terça-feira, abril 16, 2013
Nem cabides, nem espantalhos.
Nem cabides, nem espantalhos.
A roupa faz a pessoa?
Da Redação
Talvez o leitor já tenha visto
ou ouvido em algum lugar que, certa ocasião, quando o físico Albert Einstein
(1879-1955) e sua esposa iriam receber em casa um político alemão, a mulher pediu-lhe
que trocasse de roupa. Einstein teria respondido: "Se ele quiser me ver,
aqui estou eu. Se ele quiser ver minhas roupas, abra o armário e mostre a ele
meus ternos".
Vivemos numa sociedade
extremamente preocupada com a aparência, por um lado, e profundamente
dependente dela para emitir suas opiniões e julgamentos, por outro.
Esse não é um privilégio
nosso: já no século XIX, Henry David Thoreau (1817-1862) em seu livro clássico
Walden, ou a vida nos bosques, alertava: "Vesti um espantalho com o vosso
último traje e ficai nus a seu lado: quem não saudaria primeiro o
espantalho?"
E ele também observava:
"Reis e rainhas que usam um traje apenas uma vez, feito sob medida pelo
alfaiate ou costureiro de Sua Majestade, desconhecem o conforto de continuar
vestindo uma roupa que assenta bem, e nessa condição se equiparam a cabides de
madeira em que se penduram roupas limpas".
Por mais que goste de se
vestir com apuro, ninguém realmente se vê como um espantalho ou um cabide,
embora a importância dada ao exterior possa ser tão grande, em proporção ao
esquecimento do interior, que a advertência de Thoreau caberia bem. Sob o risco
de parecer uma atitude radical, o pensador adverte-nos para uma característica
bastante disseminada nos meios onde vivemos: a tendência de oferecer maior
consideração ou de tratar melhor a pessoa que se veste melhor, que usa roupas
mais caras ou de griffe, ou que adere a determinado estilo de se trajar que nos
agrade pessoalmente. É comum fazer-se diferença entre as pessoas que se vestem
de maneira mais simples e as que usam peças mais caras e sofisticadas - a
começar pelo que pensamos sobre quem elas são.
A um passo de se enganar.
Roupas têm sua importância
inegável entre nós. Tanto, que um modo de expressar seu pertencimento ou simpatia
por determinado grupo também é definido pela vestimenta já há algumas gerações,
notadamente, desde os hippies, rockeiros, rastafáris etc.
Mas o fato é' que, como
espírita, compreendendo o espírito da doutrina que professa, espera-se que uma
pessoa consiga transcender as aparências em favor de uma compreensão mais
profunda do outro ser humano. Preferir determinado estilo, clássico, esportivo,
casual, despojado, vestir-se com mais modéstia ou luxo, é direito de cada um,
mas tem apenas o peso de uma opção associada à possibilidade, à cultura e à
disponibilidade financeira - e pouco além disso. As qualidades essenciais da
criatura não estão necessariamente à mostra, e se elas aparecem, isso ocorre
mais pelo olhar, pelo tom de voz, pelos gestos e atos. Thoreau confessa que
homem nenhum caiu no seu conceito por ter um remendo na roupa, mesmo tendo a
certeza de que pode haver mais preocupação em andar na moda, com roupas limpas
e sem remendos, do que em ter a consciência tranquila...
Observa-se, assim, o desequilíbrio
entre a importância que pode ser atribuída às qualidades interiores e as
aparências exteriores, que nos remete aos fariseus dos tempos de Jesus. Segundo
o glossário incluído na "Introdução" de O evangelho segundo o
espiritismo, os fariseus eram "servis cumpridores das práticas exteriores
do culto e das cerimônias; cheios de um zelo ardente de proselitismo".
Contudo, diz ainda a sequência do texto que, "sob as aparências de
meticulosa devoção, ocultavam costumes dissolutos, muito orgulho e, acima de tudo,
excessiva ânsia de dominação. Tinham a religião mais como meio de chegarem a
seus fins, do que como objeto de fé sincera. Da virtude nada possuíam, além da
exterioridade e da ostentação; entretanto, por umas e outras, exerciam | grande
influência sobre o povo, a cujos olhos passavam por santas criaturas. Daí o
serem muito poderosos em Jerusalém".
Ao condicionarmos nossas
opiniões a tais exterioridades, colocamo-nos em situação de sermos facilmente
ludibriados, distantes da percepção mais clara da verdadeira intenção da
criatura diante de nós. Podemos ser enganados pela aparência e ostentação de
virtudes que não são reais. E a ninguém mais, senão a nós mesmos, poderemos
responsabilizar pelas consequências que nossa apreciação equivocada possa
acarretar.
Fonte: Jornal Leitura Espírita
outubro 2012
http://leituraespirita.org/