quinta-feira, janeiro 23, 2014
O Relógio
O
Relógio
O colégio onde eu estudava, em menina,
costumava encerrar o ano letivo com um espetáculo teatral. Eu adorava aquilo,
porém nunca fora convidada para participar, o que me trazia uma secreta mágoa. Quando
fiz onze anos avisaram-me que, finalmente, ia ter um papel para representar.
Fiquei felicíssima, mas esse estado de espírito durou pouco: escolheram uma
colega minha para o desempenho principal. A mim coube uma ponta, de pouca
importância. Minha decepção foi imensa. Voltei para casa em pranto. Mamãe quis
saber o que se passava e ouviu toda a minha história, entre lágrimas e soluços.
Sem nada dizer ela foi buscar o bonito relógio de bolso de papai e colocou-o em
minhas mãos, dizendo:
- Que é que você está vendo?
- Um relógio de ouro, com mostrador e
ponteiros.
Em seguida, mamãe abriu a parte traseira do
relógio e repetiu a pergunta:
- E agora, o que está vendo?
- Ora, mamãe, aí dentro parece haver
centenas de rodinhas e parafusos.
Mamãe me surpreendia, pois aquilo nada tinha
a ver com o motivo do meu aborrecimento. Entretanto, calmamente ela prosseguiu:
- Este relógio, tão necessário ao seu pai e
tão bonito, seria absolutamente inútil se nele faltasse qualquer parte, mesmo a
mais insignificante das rodinhas ou o menor dos parafusos.
Nós nos entre fitamos e, no seu olhar calmo
e amoroso, eu compreendi sem que ela precisasse dizer mais nada.
Essa pequena lição tem me ajudado muito a
ser mais feliz na vida. Aprendi, com a máquina daquele relógio, quão essenciais
são mesmo os deveres mais ingratos e difíceis, que nos cabem a todos. Não
importa que sejamos o mais ínfimo parafuso ou a mais ignorada rodinha, desde
que o trabalho, em conjunto, seja para o bem de todos.
E percebi, também, que se o esforço tiver
êxito o que menos importa são os aplausos exteriores. O que vale mesmo é a paz
de espírito do dever cumprido...
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