaginá-lo.
Pois, que o mundo seja contingente e nos pareça perfeito, não constitui, no sentido estrito, de forma alguma prova da existência de Deus. Demonstra apenas que existem certas coisas que não entendemos. Além disso, dessa incompreensão também nada pode ser verdadeiramente deduzido.
Da mesma forma, a infelicidade que atinge os inocentes ou as pavorosas tragédias que, indistintamente, atingem multidões, tampouco podem servir de prova da inexistência de Deus, se admitirmos que os desígnios do Senhor são insondáveis.
De qualquer maneira, as pretensas provas ou argumentações da fé e da razão, certamente nunca convencerão ninguém que já não estiver previamente convencido. A verdade de cada um é única e cabe na própria percepção que se tem do mundo.
Contudo, e apesar de tudo, é possível que nos limites da razão se aloje a fé.
Por fim, qual a lição a ser tirada disto tudo? A de que nós somos seres humanos, meros mortais e insignificantes quando comparados. na .escala do Cosmos? Afinal, como a Ciência afirma, somos 'filhos das estrelas' e evoluímos até ganharmos uma consciência, que tem o dom da imaginação, capaz de nos levar aos confins do Universo.
Pensamos, raciocinamos e temos o discernimento para distinguir a estupidez da inteligência e a ignorância da sabedoria. Podemos não significar absolutamente nada, um mero acaso, um acidente biológico sem conseqüências e efêmero: No máximo, talvez, somos um milagre, um evento extraordinariamente raro e assustadoramente inédito. Contudo, possuímos o poder de escolha e a percepção de que existimos num mundo que ainda, felizmente, esconde segredos e mistérios para descobrirmos e nos maravilharmos.
Portanto, temos que deixar nossa mente sempre aberta ao conhecimento e livre dos dogmas e das 'verdades absolutas'. Somente assim teremos a grandeza e o gozo de usufruirmos desta fantástica aventura que é a vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

AUDOUZE, 1.1 CASSÉ, M. & CARRIÉRE, J-C - Conversas Sobre o Invisível -
Especulações sobre o Universo. S.Paulo, Brasiliense, 1991.
EINSTEIN, Albert - Como Vejo o Mundo. S.Paulo, Circulo do livro, 1994.
FERRY, Luc - "A sombra de Deus nas aventuras da ciência". O Estado de São Paulo.
Cultura, Caderno 2, 10/10/1999, p.Dl.
- "A reconciliação da Igreja com a Ciência". O Estado de S.Paulo.
Cultura, Caderno 2, 10/10/1999, p.D5.
FROST JR., S.E. - Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. S.Paulo, Cultrix, 1961.
JUNG, C.G. - Memórias, Sonhos, Reflexões. S.Paulo, Circulo do Livro, 1990.
LIGHTMAN, Alan - "Ciência de um lado, Religião de outro". O Estado de S.Paulo.
Cultura, Caderno 2, 10/10/1999, p.D6.
SAGAN, Carl - O Mundo Assombrado pelos Demônios - A Ciência vista como uma vela no escuro. S.Paulo, Companhia das Letras, 1997.

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