sexta-feira, julho 19, 2013
Para que pode servir o estudo do Espiritismo?
Para que
pode servir o estudo do Espiritismo?
Em face
das incertezas das revelações feitas pelos espíritos, pergunta-se: para que
pode servir o estudo do Espiritismo?
Ele serve
para provar materialmente a existência do mundo espiritual. O mundo espiritual
estando formado pelas almas daqueles que viveram, disso resulta a prova da
existência da alma e da sua sobrevivência ao corpo.
As almas
que se manifestam, revelam suas alegrias e seus sofrimentos segundo a maneira
que empregaram a vida terrestre; disso resulta a prova das penas e das
recompensas futuras.
As almas
ou Espíritos, descrevendo seu estado e sua situação, corrigem as ideias falsas
que se fazia sobre a vida futura e, principalmente, sobre a natureza e a
duração das penas.
A vida
futura passando, assim, do estado de teoria vaga e incerta ao estado de fato
consumado e positivo, disso resulta a necessidade de trabalhar, o mais
possível, durante a vida presente, que é de curta duração, em proveito da vida
futura, que é indefinida.
Suponhamos
que um homem de vinte anos tenha a certeza de morrer aos vinte e cinco; que
fará durante esses cinco anos? Trabalhará para o futuro? Seguramente não. Ele
se esforçará em gozar o mais possível e consideraria um logro se impor fadiga e
privações sem objetivo. Mas, se ele tivesse a certeza de viver até os oitenta
anos, agiria de outro modo, porque compreenderia a necessidade de sacrificar
alguns instantes do repouso presente para assegurar o repouso futuro durante
muitos anos. Ocorre o mesmo com aquele para quem a vida futura é uma certeza.
A dúvida
com relação à vida futura conduz, naturalmente, a tudo sacrificar aos gozos do
presente; daí a importância excessiva atribuída aos bens materiais.
A
importância atribuída aos bens matérias excita a cobiça, a inveja, o ciúme
daquele que tem pouco contra aquele que tem muito. Da cobiça ao desejo de se
obter a todo custo o que possui seu vizinho, há apenas um passo; daí os ódios,
as disputas, os processos, as guerras e todos os males engendrados pelo
egoísmo.
Com a
dúvida sobre o futuro, o homem, oprimido nesta vida pelos desgostos e pelo
infortúnio, não vê senão na morte o fim dos seus sofrimentos; nada mais
esperando, ele acha racional abreviá-los pelo suicídio.
Sem
esperanças no futuro, é muito natural que o homem se afete, se desespere diante
das decepções que experimente. As agitações violentas que delas recebe produzem
em seu cérebro um abalo, causa da maioria dos casos de loucura.
Sem a vida
futura, a vida presente é para o homem a coisa capital, o único objeto de suas
preocupações, e a ela tudo relaciona. Por isso, quer a qualquer preço gozar,
não somente dos bens materiais, mas de honrarias; aspira a brilhar, a se elevar
acima dos outros, a eclipsar seus vizinhos por seu fausto e sua posição; daí a
ambição desenfreada e a importância que
dá aos títulos e a todas as futilidades da vaidade, pelas quais ele
sacrificaria até sua própria honra, porque não vê nada além.
A certeza
da vida futura e suas consequências muda totalmente a ordem das ideias e faz
ver as coisas sob nova luz; é um véu levantado que descobre um horizonte imenso
e esplêndido. Diante do infinito e da grandiosidade da vida de além-túmulo, a
vida terrestre se apaga, como um segundo diante dos séculos, como o grão de
areia diante da montanha. Tudo aí torna-se pequeno, mesquinho, e espanta-se da
importância que se deu a coisas tão efêmeras e tão pueris. Daí, nos
acontecimentos da vida, uma calma, uma tranquilidade, que já é felicidade em
comparação com as balbúrdias, os tormentos que nos impomos para nos elevarmos
acima dos outros; daí também, para as vicissitudes e as decepções, uma
indiferença mesmo que, tirando toda presa ao desespero, afasta os mais
numerosos casos de loucura e desvia o pensamento do suicídio. Com a certeza do
futuro o homem espera e se resigna; com a dúvida, ele perde a paciência, porque
não espera nada do presente.
O exemplo
daqueles que viveram, prova que a soma da felicidade futura está em razão do
progresso moral alcançado e do bem que se fez sobre a Terra; que a soma da
infelicidade está em razão da soma dos vícios e das más ações, resultando disso
em todos aqueles que estão bem convencidos dessa verdade, uma tendência toda
natural a fazer o bem e a evitar o mal.
Quando a
maioria dos homens estiver imbuída dessa ideia, quando professar esses
princípios e praticar o bem, disso resultará que o bem se imporá sobre o mal
neste mundo; que os homens não procurarão mais se prejudicarem mutuamente; que
eles regularão suas instituições sociais para o bem de todos, e não em proveito
de alguns; em uma palavra, compreenderão que a lei da caridade ensinada pelo
Cristo é a fonte da felicidade, mesmo neste mundo, e basearão suas leis civis
sobre a lei da caridade.
A
constatação do mundo espiritual que nos cerca, e de sua ação sobre o mundo
corporal, é a revelação de uma potência da Natureza e, por conseguinte, a chave de uma multidão
de fenômenos incompreendidos, tanto na ordem física como na ordem moral.
Quando a
Ciência tiver se inteirado desta nova força, desconhecida para ela até este
dia, retificará uma multidão de erros provenientes do fato de atribuir tudo a
uma causa única: a matéria. O reconhecimento dessa nova causa nos fenômenos da
Natureza, será uma alavanca para o progresso, e produzirá o efeito da
descoberta de um agente todo novo.
Com a
ajuda da lei espírita, o horizonte da Ciência se alargará como se alargou com a
ajuda da lei da gravitação.
Quando os
sábios, do alto de sua cátedra, proclamarem a existência do mundo espiritual e
sua ação nos fenômenos da vida, infiltrarão na juventude o contrapeso das
ideias materialistas, ao invés de predispô-la à negação do futuro.
Nas lições
de filosofia clássica, os professores ensinam a existência da alma e seus
atributos segundo as diferentes escolas, mas sem provas materiais. Não é
estranho que agora, que essas provas chegaram, elas sejam repelidas e tratadas
de supersticiosas por esses mesmos professores? Não é dizer aos seus alunos:
nós vos ensinamos a existência da alma, mas nada a prova? Quando um sábio emite
uma hipótese sobre uma questão científica, ele procura com zelo, acolhe com
alegria, os fatos que podem fazer dessa hipótese uma verdade: como um professor
de filosofia, cujo dever é provar aos seus alunos que eles têm uma alma, trata
com desdém os meios de lhes dar uma demonstração patente?
Suponhamos,
pois, que os Espíritos sejam incapazes de nada nos ensinar que nós já não o
saibamos, ou que não podemos saber por nós mesmos, vê-se que a só constatação
da existência do mundo espiritual conduz, forçosamente, a uma revolução na
ordem das coisas, e é essa revolução que o Espiritismo prepara.
Mas os
Espíritos fazem mais que isso; se suas revelações são cercadas de certas
dificuldades e exigem minuciosas precauções para lhes constatar a exatidão, não
e menos verdadeiro que os Espíritos esclarecidos, quando se sabe interroga-los,
e quando isso lhes é permitido, podem nos revelar fatos ignorados, nos dar
explicações de coisas incompreendidas, e nos colocar sobre a senda de um
progresso mais rápido. É nisso, sobretudo, que o estudo completo e atento da
ciência espírita é indispensável, a fim de não lhe pedir o que ela não pode
dar; é ultrapassando os limites que se expõe a ser enganado.
As menores
causas podem produzir os maiores efeitos; é assim que, de um pequeno grão pode
sair uma árvore imensa; que a queda de uma maçã fez descobrir a lei que rege os
mundos; que as rãs saltando num prato revelaram a força galvânica; foi também
assim, que do vulgar fenômeno das mesas girantes saiu à prova do mundo
invisível, e dessa prova uma doutrina que, em alguns anos, deu a volta ao
mundo, e pode regenerá-lo pela só constatação da realidade da vida futura.
O
Espiritismo ensina pouco quanto a verdades absolutamente novas, em virtude do
axioma de que nada há de novo sob o Sol. Não há verdades absolutas senão
aquelas que são eternas; as que o Espiritismo ensina, estando fundadas sobre as
leis da Natureza, existiram de todos os tempos; por isso delas se encontram os
germes que um estudo mais completo e observações mais atentas têm desenvolvido.
As verdades ensinadas pelo Espiritismo são, pois, antes consequências que
descobertas.
O
Espiritismo não descobriu nem inventou os Espíritos, nem descobriu o mundo
espiritual, no qual se acreditou em todos os tempos; somente ele o prova por
fatos materiais e o mostra sob sua verdadeira luz, livrando-o dos preconceitos
e das ideias supersticiosas que engendram a dúvida e a incredulidade.
Allan
Kardec
Do livro
“O que é o Espiritismo”
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