terça-feira, agosto 13, 2013
Falsos perfis da prática mediúnica.
Falsos
perfis da prática mediúnica.
Um
importante aspecto das comunicações de espíritos é determinar sua
autenticidade.
Por Ariane de
Assis Jordão
De
acordo com notícia publicada pelo portal IDGNow, no segundo semestre do ano
passado, o Facebook admitia ter mais de 83
milhões de perfis falsos.
Nem
todos são mal intencionados. Algumas contas são duplicadas. Há também criação
de perfis indevidos - para
animais de estimação, por exemplo. Mas o número não deixa dúvidas de que eles
podem ser encontrados a qualquer momento, pelas redes sociais.
O mundo
virtual permite o crescimento do número de casos, porque facilita a veiculação
de imagens e textos sem comprovação de autenticidade das informações. Não se
sabe se a foto de perfil é mesmo do titular da conta e, muitas vezes, só
poderia saber quem o conhecesse pessoalmente. Também é comum encontrarmos
frases com falsa autoria atribuída. Ou uma mesma frase, atribuída a autores
diferentes.
Os
perfis falsos e autorias duvidosas já estavam presentes nas considerações de
Kardec perante a prática mediúnica. A questão da autenticidade de informações e
de determinação da verdadeira identidade do autor de uma comunicação mediúnica
está presente desde os primórdios das reuniões espíritas.
Allan
Kardec considerou a identificação dos espíritos uma das questões "mais
controvertidas" da prática mediúnica e analisou as razões, tanto de
encontrarmos falsas comunicações, como dados falsos em comunicações mediúnicas
legítimas. Vejamos então as orientações que ele nos deixou, a esse respeito.
Espíritos
podem se enganar
Um
primeiro caso de informações equivocadas provenientes do mundo espiritual
ocorre quando os próprios espíritos estão enganados.
A
percepção de sua situação no mundo espiritual está relacionada à evolução
alcançada. Suas ideias retratam seus conhecimentos e a amplitude do seu entendimento
das questões que abordam. Quando é inferior, ainda não totalmente desmaterializado,
um espírito conserva as ideias que tinha na Terra e as utiliza para se
expressar. Alguns acreditam continuar encarnados, por não terem percebido a
transformação da morte física pela qual passaram.
Todo
sofrimento após a morte é de natureza moral e não reflete uma condição
externa, mas da própria consciência em desalinho. Se suas crenças, porém,
envolviam a existência de um céu ou de um inferno, poderão dizer que ali se
encontram, mesmo quando sabemos que tais locais físicos de recompensas e de
punições futuras não existem.
Tais
espíritos, que fornecem informações incorretas,
podem não ter a intenção de nos enganar, estando, eles próprios,
equivocados, o mesmo podendo ocorrer no que diz respeito a ideias, filosofias e
eventuais revelações que eles nos ofereçam.
Como
lidar com tais situações? E importante não ter pressa em aceitar como
verdadeiro, mas primeiro submeter ao crivo da razão, aquilo que chega pela via
mediúnica. É comum que comunicações de espíritos inferiores acabem se
contradizendo entre si, ou que tais espíritos contradigam a si próprios, na
mesma mensagem ou na continuidade dos contatos
mediúnicos.
E mais, segundo Erasto orienta em O livro dos médiuns: "Podendo manifestar-se
Espíritos de todas as categorias, resulta que suas comunicações trazem o cunho
da ignorância ou do saber que lhes seja peculiar no momento, o da inferioridade,
ou da superioridade moral que alcançaram. A distinguir o verdadeiro do falso, o
bom do mau, é a que devem conduzir as instruções que temos dado. Cumpre não
esqueçamos que, entre os Espíritos, há, como entre os homens, falsos sábios e
semissábios, orgulhosos, presunçosos e
sistemáticos.
Assim, afirma Kardec em O livro dos médiuns que, "para se compreenderem a
causa e o valor das contradições de origem espírita, é preciso estar-se
identificado com a natureza do mundo invisível e tê-lo estudado por todas as suas
faces".
Diferente é o caso dos espíritos que
buscam nos confundir ou enganar deliberadamente, que
Kardec chama de "mistificadores". Mistificar é iludir, fazer acreditar numa
mentira.
Nenhum médium, por mais experiente
que seja, pode considerar-se isento de mistificações e os bons médiuns têm
consciência disso, sendo modestos e não se considerando infalíveis.
As razões são várias, muitas vezes
de ordem particular, envolvendo um espírito e uma pessoa ou grupo específico.
Outras vezes, a própria atitude do grupo ou médium dá ensejo a tais
ocorrências.
Uma das causas apontadas em O livro dos médiuns para as mistificações é o abuso da
faculdade, ocasionado pelo entusiasmo de principiantes em obter muitas
comunicações, a todo momento, visto não estarem os espíritos à sua disposição.
A recomendação é desenvolver uma disciplina de trabalho, com dias e horas
determinados para o exercício, "porque assim se entregarão ao trabalho em
condições de maior recolhimento e os espíritos que os queiram auxiliar, estando
prevenidos, se disporão melhor
a prestar esse auxílio".
(O livro dos médiuns, item 217). Outra causa de mistificação é a insistência
em obter comunicações de um espírito determinado. Ignorando que esta
comunicação nem sempre será permitida ou possível, forçar a obtenção dá margem
à ação dos mistificadores, aos
quais pouco ou nada interessam aspectos éticos ou a verdade.
Quando houver suspeita de ocorrência
de mistificação, Allan Kardec sugere
que se façam perguntas aos espíritos, pois que "raramente suportam a prova
das perguntas feitas com cerrada lógica, por meio das quais o interrogante os
leva aos seus últimos redutos" (O livro dos médiuns, item 287).
A orientação para o caso de um
componente de um grupo encontrar-se numa situação dessas, é de que os membros
sejam avisados e fiquem alertas. "Se enérgica resistência o não levar ao
desânimo, a obsessão se tornará mal contagioso, que se manifestará nos médiuns,
pela perturbação da mediunidade, e nos outros pela hostilidade dos sentimentos,
pela perversão do senso moral e pela , turbação da harmonia" (O livro dos médiuns; item 340).
Uma pergunta de Kardec aos espíritos
superiores merece nossa atenção: "Por que permite Deus que pessoas
sinceras e que aceitam o espiritismo de boa-fé sejam mistificadas? Não poderia isto ter o inconveniente
de lhes abalar a crença?" Eis a explicação: "Se isso lhes abalasse a
crença, é que não tinham muito sólida a fé. Os que renunciassem ao espiritismo,
por um simples desapontamento, provariam não o haverem compreendido e não lhe
terem atentado na parte séria. Deus permite as mistificações, para experimentar
a perseverança dos verdadeiros adeptos e punir os que do espiritismo fazem
objeto de divertimento" (O livro dos médiuns, item 303).
A prevenção dessas situações passa
por dois cuidados: a prece sincera e a atenção aos menores sinais da presença
de mistificadores. "O primeiro atrai os bons Espíritos, que só assistem
zelosamente os que os secundam, mediante a confiança em Deus; o outro prova aos
maus que estão lidando com pessoas bastante clarividentes e bastante sensatas,
para se não deixarem ludibriar" (Idem).
Estudar e comparar
Kardec considera todas as
comunicações de espíritos passíveis de nos servirem ao aprendizado. Algumas são
instrutivas em si mesmas. Outras revelam a situação em que os desencarnados que
se encontram, de ignorância ou conhecimento, de paz ou sofrimento moral. Cabe a
nós ter calma e critério, não atribuir veracidade a todos os relatos, mas
compará-los com os conhecimentos adquiridos nos estudos espíritas, para maior
segurança e discernimento.
São orientações específicas de
Kardec e dos espíritos da Codificação, para cada um dos casos
acima. De modo geral, alguns cuidados são essenciais. Por parte do médium, uma
constante e sincera busca de autoconhecimento, erradicando as causas do
autoengano, o orgulho e a vaidade, a fim de que os médiuns não prejudiquem sua
capacidade de serem medianeiros, aproximando-se
de espíritos inferiores, muitos dos quais são levianos, brincalhões ou, mesmo,
mistificadores: "Estudai, comparai, aprofundai. Incessantemente vos
dizemos que o conhecimento da verdade só a esse preço se obtém" (O livro
dos médiuns, item 301).
Médiuns
podem se enganar e podem nos enganar
Há
"falsos perfis", também, no contexto dos encarnados. Há pessoas que
se passam por médiuns e médiuns que divulgam falsas comunicações. O livro dos
médiuns tem um capítulo dedicado aos médiuns interesseiros e às fraudes
espíritas, pois segundo Kardec já afirmou e bem sabemos, "tudo pode virar
objeto de exploração". Há casos em que o médium pretende obter ganhos
financeiros com sua faculdade, enquanto a diretriz espírita é, conforme o
ensinamento cristão, dar de graça o que de graça recebemos. Outras vezes, o
ganho é da vaidade ou vantagens pessoais, o que, em qualquer caso, compromete a
sua produção mediúnica - se for realmente mediúnica - porque as qualidades
morais do médium sempre influenciarão, não apenas as comunicações, mas a
qualidade dos espíritos que dele se aproximam.
Há,
contudo, médiuns que são instrumentos de espíritos enganadores, sem o saberem.
Ou que pensam serem médiuns, quando mais não fazem do que dar vazão às suas
próprias ideias, num processo que ficou conhecido nos meios espíritas como
"animismo". De fato, todo médium tem uma papel ativo na comunicação,
atuando como um intérprete mais ou menos fiel da comunicação do espírito. Mas
pode haver confusão entre o que vem do próprio médium e o que é do espírito
comunicante e é isso que precisamos evitar. A falta de conhecimento da
mediunidade e das leis do mundo espiritual contribui para que uma pessoa nessas
condições permaneça iludida. A humildade, o .estudo sério e metódico e o
autoconhecimento são os melhores antídotos para estes casos.
(A.A.J.)
ARIANE DE ASSIS
JORDÃO é educadora e pesquisadora espírita
Facebook
admite ter mais de 83 milhões
de perfis falsos. Portal IDGNow, postado em 02/08/2012.
me/ekNbq
O livro dos médiuns, de
Allan Kardec. Segunda parte, capítulos XXIV, XXVII e XXVIII.
Fonte:
Jornal Leitura Espírita edição maio/junho 2013