segunda-feira, fevereiro 17, 2014
Analfabetismo Doutrinário
Analfabetismo Doutrinário
Por Marco Milani
Na obra O
evangelho segundo o espiritismo,
capítulo 17, item 4, Allan Kardec afirma que o verdadeiro espírita pode ser
reconhecido por sua transformação moral e pelo esforço que faz em domar suas
más tendências. Nessa passagem, o codificador sinaliza a aplicação prática dos
aspectos comportamentais esperados do espírita, para o qual os princípios
doutrinários lhe fazem "vibrar as fibras que nos outros permanecem mudas;
em uma palavra: foi tocado no coração, e por isso a sua fé é inabalável".
Assim, o verdadeiro espírita busca se transformar porque conhece a sua
realidade espiritual e consegue compreender as consequências de seus atos
diante de um contexto natural regulado pelas leis divinas.
Nesse sentido, a motivação para o auto aprimoramento é
o conhecimento de si mesmo e das relações naturais presentes no processo
evolutivo do ser, conforme apresentados no corpo teórico espírita. Logo, o
verdadeiro espírita conhece os princípios doutrinários e age coerentemente com
a cosmovisão espírita.
Kardec ainda sinaliza diferentes graus de compreensão
e aplicação dos conceitos espíritas ao se referir àqueles que apenas creem nas
manifestações dos desencarnados e àqueles que, além de crer, vislumbram e
compreendem as consequências diretas e indiretas dessas relações entre os
mundos visível e invisível.
E como se poderia designar os adeptos que se declaram
espíritas, mas demonstram ignorar os princípios e valores doutrinários?
Bastaria se declarar espírita para assim ser reconhecido pelos demais
participantes desse grupo? É uma questão interessante e
que envolve muito cuidado para não ferir suscetibilidades.
Modernamente, existe um conceito utilizado na área educacional para
designar a situação na qual uma pessoa, mesmo possuindo os elementos que a
capacitam a ler e escrever, não consegue interpretar e realizar associações de
ideias expressas em um texto. Tal situação é denominada de analfabetismo
funcional e não está restrita às pessoas com poucos anos formais de estudo. Há
quatro níveis de alfabetismo, desde o nulo (analfabeto) até o grau pleno
(alfabetizado sem restrições).
Conforme o Instituto Paulo Montenegro — IPM, vem aumentando a quantidade
de brasileiros que não sabem ler e escrever plenamente. Em 2012, cerca de 65%
das pessoas que completaram o ensino médio e 38% dos universitários eram
alfabetizadas com restrições, ou seja, apresentavam dificuldades na plena
interpretação escrita e associações de ideias e conceitos. Em 2002, esses dados
eram de 51% e 24%, respectivamente. Ora, se essa é uma situação gravíssima
detectada na sociedade brasileira, inclusive em cursos superiores, por que ela
também não poderia se reproduzir no movimento espírita?
Analogamente a uma pessoa supostamente alfabetizada que não consegue
compreender adequadamente um texto, pode-se aplicar esse mesmo conceito a um
adepto do espiritismo que não consegue compreender plenamente os princípios e
valores doutrinários. E possível conceber, portanto, uma situação de
analfabetismo funcional doutrinário em diferentes graus.
Não se pode esconder ou fingir que esse contexto não existe, sob o falso
discurso da caridade, pois que esta não é caracterizada pela omissão, mas pela
ação construtiva. É a identificação dos pontos frágeis a serem melhorados e a
discussão séria voltada ao fortalecimento da compreensão doutrinária que
favorecerão a formulação de propostas educacionais eficazes para as casas
espíritas.
Será que, com um índice de analfabetismo funcional tão expressivo, a
simples disseminação de programas padronizados de ensino doutrinário voltado
para um público plenamente alfabetizado e para todas as regiões do país é
pertinente? Como identificar e ajudar o analfabeto funcional a compreender os
fundamentos do espiritismo? Será que muitos analfabetos doutrinários estão
assumindo a tribuna para divulgar o espiritismo? São questões a serem
respondidas com ponderação.
O Ministério da Educação do Brasil e muitas instituições de ensino
possuem profissionais debruçados sobre o problema do analfabetismo funcional e
existem algumas propostas para a respectiva solução, mas todas elas passam pela
melhoria do ensino de base, ou seja, foca-se nas novas gerações e não na atual.
Fica a sugestão para todos os dirigentes das casas espíritas e das entidades
federativas para refletirem sobre como essa questão influencia a divulgação e a
compreensão dos princípios doutrinários ao público adulto. Incentivemos o
desenvolvimento de verdadeiros espíritas e não de aparentes adeptos.
* Economista e professor universitário. Diretor do
Departamento do Livro da USE Regional SP
Fonte: www.correiofraterno.com.br