quarta-feira, março 06, 2013
O ASTRAL
Ano XX – Número 228– Distribuição Gratuita
– Março 2013
Órgão Oficial de Informação do Centro
Espírita Astral Superior
Declarado de utilidade pública municipal
pela Lei 2.076 de 09 de Outubro de 1986
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Benedita Fernandes - Um dos marcos dos hospitais espíritas
Antonio Cesar Perri de Carvalho
Oitenta anos de funcionamento de um hospital, em atividade ininterrupta,
iniciado por uma pioneira espírita, é fato deveras marcante. Este ano
transcorrem 130 anos do nascimento de sua fundadora Benedita Fernandes, vulto
que colaborou para a construção de uma das marcas que caracterizam Araçatuba
(SP), quando a cidade tinha apenas 20 anos de existência. Ela fundou uma obra
assistencial que sensibilizou a população e começou a registrar de forma
concreta a prática da benemerência, da solidariedade e da orientação
espiritual.
Benedita Fernandes nasceu em Campos Novos de Cunha (SP),um povoado entre
Guaratinguetá e Parati, nos altos da Serra do Mar, no dia 27 de junho de 1883,
e desencarnou, em Araçatuba, no dia 9 de outubro de 1947.1 Sabe-se o mínimo
sobre sua família, pois Benedita perdeu o contato com ela em função de seu
desequilíbrio mental/espiritual. Pela sua cor e considerando-se a região de seu
nascimento, certamente era descendente próxima de escravos.
Nos anos 1920, ela foi curada de atroz subjugação espiritual por um
carcereiro da cidade de Penápolis (SP), que era espírita. A partir daí, ocorreu
profunda transformação na sua vida. Chega a Araçatuba com o propósito de
trabalhar pelo próximo e, no então Patrimônio de Dona Ida, atual bairro
Santana, juntamente com outras lavadeiras – pessoas simples e de pouca
instrução, deu início ao atendimento a pessoas, na época consideradas “loucas”,
e a crianças abandonadas.
No dia 6 de março de 1932, fundou a Associação das Senhoras Cristãs que
originou o atual Hospital Benedita Fernandes. Surgia a primeira obra
assistencial espírita da cidade e da região, bem como um dos marcos históricos
do Movimento Espírita.
Durante os 20 anos de sua profícua atuação assistencial e espírita
naquela cidade, Benedita Fernandes manteve também a Casa da Criança, o Asilo
Dr. Jaime de Oliveira, o Albergue Noturno e as Escolas Mistas, todos
funcionando na rua Newton Prado, próximos ao lugar onde está situado o atual
Hospital. Também foi pioneira nos esforços de união dos espíritas, com a
fundação da União Espírita Regional da Noroeste, nos idos de 1942, ação
antecessora da movimentação que gerou a fundação da União das Sociedades
Espíritas do Estado de São Paulo, em 1947. Conquistou o respeito e a admiração
do povo e das autoridades, de políticos locais e de governadores do Estado.1
Benedita era muito procurada por pessoas que recorriam à sua assistência
espiritual e autoridade moral, que conquistou pelo trabalho dedicado e
desinteressado, presente em muitos episódios.
Depois de prestar um atendimento domiciliar à nossa bisavó materna, nos
idos de 1939, alguns de nossos familiares foram visitar as obras de Benedita,
até como gratidão pela assistência espiritual recebida e, entre outras
observações, “viram uma doente mental, toda contorcida que, ao ouvir as
palavras de dona Benedita, alusivas à fé e à bondade de Deus, juntou as mãos
como se estivesse orando”.
No Movimento Espírita, Benedita tinha amizade e contato, nos anos 1930,
com Cairbar Schutel, que publicava notícias sobre as suas obras em O Clarim, e,
na década seguinte, com Leopoldo Machado – um dos grandes líderes espíritas do
País –, que escreveu várias vezes sobre ela, principalmente no citado
periódico. Num desses artigos, Leopoldo faz registro importante de um
depoimento de Benedita:
Houve um tempo em que meus passes e minha água fluida andaram curando
muita gente. Quase me canonizaram por isso! Minha santidade crescia à medida
que as curas se operavam. E eu, embora passando por santa, já não tinha as
mesmas horas livres para tratar de minhas crianças, de meus obsidiados.
Acontece, ainda, que os doentes só pensando na sua cura, egoisticamente, em si
mesmos, não aceitavam explicações, não respeitavam horas de consultas. Acabei
com a santidade e com os passes e água fluida, vendo, meus amigos, que ser
santo é o diabo!...
Frases simples e de efeito, mas com fundamentação doutrinária, surgiam
sempre, o que refletia sua lucidez espiritual.
Em visita à Fundação Pestalozzi, em Franca (SP), no ano de 1979, o
médico e educador Tomaz Novelino relatou-nos que ele e Benedita estiveram
presentes a uma reunião sobre tratamento de doentes mentais. Na oportunidade,
Benedita, fazendo referência à “moda da época”, de que o obsidiado deveria
desenvolver a mediunidade, arrematou sabiamente: “ao invés de desenvolvidos,
vão é acabar envolvidos...”.1 A lucidez doutrinária da pioneira pode ser
comprovada com a leitura do capítulo Dos inconvenientes e perigos da
mediunidade, de O livro dos médiuns.
Por outro lado, a título de contribuição para as reflexões, principalmente
dos dirigentes espíritas, destacamos que o exemplo marcante da pioneira e a
expressão de suas obras não impediram que ocorressem momentos de dificuldade e
até de tentativas de deturpação das obras. Anotamos a preocupação em artigo
escrito, após a superação dos problemas:
Os vários tipos de crises que o Sanatório Benedita Fernandes passou nos
últimos cinquenta anos sugerem algumas reflexões sobre as instituições
assistenciais em geral. Sem considerar a complexa questão da administração de
instituições, como os hospitais que envolvem várias nuances eminentemente
técnicas, no momento, é oportuna a avaliação doutrinária e para o movimento
espírita. Em absoluto não estamos criticando, mas realizando uma análise depois
de ponderável período de tempo. Esse não é o primeiro caso conhecido em que o
labor assistencial desvinculado do Centro Espírita pode apresentar problemas
sérios.
Há situações que a obra chega a se descaracterizar. Assim, é sempre
cabível a discussão sobre os objetivos reais das instituições espíritas e sobre
suas formas de engajamento nos labores de construção de uma sociedade em novas
bases e a ação sincrônica e fraternal com o movimento espírita.2
Desde nossa juventude, nutrimos admiração por seu vulto e divulgamos,
logo após o aparecimento, a psicografia de Chico Xavier, de 1963, intitulada
Num domingo de calor, assinada pelo Espírito Hilário Silva, referente a
Benedita Fernandes, na qual ela é chamada de “abnegada fundadora” e “mulher
admirável”.
Em 1967, propusemos a comemoração dos 20 anos de sua desencarnação e, em
março de 1982,promovemos a “Semana Benedita Fernandes”, patrocinada pela então
União Municipal Espírita de Araçatuba, com palestras alusivas ao Jubileu de
Ouro da obra da homenageada, nas dependências do Sanatório, nos centros
espíritas da cidade, e oferta de painel, alusivo à obra de Benedita, no Museu
local. Na oportunidade, lançamos o nosso livro Dama da caridade, biografia da
homenageada, editado pela União Municipal Espírita de Araçatuba.
Surgiram mensagens de Benedita, psicografadas por Dolores Bacelar –
dirigente e médium que atuou na cidade do Rio de Janeiro –, que nos relatou
episódios interessantes, relacionados com o trabalho da seareira paulista; e
também por Divaldo Pereira Franco,1,4 inclusive no ambiente de nosso lar, ainda
em Araçatuba. Os exemplos de Benedita e as mensagens espirituais de sua autoria
foram utilizados por muitos expositores, entre eles, Mário da Costa Barbosa,
que trabalhou na área da assistência social espírita nos Estados de São Paulo e
do Pará. Sobre as propostas de trabalho deste último lidador, a FEB editará o
livro Conviver para amar e servir.
Há muitos anos já havia referência à atuação pioneira em várias regiões
do País e conhecemos instituições que a homenageiam, designando-se Benedita
Fernandes, em cidades de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e
Pará.
A mulher simples e humilde se transformou num marco da cidade de
Araçatuba e região, e numa das referências históricas dos hospitais espíritas!
1CARVALHO, Antonio Cesar Perri
de. Dama da caridade. 2. ed. São Paulo: Ed.Radhu, 1987. p. 94.
2______. Benedita Fernandes. 50 anos depois. In: Dirigente Espírita.
Órgão da USE-SP. ano 8, n. 43, p. 3, set. e out.1997.
3XAVIER, Francisco C. Num domingo de calor. Pelo Espírito Hilário Silva.
In: Anuário espírita – 1964. Araras (SP): Ed. IDE, 1964. p. 49. Ver também:
______. Ideias
e ilustrações. 7. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. 30.
4FRANCO, Divaldo P. Sementes de vida eterna. Por diversos Espíritos.
Salvador: Leal, 1978. cap. 20 e 21.
5NO PRELO. Ed. FEB (lançamento previsto para o segundo trimestre de
2013).
Fonte: Reformador Março 2013
O
horário é das 20h00 às 21h30.