quinta-feira, maio 24, 2012
Projeto de Caixa Geral de Socorro e outras Instituições para os Espíritas.
Projeto de Caixa Geral de Socorro e outras
Instituições para os Espíritas.
Revista Espírita julho de 1866
Num dos grupos espíritas de Paris um médium recebeu,
ultimamente, a seguinte comunicação do Espírito de sua avó:
“Meu caro filho, vou falar-te um instante das questões
de caridade que te preocupavam esta manhã quando ias ao trabalho.
“As crianças que são entregues a amas mercenárias; as mulheres
pobres que são forçadas, abdicando do pudor que lhes é caro, a servir nos
hospitais de material experimental aos médicos e aos estudantes de Medicina,
são duas grandes chagas que todos os bons corações devem aplicar-se em curar, e
isto não é impossível.
Que os espíritas façam como os católicos, contribuindo
com alguns centavos por semana e capitalizando esses recursos, de modo a chegarem
a fundações sérias, grandes e verdadeiramente eficazes. A caridade que alivia
um mal presente é uma caridade santa, que encorajo com todas as minhas forças;
mas a caridade que se perpetua nas fundações imortais, destinada a aliviar as
misérias, é a caridade inteligente e que me tornaria feliz ao vê-la posta em prática.
“Gostaria que um trabalho fosse elaborado visando a criar,
inicialmente, um primeiro estabelecimento de proporções restritas. Quando se
tivesse visto o bom resultado dessa primeira criação, passar-se-ia a outra, que
seria aumentada pouco a pouco, como Deus quer que seja aumentada, porque o
progresso se realiza em marcha lenta, sábia, calculada. Repito que o que
proponho não é difícil; não haveria um só espírita verdadeiro que ousasse
faltar ao apelo para o alívio de seus semelhantes, e os espíritas são bastante numerosos
para formar, pelo acúmulo de algumas moedas por semana, um capital suficiente
para um primeiro estabelecimento destinado a mulheres doentes, que seriam
cuidadas por mulheres e que então deixariam de ocultar seus sofrimentos para
salvar o seu pudor.
“Entrego estas reflexões às meditações das pessoas benevolentes
que assistem à sessão e estou bem convicta de que elas darão bons frutos. Os
grupos da província se congregariam prontamente a uma ideia tão bela e, ao
mesmo tempo, tão útil e tão paternal. Aliás, seria um monumento do valor moral
do Espiritismo, tão caluniado, hoje e ainda por muito tempo, encarniçadamente.
“Eu disse que a caridade local é boa, aproveita a um indivíduo
mas não eleva o espírito das massas como uma obra durável. Não seria belo que
se pudesse repelir a calúnia, dizendo aos caluniadores: ‘Eis o que fizemos.
Reconhece-se a árvore pelo fruto; uma árvore má não dá bons frutos e uma boa
árvore não os dá maus.’
“Pensai também nas pobres crianças que saem dos hospitais
e que vão morrer em mãos mercenárias, dois crimes simultâneos: o de entregar a
criança desarmada e fraca, e o crime daquele que a sacrificou sem piedade. Que
todos os corações elevem seus pensamentos para as tristes vítimas da sociedade imprevidente,
e que se esforcem por encontrar uma boa solução para as salvar de suas
misérias. Deus quer que se tente, e dá os meios de o alcançar; é preciso agir.
Triunfa-se quando se tem fé, e a fé transporta montanhas. Que o Sr. Kardec
trate a questão em seu jornal e vereis como será aclamada com calor e
entusiasmo.
“Eu disse que era preciso um monumento material que atestasse
a fé dos espíritas, como as pirâmides do Egito atestam a vaidade dos faraós;
mas, em vez de fazer loucuras, fazei obras que levem o selo do próprio Deus.
Todo mundo deve compreender-me; não insisto.
“Retiro-me, meu caro filho. Como vês, tua boa avó ama sempre
os seus filhotes, como te amava quando eras pequenino.
Quero que tu os ames como eu, e que penses em
encontrar uma boa organização. Poderás, se o quiseres; e, se necessário, nós te
ajudaremos. “Eu te abençoo.”
Marie G...
A ideia de uma caixa central e geral de socorro, formada
entre os espíritas, já foi concebida e manifestada por homens animados de
excelentes intenções. Mas não basta que uma ideia seja grande, bela e generosa;
antes de tudo é preciso que seja exequível. Certamente temos dado mostras
suficientes de nosso devotamento à causa do Espiritismo, para não ser suspeito
de indiferença a seu respeito. Ora, é precisamente em razão de nossa própria
solicitude que procuramos nos resguardar contra o entusiasmo que cega. Antes de
empreender uma coisa, é preciso friamente calcular-lhe os prós e os contras, a
fim de evitar reveses sempre deploráveis, que não deixariam de ser explorados
por nossos adversários. O Espiritismo só deve marchar com segurança, e quando
põe o pé num lugar deve estar seguro de pisar terreno firme. Nem sempre a
vitória é do mais apressado, mas com muito mais probabilidade daquele que sabe
esperar o momento propício.
Há resultados que não podem ser senão obra do tempo e
da infiltração da ideia no espírito das massas. Saibamos, pois, esperar que a
árvore esteja formada, antes de lhe pedir uma colheita abundante.
Desde muito tempo nós vos propúnhamos tratar a fundo
esta questão, para colocá-la em seu verdadeiro terreno e premunir contra as
ilusões de projetos mais generosos do que sensatos, e cujo insucesso teria consequências
lamentáveis. A comunicação relatada acima, e sobre a qual houveram por bem pedir
a nossa opinião, nos fornece uma ocasião muito natural.
Examinaremos, pois, tanto o projeto de centralização
dos recursos, quanto o de algumas outras instituições e estabelecimentos especiais
para o Espiritismo.
Antes de tudo convém dar-se conta do estado real das coisas.
Sem dúvida os espíritas são muito numerosos, e seu número cresce sem cessar.
Sob esse aspecto oferece um espetáculo único, o de uma propagação inaudita na
história das doutrinas filosóficas, porque não há uma só, sem excetuar o
Cristianismo, que tenha congregado tantos partidários em tão poucos anos. Isto
é um fato notório, que confunde os próprios antagonistas. E o que não é menos
característico, é que essa propagação, em vez de fazer-se num centro único,
opera-se simultaneamente em toda a superfície do globo e em milhares de
centros. Disso resulta que os adeptos, a despeito de serem muito numerosos,
ainda não formam uma aglomeração compacta.
Essa dispersão, que à primeira vista parece uma causa de
fraqueza, é, ao contrário, um elemento de força. Cem mil espíritas disseminados
numa região fazem mais pela propagação da ideia do que se estivessem amontoados
numa cidade. Cada individualidade é um foco de ação, um germe que produz
rebento; por sua vez, cada rebento produz mais ou menos e os ramos se reúnem
pouco a pouco e cobrem a região mais prontamente do que se a ação partisse de
um ponto único; é absolutamente como se um punhado de grãos fosse lançado ao
vento, em vez de serem postos todos juntos no mesmo buraco. Além disso, por
esta quantidade de pequenos centros a doutrina é menos vulnerável do que se
tivesse um só, contra o qual seus inimigos poderiam assestar todas as suas
forças. Um exército primitivamente compacto, dispersado pela força ou por outra
causa qualquer, é um exército perdido. Aqui o caso é completamente diferente: a
disseminação dos espíritas não é um caso de dispersão, mas um estado primitivo tendendo
à concentração, para formar uma vasta unidade. A primeira está no fim; a
segunda no seu nascimento.
Àqueles, pois, que se queixam do seu isolamento numa localidade,
respondemos: Ao contrário, agradecei ao céu por vos haver escolhido como
pioneiros da obra em vossa região. Cabe a vós lançar as primeiras sementes;
talvez não germinem imediatamente; talvez não recolhereis os frutos; talvez
mesmo tenhais de sofrer em vosso labor, mas pensai que não se prepara uma terra
sem trabalho e ficai certos de que, mais cedo ou mais tarde, o que tiverdes
semeado frutificará. Quanto mais ingrata a tarefa, mais mérito tereis, ainda
que somente abrísseis caminho aos que vierem depois de vós.
Certamente, se os espíritas devessem ficar sempre no estado
de isolamento, seria uma causa permanente de fraqueza; mas a experiência prova
a que ponto a doutrina é vivaz e sabe-se que por um ramo abatido há dez que
renascem. Sua generalização, pois, é uma questão de tempo. Ora, por mais rápida
que seja a sua marcha, ainda é preciso tempo suficiente e, enquanto se trabalha
a obra, é preciso saber esperar que o fruto esteja maduro antes de o colher.
Esta disseminação momentânea dos espíritas, essencialmente
favorável à propagação da doutrina, é um obstáculo execução de obras coletivas
de certa importância, pela dificuldade, se não mesmo pela impossibilidade, de
reunir num mesmo ponto elementos suficientemente numerosos.
Dirão que é precisamente para remediar esse inconveniente,
para apertar os laços de confraternidade entre os membros isolados da grande
família espírita, que se propôs a criação de uma caixa central de socorro. Na
verdade é um pensamento grande e generoso, que seduz à primeira vista; mas já se
refletiu nas dificuldades de execução?
Uma primeira questão se apresenta. Até onde se estenderia
a ação dessa caixa? Limitar-se-ia à França, ou compreenderia os outros países?
Há espíritas em todo o globo. Não são nossos irmãos os de todos os países, de
todas as castas e de todos os cultos? Se, pois, a caixa recebesse contribuições
de espíritas estrangeiros, o que aconteceria infalivelmente, teria o direito de
limitar sua assistência a uma única nacionalidade?
Poderia, conscienciosamente e caridosamente, perguntar
ao que sofre se é russo, polonês, alemão, espanhol, italiano ou francês? A menos
que faltasse ao seu título, ao seu objetivo, ao seu dever, deveria estender sua
ação do Peru à China. Basta pensar na complicação da máquina administrativa de tal
empresa para ver quanto ela é quimérica.
Supondo que se circunscrevesse à França, não seria menos
uma administração colossal, um verdadeiro ministério.
Quem quereria assumir a responsabilidade de tal
gerência de fundos? Para uma gestão dessa natureza não bastariam a integridade
e o devotamento: seria necessária uma alta capacidade administrativa.
Admitamos, contudo, vencidas as primeiras dificuldades; como exercer um
controle eficaz sobre a extensão e a realidade das necessidades, sobre a
sinceridade da qualidade de espírita? Semelhante instituição logo veria
surgirem adeptos, ou que se dizem como tais, aos milhões, mas não seriam estes
que alimentariam a caixa. Do momento em que esta existisse, julgá-la-iam inesgotável,
e em breve ela se veria impossibilitada de satisfazer a todas as exigências de
seu mandato. Fundada em tão vasta escala, consideramo-la como impraticável, e
por nossa conta pessoal não lhe daríamos a mão.
Além disso, não seria de temer que ela encontrasse oposição
à sua própria constituição? O Espiritismo apenas nasce e ainda não está, por
toda parte, em estado de perfeição espiritual para que se julgue ao abrigo de
suposições malevolentes. Não poderiam enganar-se quanto às suas intenções numa
operação desse gênero? Supor que, sob uma capa, oculte outro objetivo? Numa
palavra, fazer assimilações de que seus adversários alegariam exceção de
justiça, para excitar a desconfiança contra si? Por sua natureza, o Espiritismo
não é e nem pode ser uma filiação, nem uma congregação. Deve, pois, no seu
próprio interesse, evitar tudo quanto lhe desse tal aparência.
Então é preciso que, por medo, o Espiritismo fique estacionário?
Não é agindo, dirão, que ele mostrará o que é, que dissipará as desconfianças e
frustrará a calúnia? Sem nenhuma dúvida; mas não se deve pedir à criança o que
exige as forças da idade viril. Longe de servir ao Espiritismo, seria
comprometê-lo e expô-lo aos golpes e às gargalhadas dos adversários e misturar
seu nome a coisas quiméricas. Certamente ele deve agir, mas no limite do
possível. Deixemos-lhe, pois, tempo para adquirir as forças necessárias e então
dará mais do que se pensa. Ele nem mesmo está completamente constituído em
teoria; como querem que dê o que só pode ser resultado do complemento da
doutrina?
Aliás há outras considerações que importa levar em conta.
O Espiritismo é uma crença filosófica e basta simpatizar
com os princípios fundamentais da doutrina para ser espírita. Falamos dos
espíritas convictos, e não dos que lhe tomam a máscara, por motivos de
interesse ou outros, igualmente inconfessáveis. Esses não fazem número; neles
não há nenhuma convicção; hoje se dizem espíritas, na esperança de aí encontrar
vantagens; amanhã serão adversários, se não encontrarem o que procuravam; ou
então se farão de vítimas de seu devotamento fictício, e acusarão os espíritas
de ingratidão por não os sustentar.
Não seriam os últimos a explorar a caixa geral, para
se indenizarem de especulações frustras ou repararem desastres causados por sua
incúria ou sua imprevidência, e a lhe atirarem a pedra, se ela não os satisfaz.
Não é para admirar, pois todas as opiniões contam com semelhantes auxiliares e veem
a representação de semelhantes comédias.
Há também a massa considerável dos espíritas de intuição;
os que o são pela tendência e a predisposição de suas ideias, sem estudo
prévio; os indecisos, que ainda flutuam, esperando os elementos de convicção
que lhes são necessários.
Podemos, sem exagero, avaliá-los em um quarto da
população. É o grande reservatório onde se recrutam os adeptos, mas ainda não contam
no número.
Entre os espíritas reais – os que constituem o verdadeiro
corpo dos aderentes – há certas distinções a fazer. Em primeira linha devem-se
colocar os adeptos de coração, animados de uma fé sincera, que compreendem o
objetivo e o alcance da doutrina e lhe aceitam todas as consequências para si
mesmos; seu devotamento é a toda prova e sem segunda intenção; os interesses da
causa, que são os da Humanidade, lhes são sagrados e jamais os sacrificam a uma
questão de amor-próprio ou de interesse pessoal.
Para eles o lado moral não é simples teoria:
esforçam-se por pregar pelo exemplo; não só têm a coragem de sua opinião: disto
fazem uma glória e, se necessário, sabem pagar com sua pessoa.
Em seguida vêm os que aceitam a ideia como filosofia, porque
lhes satisfaz à razão, mas cuja fibra moral não é suficientemente tocada para
compreender as obrigações que a doutrina impõe aos que a assimilam. O homem
velho está sempre lá e a reforma de si mesmos lhes parece uma tarefa por demais
pesada; mas como não estão menos firmemente convencidos, entre eles
encontram-se propagadores e defensores zelosos.
Depois há as pessoas levianas, para quem o Espiritismo
está todo inteiro nas manifestações. Para estes é um fato, e nada mais; o lado
filosófico passa despercebido; o atrativo da curiosidade é o seu principal
móvel: extasiam-se perante um fenômeno e ficam frios diante de uma consequência
moral.
Finalmente, há o número ainda muito grande dos espíritas
mais ou menos sérios, que não puderam colocar-se acima dos preconceitos e do
que dirão, contidos pelo temor do ridículo; aqueles que considerações pessoais
ou de família, com interesses por vezes respeitáveis a gerir, de algum modo são
forçados a manter-se afastados. Todos esses, numa palavra, que por uma causa ou
por outra, boa ou má, não se põem em evidência. A maior parte não desejaria
mais do que se confessar, mas não ousam ou não o podem. Isto virá mais tarde, à
medida que virem outros fazê-lo e que não houver perigo; serão os espíritas de
amanhã, como outros são os da véspera.
Todavia, não se pode exigir muito deles, porque é
preciso uma força de caráter que não é dada a todos, para enfrentar a opinião
em certos casos. É preciso, pois, levar em conta a fraqueza humana. O
Espiritismo não tem o privilégio de transformar subitamente a Humanidade e se
nos podemos admirar de alguma coisa, é do número de reformas que ele já operou
em tão pouco tempo; enquanto nuns, onde ele encontra o terreno preparado,
entra, por assim dizer, de uma vez, noutros só penetra gota-a-gota, conforme a
resistência que encontra no caráter e nos hábitos.
Todos esses adeptos contam no número, e por mais imperfeitos
que sejam, são sempre úteis, embora em limites restritos. Até nova ordem, se só
servissem para diminuir as fileiras da oposição, já seria alguma coisa. É por
isso que não se pode desdenhar nenhuma adesão sincera, mesmo parcial.
Mas, quando se trata de uma obra coletiva importante, onde
cada um deve trazer seu contingente de ação, como seria a de uma caixa geral,
por exemplo, convém ter em mente essas considerações. Porque a eficácia do
concurso que se pode esperar está na razão da categoria à qual pertencem os
adeptos. É bem evidente que não se pode contar muito com os que não levam a sério
o lado moral da doutrina e, ainda menos, com os que não ousam mostrar-se.
Restam, pois, os adeptos da primeira categoria.
Destes, certamente, tudo se pode esperar; são soldados de vanguarda, não esperando,
na maioria das vezes, senão serem chamados, quando se trata de dar prova de
abnegação e de devotamento. Mas numa cooperação financeira, cada um contribui
conforme os seus recursos e o pobre pode dar o seu óbolo. Aos olhos de Deus
este óbolo tem grande valor, mas para as necessidades materiais tem apenas o
seu valor intrínseco. Desfalcando todos aqueles cujos meios de subsistência são
limitados, aqueles mesmos que só pensam no dia de hoje, o número dos que
poderiam contribuir um pouco largamente e de maneira eficaz é relativamente
restrito.
Uma observação ao mesmo tempo interessante e instrutiva
é a da proporção dos adeptos segundo as categorias. Essa proporção variou
sensivelmente e se modifica em razão dos progressos da doutrina. Mas neste
momento pode ser avaliada, aproximadamente, da maneira seguinte: 1a categoria –
espíritas completos, de coração e devotamento: 10%; 2a categoria – espíritas incompletos,
buscando mais o lado científico que o lado moral: 25%; 3a categoria – espíritas
levianos, os que só se interessam pelos fatos materiais: 5% (esta proporção era
inversa há dez anos); 4ª categoria – espíritas não confessos ou que se ocultam:
60%.
Relativamente à posição social, podem-se fazer duas classes
gerais: de um lado, aqueles cuja fortuna é independente; do outro, os que vivem
de seu trabalho. Em 100 espíritas da primeira categoria, há em média 5 ricos contra
95 trabalhadores; na segunda, 70 ricos e 30 trabalhadores; na terceira, 80
ricos e 20 trabalhadores; na quarta, 99 ricos e 1 trabalhador.
Desse modo, seria ilusão pensar que em tais condições uma
caixa geral pudesse satisfazer a todas as necessidades, quando a do mais rico
banqueiro não seria suficiente. Não bastariam alguns milhares de francos
anualmente, mas milhões.
De onde vem essa diferença na proporção entre os ricos
e os que não o são? A razão é muito simples: os aflitos encontram no
Espiritismo um imenso consolo, que os ajuda a suportar o fardo das misérias da
vida; dá-lhes a razão dessas misérias e a certeza de uma compensação. Não é,
pois, surpreendente que, gozando mais benefício, o apreciem mais e o tomem mais
a peito que os felizes do mundo.
Admiram-se de que, quando semelhantes projetos vieram
à tona, não nos tivéssemos apressado em apoiá-los e patrocinar. É que, antes de
tudo, nos apegamos a ideias positivas e práticas; para nós o Espiritismo é uma
coisa muito séria, para comprometê-lo prematuramente em caminhos onde pudesse encontrar
decepções. De nossa parte, não há nisso nem indiferença, nem pusilanimidade,
mas prudência, e sempre que estiver maduro para ir à frente, não ficaremos na
retaguarda. Não que nos atribuamos mais perspicácia do que aos outros; mas como
a nossa posição nos permite a visão de conjunto, podemos julgar o forte e o
fraco talvez melhor do que os que se acham num círculo restrito.
Aliás, damos a nossa opinião e não pretendemos impô-la
a ninguém.
O que acaba de ser dito a respeito da criação de uma caixa
geral e central de socorro, aplica-se naturalmente aos projetos de fundação de
estabelecimentos hospitalares e outros. Ora, aqui a utopia é ainda mais
evidente. Se for fácil lançar um projeto sobre o papel, o mesmo não se dá
quando se chega às vias e meios de execução. Construir um edifício ad hoc já é
muito; e quando estivesse pronto, seria preciso provê-lo de pessoal suficiente
e capaz, e depois assegurar a sua manutenção, porque tais estabelecimentos custam
muito e nada rendem. Não são apenas grandes capitais que se exigem, mas grandes
rendimentos. Admitindo-se, contudo, que à força de perseverança e de
sacrifícios se chegasse a criar um pequeno modelo, quão mínimas não seriam as
necessidades a que poderia satisfazer, em relação à massa e à disseminação dos necessitados
em um vasto território! Seria uma gota d’água no oceano; e, se há tantas
dificuldades para um só, mesmo em pequena escala, seria muito pior se se
tratasse de multiplicá-los. Na realidade, o dinheiro assim empregado não
adiantaria, pois, senão a alguns indivíduos, ao passo que, judiciosamente
repartido, ajudaria a viver um grande número de infelizes.
Seria um modelo, um exemplo; seja. Mas, por que se esforçar
por criar quimeras, quando as coisas existem prontas, montadas, organizadas,
com meios mais poderosos do que jamais disporão os particulares? Esses
estabelecimentos deixam a desejar; há abusos, não correspondem a todas as
necessidades, isto é evidente e, contudo, se os comparamos ao que eram há menos
de um século, constatamos uma imensa diferença e um progresso constante; cada
dia vemos a introdução de um melhoramento. Não se poderia, pois, duvidar que
com o tempo novos progressos fossem realizados pela força das coisas. As ideias
espíritas devem, infalivelmente, apressar a reforma de todos os abusos, porque,
melhor que outras, penetram os homens com o sentimento de seus deveres. Por
toda parte onde se introduzem, os abusos caem e o progresso se realiza.
Devemos, pois, nos empenhar em espalhá-las: aí está a coisa possível e prática,
a verdadeira alavanca, alavanca irresistível, quando tiver adquirido a força
suficiente pelo desenvolvimento completo dos princípios e pelo número dos aderentes
sérios.
A julgar do futuro pelo presente, pode-se afirmar que
o Espiritismo terá levado à reforma de muitas coisas muito antes que os
espíritas tenham podido acabar o primeiro estabelecimento do gênero desse de
que falamos, se algum dia o empreendessem, mesmo que tivessem de dar um centavo
por semana. Por que, então, consumir energias em esforços supérfluos, em vez de
concentrá-las num ponto acessível e que seguramente deve conduzir ao objetivo?
Mil adeptos ganhos à causa e espalhados em mil locais diferentes apressarão
mais a marcha do progresso do que um edifício.
O Espiritismo, diz o Espírito que ditou a comunicação acima,
deve firmar-se e mostrar o que é por um monumento durável, erguido à caridade.
Mas de que serviria um monumento à caridade, se a caridade não estiver no
coração? Ele ergue um mais durável que um monumento de pedra: é a doutrina e
suas consequências para o bem da Humanidade. É nisto que cada um deve trabalhar,
com todas as suas forças, porque durará mais que as pirâmides do Egito.
Pelo fato de esse Espírito se enganar, segundo nós, sobre
tal ponto, isto nada lhe retira de suas qualidades; incontestavelmente está
animado de excelentes sentimentos. Mas um Espírito pode ser muito bom, sem ser
um apreciador infalível de todas as coisas. Nem todo bom soldado é,
necessariamente, um bom general.
Um projeto de realização menos quimérica é o da formação
de sociedades de socorros mútuos entre os espíritas de uma mesma localidade.
Mas, ainda aqui, não se pode escapar a algumas das dificuldades que
assinalamos: a falta de aglomeração e a cifra ainda restrita daqueles com os
quais se pode contar para um concurso efetivo. Outra dificuldade vem da falsa
assimilação que fazem dos espíritas e de certas classes de indivíduos. Cada
profissão apresenta uma delimitação claramente marcada. Pode-se facilmente estabelecer
uma sociedade de socorros mútuos entre gente de uma mesma profissão, entre os
de um mesmo culto, porque se distinguem por algo de característico, e por uma
posição de certo modo oficial e reconhecida. Assim não se dá com os espíritas
que, como tais, não são registrados em parte alguma e cuja crença não é constatada
por nenhum diploma. Há-os em todas as classes da sociedade, em todas as
profissões, em todos os cultos, e em parte alguma, constituem uma classe
distinta. Sendo o Espiritismo uma crença fundada numa convicção íntima, da qual
não deve dar contas a ninguém, quase que só se conhecem os que se põem em evidência
ou frequentam os grupos, e não o número muito mais considerável dos que, sem se
ocultar, não participam de nenhuma reunião regular. Eis, por que, apesar da
certeza de que os adeptos são numerosos, muitas vezes é difícil chegar a uma
cifra bastante, quando se trata de uma operação coletiva.
Com respeito às sociedades de socorros mútuos, apresenta-se
outra consideração. O Espiritismo não forma, nem deve formar classe distinta,
já que se dirige a todos; por seu princípio mesmo deve estender sua caridade
indistintamente, sem inquirir da crença, porque todos os homens são irmãos; se
fundar instituições de caridade exclusivas para os seus adeptos, será forçado a
perguntar a quem reclama assistência: “Sois dos nossos”?
Que provas nos dais? Se não, nada podemos fazer por
vós.” Assim, mereceria a censura de intolerância, que dirige aos outros. Não; para
fazer o bem, o espírita não deve sondar a consciência e a opinião e, ainda que
tivesse à sua frente um inimigo de sua fé, mas infeliz, deve vir em seu auxílio
nos limites de suas faculdades. É agindo assim que o Espiritismo mostrará o que
é e provará que vale mais do que o que lhe opõem.
As sociedades de socorros mútuos multiplicam-se por todos
os lados e em todas as classes de trabalhadores. É uma excelente instituição,
prelúdio do reino da fraternidade e da solidariedade, de que se sente
necessidade; aproveitam aos espíritas que delas fazem parte, como a todo o
mundo. Por que, então, fundá-las só para eles e excluir os outros? Que ajudem a
propagá-las, porque são úteis; que, para as tornar melhores, nelas façam penetrar
o elemento espírita, nelas penetrando eles próprios, pois isso seria mais
proveitoso para eles e para a doutrina. Em nome da caridade evangélica,
inscrita em sua bandeira, em nome dos interesses do Espiritismo, nós os
intimamos a evitar tudo quanto pudesse estabelecer uma barreira entre eles e a
sociedade.
Enquanto o progresso moral tende a diminuir as que
dividem os povos, o Espiritismo não as deve erguer; é de sua essência penetrar em
toda parte; sua missão, melhorar tudo o que existe. O Espiritismo falharia se
se isolasse.
Deve a beneficência ficar individual e, neste caso,
sua ação não será mais limitada do que se for coletiva? A beneficência coletiva
tem vantagens incontestáveis e, bem longe de desestimulá-la, nós a encorajamos.
Nada mais fácil do que praticá-la em grupos, recolhendo por meio de cotizações
regulares ou de donativos facultativos os elementos de um fundo de socorro.
Mas, então, agindo num círculo restrito, o controle das verdadeiras necessidades
é fácil; o conhecimento que delas se pode ter permite uma distribuição mais
justa e mais proveitosa; com uma soma módica, bem distribuída e dada de
propósito, pode-se prestar mais serviços reais que com uma grande soma dada sem
conhecimento de causa e, a bem dizer, ao acaso. É, pois, necessário dar-se
conta de certos detalhes se não se quiser gastar inutilmente seus recursos.
Ora, compreende-se que tais cuidados seriam
impossíveis se se operasse em vasta escala. Aqui, nada de complicação administrativa,
nada de pessoal burocrático; algumas pessoas de boa vontade, e eis tudo.
Por conseguinte, não podemos senão encorajar com todas
as nossas forças a beneficência coletiva nos grupos espíritas.
Nós a conhecemos em Paris, na província e no
estrangeiro, fundadas, se não exclusivamente, ao menos principalmente com esse
objetivo, e cuja organização nada deixa a desejar. Lá, membros dedicados vão
aos domicílios inquirir dos sofrimentos e levar o que às vezes vale mais que os
socorros materiais: as consolações e os encorajamentos. Honra a eles, pois bem
merecem do Espiritismo!
Se cada grupo agir assim em sua esfera de atividade,
todos juntos realizarão maior soma de bem do que o faria uma caixa central quatro
vezes mais rica.
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