quarta-feira, janeiro 29, 2014
O Potencial filosófico de “O Livro dos Espíritos”
O
Potencial filosófico de “O Livro dos Espíritos”
sábado, 11
de abril de 2009
http://jerrialmeida.blogspot.com.br/2009/04/o-potencial-filosofico-de-o-livro-dos.html
Em 2007,
ano em que O Livro dos Espíritos comemorou o seu sesquicentenário,
naturalmente, eclodiram significativas reflexões sobre o seu conteúdo na
cultura contemporânea. Cento e cinquenta anos podem ser enquadrados,
historicamente, num tempo de curta duração, o que significa que o potencial
filosófico dessa Obra, evidentemente, não esgotou o seu dinamismo essencial.
Nosso propósito, com esse artigo, é refletirmos sobre o conjunto dessa Obra
Primária do Espiritismo, em especial, sobre a contribuição de sua filosofia
para o homem atual.
O Livro
dos Espíritos é a obra fundadora da Doutrina Espírita e, portanto, do que
chamamos de “filosofia espírita”. A rigor, nos meios intelectuais continua se
negando o caráter filosófico dessa Obra codificada por Kardec. Gonzáles
Soriano, em seu ensaio intitulado: “El Espiritismo es la Filosofia”, mesmo sem
ser espírita, assevera que o Espiritismo é: “...a síntese essencial dos
conhecimentos humanos aplicados à investigação da verdade.”[1] Ora, a longa
tradição filosófica do Ocidente, buscou na razão as interpretações que se
julgavam “lógicas” e “aceitáveis”, para explicar o mundo.
A
filosofia, no seu nascedouro, buscou romper com a explicação mitológica da
realidade, muito comum nas sociedades agrárias antigas. Embora, ainda hoje, se
aceitar a definição de Pitágoras, num sentido mais etimológico, de que a
filosofia signifique: “amor à sabedoria”, devemos perceber, num sentido amplo,
que o que existe são “filosofias”, ou seja, concepções diferentes sobre a
realidade. Nos vinte e cinco séculos de tradição filosófica Ocidental os
inúmeros filósofos e suas escolas conceberam filosofias distintas e, muitas,
conflitantes.
Quer se
afirme que a filosofia seja: um conjunto de saberes, uma visão de mundo ou um
modelo explicativo da vida, é importante lembrarmos o pensamento do filósofo
Sexto Empírico, do século II-III, ao afirmar que em toda investigação temos
três resultados possíveis: acreditamos ter encontrado toda a resposta;
acreditamos ser impossível encontrar a resposta, ou continuamos buscando. Para
ele, a filosofia deveria repousar nessa última questão, ou seja, de que o
conhecimento não é algo pronto, acabado, fechado, mas, sobretudo, progressivo.
Nada é sagrado, pois tudo é objeto de crítica e análise.
Allan
Kardec, embora não ter sido propriamente um filósofo, teve a grandeza
intelectual de jamais “fechar” o pensamento espírita em torno de uma “verdade
única” e, filosoficamente, dogmática. Esse é um caráter intrínseco do discurso
filosófico: a liberdade de pensamento, aberto à reflexão e ao progresso das ideias.
O
Espiritismo, na medida em que busca explicar a realidade através da razão e da
lógica, utiliza-se de um discurso filosófico. Todavia, a filosofia espírita,
inaugurada em O Livro dos Espíritos, não traduz uma simples reflexão
intelectual para criar sentidos ou significados, Ao contrário, a filosofia
espírita, é um saber que se justifica com base nos fatos. Ao analisar o
conjunto de sua obra, veremos que Kardec não partiu da “crença”, mas da sólida
pesquisa científica, no campo da mediunidade, para, num segundo momento,
enveredar pelos caminhos da interpretação dos fatos, com base no crivo da
razão. Disso surgiu a filosofia espírita inserida, inicialmente, em O Livro dos
Espíritos.
Para
Marcondes: “A contribuição da filosofia tem sido, portanto, desde o seu
nascimento na Grécia antiga, a interrogação, o questionamento, a pergunta. Para
a filosofia não há nada que não possa ser posto em questão. Deve ser possível
discutir tudo.”[2] Sob esse aspecto, O Livro dos Espíritos, em suas 1019
perguntas ou questionamentos, se afirma no discurso filosófico. Kardec indagou
os espíritos sobre um universo de questões que sempre inquietaram o pensamento
humano: Deus, a alma, a origem da vida, a morte, os problemas sociais e
familiares, a liberdade, o sofrimento, o destino e a felicidade, entre outros.
Dessa forma, a Obra Primeira da Doutrina Espírita avança, no seu modelo
explicativo da vida, por onde outras filosofias se calaram, vítimas dos
preconceitos ou do orgulho de seus formuladores.
Um estudo
atento de O Livro dos Espíritos, evidencia a busca constante de Kardec, por
explicações plausíveis, que possam atender à coerência e ao bom senso. Ele
interroga os espíritos com firmeza, cercado de boa argumentação, mas – ao mesmo
tempo – buscando libertar-se de preconceitos e atavismos culturais de sua
época, muito embora, seria ingenuidade pensar numa “neutralidade absoluta”.
Há,
naturalmente, uma “busca incessante” de conhecimentos e reflexões, iniciadas em
O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não para com ele, nem mesmo o
esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto das Obras
Básicas, um dinamismo inesgotável, uma vez que a experiência da evolução
espiritual vai oportunizando, ao Ser, uma ampliação de seus horizontes
intelectuais.
Portanto,
uma vez estabelecida a base estrutural do conhecimento espírita, em 18 de abril
de 1857, o seu núcleo passa a ser a análise do homem na condição de espírito
imortal e pluriexistencial. Define-se uma ontologia integrando a filosofia
espírita no conjunto da tradição filosófica dualista: pitagórica, socrática,
platônica, entre outras. Mas o espiritismo vai além do dualismo filosófico,
estudando o Ser numa dimensão tríplice: espírito, perispírito e corpo. A partir
dessas informações, buscamos aprimorar instrumentos de investigação que nos
permitam compreender ou desvendar melhor essa realidade espiritual.
As obras
psicografadas por Francisco Cândido Xavier, em especial as de André Luiz,
ofereceram inestimáveis enfoques, descortinando, ainda mais, o conteúdo de O
Livro dos Espíritos. Os estudiosos da Doutrina Espírita, utilizando-se dos
recursos da hermenêutica, empenham esforços para aproximarem-se, o máximo
possível, da essência dos conhecimentos transmitidos pelos espíritos à Kardec.
Não se trata de caminharmos pelo território livre da “opinião”, representada
nos famosos “achismos”, mas nos referimos à análise responsável, fundamentada e
comprometida com a Causa.
Sendo que
o conhecimento espírita é dinâmico, ele não foi dado por completo ou “acabado”,
cabe ao ser humano, à luz da lei do trabalho [3], buscar compreendê-lo sem
deturpá-lo. Interpretar não significa modificar os seus fundamentos. Na
verdade, a “interpretação” é um esforço da inteligência por “encontrar um
sentido escondido”, que não está, necessariamente, claro. Ora, em nossa
condição de espíritos em evolução, não podemos depreender que já esteja tudo
“claro”, em termos de entendimento sobre a vida e seus mecanismos. Logo, a
capacidade de interpretação é inerente ao ser humano.
É preciso
considerar, também, que O Livro dos Espíritos apresenta dois outros componentes
importantes da reflexão filosófica: o diálogo e a dialética. Kardec, em todo o
conjunto da Obra, dialoga com os espíritos através de inúmeros médiuns. Esse
diálogo é uma relação dialética, de um conhecimento que não é uma simples
“revelação” hierarquicamente estabelecida, mas que se opera pela via do debate
e da discussão. A partir de uma pergunta, e de sua resposta, surgem outras
perguntas e outras respostas que, ao longo do trabalho, são sistematicamente
ordenadas.
Essa
relação dialética se processa também no diálogo crítico do leitor com a obra.
Mas é preciso que esse diálogo se distancie das leituras simplistas onde,
muitas vezes, se busca afirmar o conteúdo doutrinário através de posturas
acríticas, influenciadas pela teologia tradicional. Através de sua metodologia,
Kardec nos ensinou, por óbvias razões, a dialogar com a fonte das informações,
os espíritos, de forma racionalista sem, no entanto, perder o viés dos
sentimentos. A racionalidade empregada aos estudos deve servir para que os seus
conteúdos nos levem a um encantamento, no bom sentido do termo, pela vida.
Nesse
momento, entramos num outro aspecto dessa reflexão que, para alguns poderia
parecer óbvio e para outros nem tanto: Qual o dinamismo essencial do conteúdo
de O Livro dos Espíritos? O que a sua filosofia nos oferece, além dos
referenciais já conhecidos? Kardec afirmou que: “... o estudo do Espiritismo é
imenso; interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é um
mundo que se abre diante de nós.” [4] Sabidamente, essa Obra Primeira
oferece-nos uma cosmovisão da vida e sua significação profunda na ordem do
Universo, motivando, a partir disso, uma mudança, no comportamento humano.
Na Introdução
de O Livro dos Espíritos, item XVII, Allan Kardec informa sobre o sentido
pragmático dessa obra: “Esperamos (...) guiar os homens que desejem
esclarecer-se, mostrando-lhes, nestes estudos, um fim grande e sublime: o do
progresso individual e social e o de lhes indicar o caminho que conduz a esse
fim.” Entretanto, Kardec advertiu: “Fora presumir demais da natureza humana
supor que ela possa transformar-se de súbito, por efeito das ideias espíritas.
A ação que estas exercem não é certamente idêntica, nem do mesmo grau em todos
os que as professam. Mas o resultado dessa ação, qualquer que seja, ainda que
extremamente fraco, representa sempre uma melhora.”[5]
Karl Marx
afirmou, por volta de 1845, que: “Os filósofos limitaram-se a interpretar o
mundo de diferentes maneiras; trata-se, agora, de transformá-lo.” Doze anos
após, com o surgimento de O Livro dos Espíritos, temos a proposta de uma
filosofia transformadora e, de certa forma, revolucionária, ao propor uma nova
reflexão sobre os fundamentos da existência de Deus, do Ser, do destino e da
dor. Ao iniciar o seu diálogo com as entidades espirituais, Kardec parte,
justamente de Deus: “Inteligência suprema e a Causa primária de todas as
coisas.” Ora, esse “ponto de partida” recolocava Deus, novamente, no centro do
debate filosófico, não de forma teológica, mas pela força dos argumentos.
Dessa
forma, a filosofia espírita estabelece uma reconciliação entre a fé e a razão,
entre a religião e a ciência. Um dos grandes problemas intelectuais do século
XIX era a validade da fé. Sob essa discussão, Kardec, ao final de um
interessante artigo sobre “A Religião e o Progresso”, enfatiza que: “É pela
concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são trazidos a
Deus.” [6]
O
codificador, ainda referindo-se ao “Espiritismo filosófico”, resume três de
seus efeitos: a) desenvolver o sentimento religioso; b) desenvolver a
resignação nas vicissitudes da vida; c) estimular no homem a indulgência para
com os defeitos alheios. [7] Bem se percebe, por isso, que o conteúdo de O
Livro dos Espíritos não se limita, simplesmente, a produzir um conjunto de
reflexões teóricas ou um novo saber. Seu foco é tornar-se uma filosofia
prática, capaz de contribuir para uma melhora do espírito humano, individual e
coletivamente.
É
compreensível que a elucidação dos problemas da existência e da vida, quer seja
no âmbito individual ou social, permite ao ser humano aproximar-se melhor de
uma compreensão sobre a Justiça Divina e sua Providência. O ateísmo é produto
da ignorância em relação a antigas crenças sobre Deus alimentadas, ao longo do
tempo, pela imaginação humana. Por isso, o Espiritismo nos convida à “fé
raciocinada”, a estudarmos com maior profundidade as Leis Morais que regem e
que orientam a nossa evolução espiritual.
Na medida
em que passamos a compreender e a correlacionar a: Justiça Divina, a
Imortalidade da alma, a reencarnação, o livre-arbítrio e a lei de ação e
reação, passamos, naturalmente, a perceber com maior nitidez os mecanismos
existenciais, a felicidade e os sofrimentos humanos. No centro desse processo
evolutivo está o espírito, ser inteligente da criação que, no corpo ou fora
dele, realiza as suas múltiplas experiências de crescimento ético-moral. Deus é
amor. Ele não nos perdoa porque não se magoa, nem se melindra. A divindade não
se zanga e nem sente ódio, pois esses são qualificativos humanos. Deus, na sua
magnitude, nos “compreende”, oportunizando-nos o exercício pessoal da liberdade
associada às Leis Morais.
Compreendendo
essas estruturas da vida, o ser humano passa a enfrentar melhor, e mais
conscientemente, as vicissitudes, as adversidades, percebendo nelas, de um
lado, o reflexo natural daquilo que ele pode estar semeando e, de outro, os
desafios evolutivos que lhe cumpre enfrentar. Compreende que esses desafios
predispõem, ao indivíduo, o desenvolvimento de forças insuspeitadas,
desconhecidas, que nele estavam latentes. Ao mesmo tempo, o conteúdo exarado em
O Livro dos Espíritos propõe uma filosofia da convivência pautada,
essencialmente, na moral cristã, sob a ótica do Amor. Logo, amar ao próximo é,
também, ser indulgente com suas limitações, uma vez que todos vivemos na órbita
de nossa incompletude.
Sendo a
única obra da codificação totalmente ditada pelos espíritos orientadores, O
Livro dos Espíritos inaugurou, sem nenhum ufanismo, uma nova fase do pensamento
humano. É, sem dúvida, um novo paradigma do conhecimento, possuindo um sólido
alicerce doutrinário, sem se tornar, no entanto, temporalizado, fechado, pois
que acompanha o avançar das novas informações e saberes.
Portanto,
O Livro dos Espíritos veio para ficar! Todo o seu potencial filosófico, como
buscamos refletir até agora, enseja uma revisão do existencialismo e do
materialismo. Seus argumentos são intelectualmente bem fundados, e sua essência
restaura uma visão otimista da vida, situando-a no contexto da evolução
ético-espiritual do homem, ser imortal e pluriexistencial, criado por Deus,
para lograr a plenitude.
NOTAS
[1] Citado
por Herculano Pires. Introdução à Filosofia Espírita. 2ª. ed. São Paulo: FEESP,
1993. P. 20.
[2]
MARCONDES, Danilo. Para que serve a filosofia? (Prefácio) In. Café Philo: As
grandes indagações da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
[3] Kardec
nos oferece o seu próprio depoimento: “Eu precisei mais de um ano de trabalho
para ficar convencido.” In. O Que é o Espiritismo. 32ª. ed. FEB. Cap. 1. Pág.
52. .
[4] O
Livro dos Espíritos. Introdução, item XIII.
[5] Idem.
Conclusão, item VII.
[6]
Revista Espírita, julho 1864 (“A Religião e o progresso”)
[7] O Livro
dos Espíritos. Conclusão, item VII.