segunda-feira, janeiro 27, 2014
QUARENTA ANOS
QUARENTA
ANOS
Alexandre
Garcia - 15 de outubro de 2013 - 10h12
Meu amigo
Sérgio lembra que em 1971, de traquinagem, quebrou o farol de um carro
estacionado perto da casa dele.
O pai
soube, deu-lhe uma surra de cinta e o traquina nunca mais fez aquilo. Entrou
para a faculdade e hoje é um profissional de sucesso.
Em 2011
seu filho fez o mesmo, Sérgio reprisou a surra que levara, mas seu filho o
denunciou e ele foi condenado à prestação de serviços comunitários.
O filho
caiu na droga e hoje está num abrigo para menores.
Em 1971, o
coleguinha mais moço de Sérgio sofreu uma queda no recreio, a professora
deu-lhe um abraço e o menino voltou a brincar.
Em 2011,
outro menino esfolou-se no pátio da mesma escola, a diretora foi acusada de não
cuidar das crianças, saiu na TV e ela renunciou ao magistério e hoje está
internada, em depressão.
Em 1971,
quando os coleguinhas de Sérgio faziam bagunça na aula, levavam um pito do
professor, eram levados à direção e ainda sofriam castigo em casa. E todos se
formavam prontos para a vida.
Em 2011, a
bagunça em sala de aula faz o professor repreendê-los, mas depois pede
desculpas, porque os pais foram se queixar de maus-tratos à direção. Hoje fazem
bagunça no trânsito e no cinema, incomodando os outros.
Em 1971,
nas férias, todos saíam felizes, enfiados num Fusca. Depois das férias, todos
voltavam a estudar e a trabalhar mais.
Em 2011, a
família vai a Miami, volta deprimida e precisa de 15 dias para voltar à
normalidade na escola e no trabalho.
Em 1971,
quando alguém da família de Sérgio adoecia, ia ao INPS, esperava duas horas,
era atendido, tomava o remédio e ficava bom. Saía a correr, pedalar, subir em
árvores de novo.
Em 2011,
os parentes de Sérgio pagam uma fortuna em planos de saúde, fazem exames de
toda sorte à procura de câncer de pele, pressão nos olhos, placas nas artérias,
glicose, colesterol, mas o que têm é distensão muscular por causa de exageros
na academia.
Em 1971, o
tio preguiçoso de Sérgio foi flagrado fazendo cera no trabalho. Levou uma
reprimenda do chefe na frente de todos e nunca mais relaxou.
Em 2011, o
cunhado de Sérgio foi flagrado jogando xadrez no computador da empresa, o chefe
não gostou e o puniu. O chefe foi acusado de assédio moral, processado, a
empresa multada, o cunhado relapso foi indenizado e o chefe demitido.
Em 1971, o
irmão mais velho de Sérgio deu uma cantada na colega loira de trabalho. Ela
reclamou, fez charminho e aceitou um jantar. Hoje estão casados.
Em 2011,
um primo de Sergio elogiou as pernas da colega de escritório, foi acusado de
assédio sexual, demitido e teve que pagar indenização à mulher das belas
pernas, que acabou no psiquiatra. Meu amigo Sérgio me pergunta o que deu em
nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como
ela é.
Dei a resposta: é a ditadura da hipocrisia
imbecil do politicamente correto.