sexta-feira, abril 12, 2013
A imortalidade da alma e a reencarnação na Grécia Antiga.
A
imortalidade da alma e a reencarnação na Grécia Antiga.
Por :
Marco Milani
Correio
Fraterno março Abril 2013
No início
de janeiro de 2013 tive a oportunidade de conhecer e conversar com Dr. Marco
Antonio Santamaria Álvarez, professor titular de filologia grega no
Departamento de Filologia Clássica e Indoeuropeo da Universidade de Salamanca,
Espanha. Autor de diversos artigos científicos sobre a cultura e os pensadores
da Grécia Antiga, Santamaria também é um dos organizadores, junto com os professores
Alberto Bernabé Pajares e Madayo Kahle, do livro lançado em 2011 na Espanha,
intitulado Reencarnación: La transmigración del alma entre Oriente y Occidente1.
O livro reúne trabalhos inéditos de destacados acadêmicos espanhóis e vem encontrando
ótima recepção, tanto pelo público acadêmico quanto pelo leitor em geral, já se
cogitando uma versão inglesa da obra.
Destaco
aqui alguns trechos de nossa conversa sobre o livro e a temática reencarnação.
Em um dos
capítulos de sua autoria, aponta-se que Ferécides de Siro foi o primeiro grego
a divulgar que a alma é imortal e a tratar da ideia da transmigração da alma,
mas não se tem certeza sobre a origem das fontes de Ferécides. Quais são as
principais dificuldades para conhecê-las?
Marco
Santamaria: As informações que temos hoje relacionadas às fontes de Ferécides,
o qual supõe-se que viveu no século VI a.C., são de origem tardia, encontradas
principalmente em autores cristãos e neoplatônicos dos séculos IV d.C. e V
d.C., portanto há uma distância temporal significativa entre eles, o que
permite supor que esses autores refletiram algumas tradições. Portanto, não se
tem segurança para se afirmar sobre a origem dessas fontes e é um ponto que
ainda necessita ser desvendado.
Poderia
uma experiência pessoal ter dado origem à crença propagada por Ferécides, ou
seja, uma situação ter gerado o ato cognitivo da descoberta, sem que ele
tivesse tido a necessidade de se basear em ideias anteriores para a construção
das relações entre os homens, deuses, a morte e a sobrevivência da alma?
Marco
Santamaria: E possível que os ensinamentos de Ferécides sobre a alma provenham
de experiências pessoais, mas não temos dados suficientes sobre a sua vida e
sua obra para nos assegurarmos disso. Nesse aspecto, sabe-se que a postura e a
experiência pessoal foram condições necessárias para seguir determinadas
escolas, como nos órficos e pitagóricos, ter acesso aos ensinamentos sobre os
mistérios relacionados às questões ontológicas.
Há
pensadores que defendiam a sobrevivência e imortalidade da alma e que afirmavam
que uma das fontes de conhecimento era originada nas almas dos desencarnados?
Marco
Santamaria: Sócrates, segundo alguns diálogos de Platão, tinha um gênio
protetor um tanto misterioso que lhe transmitia conhecimentos e lhe advertia
sobre determinados fatos, mas não se considera exatamente que essa teria sido a
sua fonte. De forma geral a fonte dos filósofos não se situava na relação com
almas desencarnadas. Pode-se dizer que a comunicação entre os homens e seres
divinos estava presente na sociedade grega por intermédio das pitonisas, porém
esse tipo de conhecimento relacionava-se à magia e aos seus mistérios.
Era
importante para os filósofos uma experiência individual para a confirmação
dessas crenças?
Marco
Santamaria: Isso é muito claro nos casos de Pitágoras e Empédocles. Sobre
Pitágoras não se conservaram textos específicos, mas há testemunhos antigos de
que ele se apresentava como alguém em contato com os deuses e com uma
capacidade de se recordar de vidas passadas e reconhecer almas, parecido com a
figura de um sacerdote. Empédocles se apresentava de maneira semelhante, com a
capacidade de recordar vidas anteriores e considerando-se um personagem com
capacidades divinas entre os homens com dotes especiais de curar e oferecer
oráculos.
Pode-se
considerar o orfismo e o pitagorismo como escolas que abraçavam a imortalidade
e a transmigração da alma em suas crenças e que influenciaram muitos
pensadores, tais como Empédocles, Parmênides, Sócrates e Platão. Supõe-se que
Ferécides tenha sido o mestre de Pitágoras. Qual seria a relação de Ferécides
com o orfismo?
Marco
Santamaria: Esta é uma questão complexa e muito debatida, pois há inúmeras
informações dispersas. Certamente existem pontos em comum entre os órficos e o
pensamento de Ferécides, assim como ocorre com os pitagóricos, mas não se pode
afirmar, com segurança, que as crenças órficas decorreram de Ferécides em sua
origem e vice-versa. O que se pode afirmar com certeza é que todas essas
correntes disseminavam a crença da imortalidade da alma e da transmigração e
esse fato é muito interessante e revolucionário, pois na Grécia Antiga existia
uma clara distinção entre os homens mortais e os deuses imortais. Logo, as
crenças órficas, pitagóricas e de Ferécides contrapuseram-se, de certo modo, à
concepção vigente na época entre os homens e a divindade.
De maneira
geral, pode-se afirmar que tanto para os órficos e pitagóricos a alma preexiste
ao corpo, participando de um ciclo de transmigrações, com recompensas e
castigos, objetivando a sua purificação e, nesse processo, ela manteria a sua
individualidade sem se confundir ou se perder no todo?
Marco
Santamaria: Exatamente. Para todas essas correntes a alma manteria a
individualidade, não havendo uma fusão com o todo nem extinção. E nesse
processo, o corpo seria apenas o cárcere de uma alma preexistente para ser
utilizado durante determinado período e depois a alma o abandonaria na morte. A
reencarnação seria uma espécie de castigo para a alma pagar alguma culpa e
conseguir se purificar e depois disso não mais teria que voltar em um outro
corpo. Alguns poemas da época tratam da questão paradoxal entre morrer no corpo
e viver na alma livre, simbolizando a morte na tumba de carne e a vida, ao se
deixar o corpo e obter-se a liberdade. A recompensa para a alma depois do
período cíclico transmigratório seria estar junto aos deuses em uma região
feliz ou em um mundo celeste, como exposto pelo pitagorismo.
Atualmente,
no âmbito acadêmico, a discussão sobre a sobrevivência da alma e sobre a reencarnação
não se limita aos círculos filosóficos, mas também está presente em outras
áreas do conhecimento científico. Cito, por exemplo, os trabalhos de Ian
Stevenson e seus continuadores, como Jim Tucker, da Universidade de Virgínia
nos Estados Unidos. Assim, temos atualmente estudos que podem apresentar
evidências empíricas sobre a sobrevivência da alma e a reencarnação. Como você
percebe o impacto destes estudos empíricos nos debates filosóficos sobre esses
temas?
Marco
Santamaria: Parecem-me muito interessante esses estudos, mas não os conheço em
profundidade, portanto não posso comentar apropriadamente. Certamente todo o
conhecimento decorrente de estudos empíricos enriquecem os debates e permitem
novas abordagens.
De maneira
geral, como o tema reencarnação é tratado atualmente pelos espanhóis?
Marco
Santamaria: E um contexto um tanto paradoxal, porque temos aqui na Espanha um
paradigma religioso relacionado ao catolicismo, mas a ideia de reencarnação
está um tanto generalizada. Percebe-se uma difusão do conhecimento da
reencarnação, ainda que exista a oposição de representantes católicos, mas acho
isso muito compreensível diante da complexidade do ser humano com um
conglomerado de crenças. Chama-me a atenção a grande semelhança existente entre
crenças atuais e crenças antigas!
Depois
dessa agradável conversa, presenteei o professor Santamaria com um exemplar de
O livro dos espíritos, de Allan Kardec, em versão espanhola. Uma vez que o
professor Santamaria não conhecia o trabalho de Kardec, quem sabe poderemos
voltar a conversar, em futuro próximo, sobre a sobrevivência da alma e a
reencarnação considerando especificamente a perspectiva espírita?
1Pajares,
A.B; Kahk M.; Santamaria Alvarez. MA. (Org). Reencarnación: La transmigración del alma
entre Oriente y Occidente. Madrid: Abada Editores, 2011.
Marco
Milani é economista, professor na. Universidade Mackenzie, em. São Paulo. Em
viagem à Espanha, realizou esta entrevista para o Correio Fraterno.
“Sócrates,
segundo alguns diálogos de Platão, tinha um gênio protetor um tanto misterioso
que lhe transmitia conhecimentos e lhe advertia sobre determinados fotos, mas
essa não teria sido a sua fonte."