sexta-feira, abril 12, 2013
Duas mães e um pai.
Duas mães e um pai.
O controle de doenças
transmitidas por herança materna ganha um aliado — a criação de embriões a
partir do material genético de duas mulheres e um homem.
ADRIANA DIAS LOPES
Referência mundial nos estudos
sobre embriologia, a Inglaterra estuda a possibilidade de aprovar uma das mais
fascinantes e inovadoras (controversas, sem dúvida) técnicas de reprodução
humana: a formação de um embrião a partir do material genético de duas mulheres
e um homem. O Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA), órgão
responsável pelas normas inglesas sobre fertilização humana, já deu o aval para
a prática. Com o nome de transferência de DNA mitocondrial, o procedimento tem
por objetivo o controle de doenças genéticas transmitidas por herança materna.
Entre elas. alguns tipos de doenças musculares, cegueira, epilepsia e retardo
mental. Tais distúrbios acometem uma a cada 6000 pessoas e estão associados a
defeitos no DNA mitocondrial. A ideia é, durante a fertilização in vitro,
substituir o DNA mitocondrial doente da mãe biológica pelo saudável da doadora.
Localizado no citoplasma
celular, o DNA mitocondrial representa 0,02% dos genes de um ser humano e está
envolvido exclusivamente na produção de energia celular — sem a qual não há
vida. O DNA mitocondrial da mãe e o do pai nunca se misturam durante a
concepção. Aqui um parêntese: os espermatozoides também possuem esse tipo de
material genético, mas ele é eliminado no momento da fecundação, por proteínas
fabricadas pelo óvulo. Por isso, o DNA mitocondrial é sempre herdado da mãe. Os
99,98% restantes de nossa genética estão associados ao DNA nuclear. Resultado
da combinação dos genes da mãe e do pai é ele que determina a cor de nossos
olhos, a textura de nosso cabelo, a nossa estatura, se temos ou não propensão
para engordar. Ou seja, um bebê concebido a partir de um óvulo que teve seu DNA
mitocondrial modificado não terá as características físicas da doadora — e sim
as da mamãe e do papai (veja o quadro abaixo).
Como sempre ocorre com a
imensa maioria das iniciativas na área da reprodução humana, o transplante de
DNA mitocondrial envolve questões éticas delicadíssimas. Uma delas é a
impossibilidade de prever a segurança do procedimento em longo prazo — a não
ser testando-o em seres humanos. Ainda se desconhecem os efeitos que possam
surgir, ao longo da vida, da interação de DNAs de pessoas diferentes — no caso,
a mãe e a doadora. Isso porque o DNA, nuclear e o DNA mitocondrial produzem
proteínas que interagem durante o tempo todo para o bom funcionamento das
células. Parte das proteínas produzidas pelo DNA mitocondrial só exerce sua
função a contento ao se misturar com as proteínas do DNA nuclear. E vice-versa.
Há outra questão a ser discutida. Poderiam surgir novas doenças dessa
interação?
Se aprovado, o transplante de
DNA mitocondrial será o primeiro procedimento de manipulação genética das
células germinativas (óvulo e espermatozoide) adotado legalmente como trata mento
médico nas clínicas de reprodução assistida. A autorização desse tipo de
manipulação representa um grande avanço para evitar a transmissão de doenças de
origem genética. No entanto pode, teoricamente, abrir caminho para experimentos
perigosos, como os que permeiam a eugenia.
A retirada do DNA de um óvulo
é um procedimento delicado. A técnica ganhou segurança e eficácia, sobretudo
nos últimos dois anos, graças ao desenvolvimento de microscópios de última
geração, com softwares refinados, capazes de rastrear com grande exatidão
estruturas minúsculas sem danificá-las no momento de sua extração. Até agora, o
transplante de DNA mitocondrial utilizado em estudos clínicos só era realizado
a partir de um embrião — cujo 0.5 milímetros de diâmetro são pelo menos 30%
maior do que o tamanho de um óvulo. O resultado da técnica mais antiga era,
consequentemente, menos seguro: cerca de 2% do DNA mitocondrial doente costuma
ser transferido junto, o que aumenta a possibilidade de o problema materno ser
transferido para o bebê. No caso da extração no óvulo, apenas 0,3% do DNA
mitocondrial é transplantado inadvertidamente.
A transferência de DNA foi
desenvolvida nos anos 90 pelo pesquisador holandês Jacques Cohen, em sua
clínica no estado americano de Nova Jersey. Cohen usou o procedimento em cerca
de trinta crianças. Uma delas tem autismo. Não se sabe exatamente se a origem
da doença está associada à técnica utilizada. Mas esse tipo de estudo foi
proibido nos Estados Unidos. Os desafios são imensos, mas a avenida aberta é
extraordinária.
Quadro demonstrativo
Novas regras no Brasil
A reprodução assistida
brasileira é desprovida de uma legislação específica - ao contrário do que
ocorre em países que são referência no assunto, como Inglaterra, França e EUA.
A lei que chega mais próximo
do assunto é a de biossegurança, editada em 2005 com o objetivo de
regulamentara pesquisa com células-tronco embrionárias. A regulamentação dessa
área da saúde é feita por meio de resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM).
As normas não têm poder legal, mas o médico que não as seguir é submetido a
sanções que vão de advertência à cassação do registro. Até hoje, haviam sido
editadas duas resoluções na área. A mais recente era de 2010.0 CFM acaba de
criar a terceira, com mudanças relevantes.
Uma das alterações mais
decisivas trata do descarte de embriões não aproveitados pelas clínicas de
medicina reprodutiva. Estima-se que haja 25 000 embriões excedentes de
tratamentos de fertilização in vitro no Brasil, estocados em 170 centros de
reprodução humana. Cerca de 30% deles não são mais utilizados pelos casais.
"Pela lei de
biossegurança, no entanto, eles não podem ser jogados fora. Podem, no máximo,
ser usados em pesquisas clínicas - e, mesmo assim, com uma série de
restrições", diz Edson Borges, diretor da Clínica Fertility, em São Paulo.
A nova resolução autoriza o médico a descartar qualquer embrião congelado por
mais de cinco anos, sempre com o consentimento dos pais. Outra mudança da nova
resolução do CFM é sobre a idade da mulher que se submete às técnicas de
reprodução assistida. 0 limite passa a ser de 50 anos, a idade média da
menopausa. Não havia restrições até então. 0 CFM também contemplou os
homossexuais, que passam a ter todos os direitos dos casais heterossexuais.
A nova resolução do CFM passa
a valer a partir de sua publicação no Diário Oficial, prevista para ocorrer nas
próximas semanas.
Fonte: Veja abril 2013

