segunda-feira, junho 24, 2013

 

Família e escola – Uma parceria possível -Christiano Torchi


Família e escola – Uma parceria possível

Christiano Torchi

 

Reformador

Ano 131 • Nº 2211 • Junho 2013

 

Onde situar as funções da família e da escola na sociedade? Teriam elas papéis estanques?

Deve a escola cuidar apenas do conteúdo, da instrução formal, da cidadania?

E a família, apenas dos valores da educação, dos valores morais, dos sentimentos?

É público e notório que os índices de qualidade educacional nos países emergentes, como o nosso, apesar das melhoras experimentadas nos últimos tempos, continuam muito abaixo do desejado, sobretudo nas escolas públicas. Mesmo nos países ditos desenvolvidos, a educação formal não tem sido eficiente o bastante para suprir falhas de ensino e evitar desvios de comportamento dos educandos.

Além da baixa qualidade do ensino, a questão das drogas e da violência em seus múltiplos aspectos, inclusive o bullying, tem sido uma preocupação constante dos pais e professores. As causas dessas distorções são complexas, pois, sem embargo das questões espirituais, envolvem fatores sociais, culturais, políticos, entre outros.

O pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), que teve grande influência na educação do menino Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), o qual se tornaria mais tarde o codificador da Doutrina Espírita, sob o pseudônimo Allan Kardec, lançou as bases, no Ocidente, do ensino primário (nos dias atuais chamado ensino fundamental).

Para Pestalozzi, adepto do método heurístico de ensino,1 “o papel do pedagogo é o de desenvolver a individualidade da criança em lugar de simplesmente lhe transmitir conhecimentos”2 e “as relações entre mestre e aluno, sobretudo no que concerne à disciplina, devem ser fundadas no amor e por ele governadas”3, o que está em sintonia com o pensamento do então Prof. Rivail de que “a educação é a arte de formar os homens; isto é, a arte de fazer eclodir neles os germes da virtude e abafar os do vício”.4

Diante desses valores básicos inerentes à educação estariam a família e a escola desempenhando corretamente suas missões?

Pesquisa realizada em 2007, pela revista Nova escola e pelo Ibope, perante professores das redes públicas das capitais brasileiras, detectou que o docente gosta da profissão, sabe “que é parte de sua função preparar os alunos para um futuro melhor”, mas “se ressente por ter de providenciar a Educação global (valores, hábitos de higiene etc.) que a família não dá. [...] Os alunos são vistos como desinteressados e indisciplinados e são percebidos, junto com a família, como os principais problemas da sala de aula”.5 De acordo com a referida pesquisa, quase 50 % dos professores reclamam da sobreposição de papéis (em relação à família dos alunos).

Um grupo de professores experientes analisou os dados da referida pesquisa, concluindo que a participação da família é fundamental para que a criança se desenvolva como estudante, cabendo, porém, à escola, em seu papel contemporâneo, não se limitar apenas a ensinar conteúdos, mas também a trabalhar com valores humanos que reclamam a integração da família na rotina escolar, por exemplo, o seu envolvimento na elaboração da proposta pedagógica, como forma de encaminhar a solução de desafios comuns a todos, sobretudo aqueles ligados à afetividade: “A parceria da escola com a família pode ocorrer em vários níveis e momentos”.6

Pesquisa sobre “Educação moral nas escolas”, coordenada por profissional de Psicologia da Educação, disponível na Internet, cuja linha de trabalho é um tanto distinta da antiga Educação Moral e Cívica, detectou:

O foco atual é a formação de um sujeito autônomo, que defende valores como bons para si e para os outros [...]. Muitas vezes, a equipe docente acha que não deve trabalhar com Educação moral porque isso é uma tarefa que cabe à família. Mas hoje estudiosos afirmam que vivemos uma situação em que a força da competição, da imagem e do poder duela com o respeito e a cooperação. A Educação está percebendo a crise e entendendo que tem de enfrentá-la [...]. Já os familiares trabalham com valores individuais, como a cooperação, a solidariedade, a generosidade e a bondade, e protegem os seus. Na família, como na escola, moral vivida é moral ensinada. De nada adianta fazer discursos se as práticas os contradizem.7

Como se percebe, os valores éticos são interdisciplinares, não têm fronteiras e devem ser tratados em todas as dimensões da sociedade, de acordo com as características de cada segmento. É preciso acabar com o “jogo de empurra” entre a família e a escola sobre a incumbência pela formação das crianças e adolescentes. Ambas têm suas responsabilidades e devem exercer seus papéis em complementaridade.8

Egressa das fontes espirituais, a família, berço da civilização, é instituição que remonta às origens da Humanidade e que varou os milênios, preservando seus valores essenciais. Ela não está acabando, como muitos apregoam, mas, se transformando. Frequentemente, são realizados estudos sociais e pesquisas sobre a família e o casamento. Eles sempre indicam que os valores familiares continuam em alta na sociedade moderna, acima até mesmo do trabalho ou da carreira profissional.9

A missão da família transcende os valores puramente materiais, restritos ao desenvolvimento econômico e cultural. Sua missão é a de estreitar os laços sociais, o que é feito por meio da experiência no corpo físico, que vem a ser o filtro pelo qual os Espíritos se aprimoram, progridem, proporcionando a depuração gradual da sociedade.

A vocação moral da família está em sintonia com a descoberta de Frans de Waal, primatologista holandês, para quem:

É um erro [...] julgar que a moralidade do homem surgiu do nada ou que é somente um produto da religião e da cultura.10

A família apresenta-se como uma sociedade em miniatura, que lhe garante o status de berço da civilização. Ela é para a sociedade o que a célula é para o organismo: mantém sua individualidade e autonomia, mas interage com a outra em constante interdependência.

É, pois, nos lares que se moldam as famílias. Não se confunda, porém, casa com lar. A casa é a edificação material: o alicerce, as paredes, o telhado... Já o lar é a edificação espiritual: a reunião de pessoas, com finalidades evolutivas, onde se exercita o perdão, a renúncia, a abnegação, a cooperação mútua, elementos imprescindíveis à construção do amor. Por isso, é válido dizer que o lar é a primeira escola, os pais são os primeiros professores e os filhos, os primeiros alunos. Reportando-se ao dever de cada um, perante o núcleo familiar, Jesus ensinou que “todo aquele que faz a vontade de Deus [isto é, que observa a lei de amor, consagrada nas leis morais], esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”,11 independentemente dos laços consanguíneos. Enfim, sem prejuízo do papel da família, é muito importante o comprometimento dos demais atores educacionais, os quais, sem abdicar de sua missão institucional de instruir, devem criar um ambiente de escola acolhedora, que ampara o desenvolvimento da afetividade e dos sentimentos, ajudando a formar pessoas mais felizes e cidadãos responsáveis e conscientes.

Não basta ensinar à criança os elementos da Ciência. Aprender a governar-se, a conduzir-se como ser consciente e racional, é tão necessário como saber ler, escrever e contar é entrar na vida armado não só para a luta material, mas, principalmente, para a luta moral.

É nisso em que menos se tem cuidado. Presta-se mais atenção em desenvolver as faculdades e os lados brilhantes da criança, do que as suas virtudes. Na escola, como na família, há muita negligência em esclarecê-la sobre os seus deveres e sobre o seu destino.

Portanto, desprovida de princípios elevados, ignorando o alvo da existência, ela, no dia em que entra na vida pública, entrega-se a todas as ciladas, a todos os arrebatamentos da paixão, num meio sensual e corrompido. Mesmo no ensino secundário, aplicam-se a atulhar o cérebro dos estudantes com um acervo indigesto de noções e fatos, de datas e nomes, tudo em detrimento da educação moral. A moral da escola, desprovida de sanção efetiva, sem ideal verdadeiro, é estéril e incapaz de reformar a sociedade.12

A educação formal ou instrução, tão necessária ao desenvolvimento do intelecto, é de grande valia na formação dos valores da cidadania, entretanto, jamais prescindirá da educação moral. Tudo o que acontece na sociedade é reflexo do que se passa na família e na escola, mais um motivo para que lhes dispensemos toda nossa atenção e zelo, pois é nelas que se assenta a base da edificação de uma sociedade integral, que zela pelo equilíbrio entre os valores do espírito e do intelecto.

 

1 Pelo método heurístico, o aluno é conduzido a descobrir por si mesmo, tanto quanto possível por seu esforço pessoal, as coisas que estão ao alcance de sua inteligência.

2 AUDI, Edson. Vida e obra de Allan Kardec. Niterói (RJ): Lachâtre, 1999. p. 15.

3 WANTUIL, Zêus; THIESEN, Francisco. Allan Kardec – Meticulosa pesquisa biobibliográfica.5. ed. Rio de Janeiro: FEB,1999. v. 1, cap. 15, Esboço do sistema pestalozziano, p. 97.

4 RIVAIL, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec). Plano proposto para a melhoria da Educação Pública (1828). Trad. Dora Incontri. Apud INCONTRI, Dora. In: Textos pedagógicos. São Paulo: Comenius, 1998. p. 15.

5 Revista Nova Escola. Fundação Victor Civita. Pesquisa exclusiva Ibope e Nova Escola. A educação vista pelos olhos do professor. São Paulo: Editora Abril, ano 22, n. 207,p. 33, nov. 2007.

6 Idem. Escola e família. Todos aprendem com essa parceria. ano 21, n. 193, p. 34, jun. e jul. 2006.

7 Idem. Fala Mestre. Educação Moral (pesquisa coordenada pela Profª. Maria Suzana Menin, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp, Campus de Presidente Prudente- SP). ano 27, n. 257, p. 32 e 34, nov. 2012.

8 Idem. Formação. Escola e família. Sem culpar o outro. ano 24, n. 225, p. 102 a 106, set. 2009.

9 Disponível em: (Valores familiares estão em alta na Europa, aponta pesquisa). Acesso em: 31/3/2013; Revista Veja. São Paulo: Ed. Abril, 11/8/1999,p. 98 e ss. (Viva o Casamento); 8/3/2006, p. 104 e ss. (Vale a pena consertar?) e 25/8/2010,p. 98 e ss. (Casamento: por que ele continua a valer a pena); e GOTTMAN, John. Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos. 26. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997. p. 36 e seguintes.

10 Revista Veja. São Paulo: Ed. Abril. A moral é animal. Entrevista: páginas amarelas, n. 2.022, p. 12, ed. de 22 de agosto de 2007.

11 MATEUS, 12:46 a 50.

12 DENIS, Léon. Depois da morte. 28. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013. pt. quinta, cap.54, A educação.

 

http://www.sistemas.febnet.org.br/reformadoronline/pagina/?id=361

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