sábado, abril 26, 2014
Por que terceirizamos nossas responsabilidades? UMBERTO FABBRI
Por UMBERTO FABBRI
Quantas lutas entre o bem e o mal!
Um defendendo a felicidade do homem e outro tentando
desviá-lo de sua senda de viver como filho de Deus.
Com o entendimento primário em relação aos aspectos
antagônicos do bem e do mal, a impressão que o homem mantinha como verdadeira
era de que ambos os sentimentos encontravam-se fora de sua realidade íntima.
Tanto é que criamos figuras tenebrosas para representar o mal. Algumas meio
homem e meio animal, que na tentativa de nos seduzir faziam-nos de joguetes
quando caíamos em suas fantasiosas garras.
Pela lei divina, porém, por ser dotado de
potencialidades para o bem, o homem, de forma intuitiva, não podia admitir que
tivesse dentro de si algo que pudesse ser contrário àquilo que é da sua própria
natureza. Afinal, como criaturas, somos filhos de Deus, herdando na
relatividade os atributos do Criador. Logo, seria inadmissível termos atitudes
contrárias à nossa essência, pois se o ser em si é bom, não poderia equivocar-se
e praticar o mal. Foi por conta dessa postura, talvez, que resolvemos
terceirizar as nossas responsabilidades.
O demônio, ou Lúcifer, Satanás e tantas outras
definições ainda são utilizadas por uma boa parcela da humanidade para justificar o mal. sendo o terceiro' responsável que busca
incansavelmente tirar as criaturas do bom caminho, para se realizar com a
infelicidade delas.
Chegou-se mesmo a admitir-se que o Criador disputava
poder com o demônio, criatura aliás que só poderia ter sido criada por Ele como
alguém infeliz desgarrado de seu rebanho, um verdadeiro anjo decaído. Ora, Deus
sendo único e perfeito lutaria contra o demônio, que passou a ter status de
divindade e poder semelhante ou igual a Ele.
Quando mais experientes e conscientes em relação aos
enganos dessa natureza, entendemos que essas figuras folclóricas serviram para
uma época, ou ainda servem para parte da população do planeta em função de sua
insistência em terceirizar o mal, hábito de muitos, traduzido em desculpismos
infantis. São famosas as justificativas, que vivo; costumo agir dessa forma
porque todo mundo age assim; cansei de ser bom; vivo dessa maneira por
responsabilidade dos outros...
E a velha fuga, porta fácil da irresponsabilidade que
aos poucos foi criando insensatos, os cegos que não querem ver, conforme o
alerta de Jesus.
Na realidade, é a ignorância ao direito do outro que
produz o mal dentro de nós mesmos e se espalha no coletivo. O egoísmo é a mola
propulsora que faz e mantém aberta as nossas feridas, às quais por nossos
interesses mesquinhos acabamos por não permitir a devida e natural
cicatrização.
Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier,
ensina com sabedoria a respeito do bem e do mal, simplificando para o nosso
entendimento e desmontando as estruturas viciosas da transferência para o
outro. Diz ele "o bem é quando é bom para mim e para os outros e o mal,
quando é bom só para mim."
Fica assim evidenciado que o cultivo do egoísmo, em
detrimento do direito e felicidade de nossos semelhantes, mesmo que trazendo
ilusoriamente nossa felicidade, é a representação do mal.
Por isso, a enfermidade nos acompanha há tanto tempo.
Somos enfermos de nós mesmos, porque nos viciamos em nós e não transpusemos as
barreiras para o relacionamento fraterno com o outro. Vivendo com
justificativas para o comportamento ególatra, permitimos que as diferenças se
acentuassem, em torno da etnia, credo, cor, posição social, entre outras.
É preciso que trabalhemos nossos pontos de vista em
relação não somente ao outro, mas principalmente a nosso respeito, dentro da
lição clara de Jesus de que deveríamos fazer a ele aquilo que gostaríamos dele
receber.
Dessa forma, as mudanças para melhor que aguardamos em
nossa presente morada deixam de ser responsabilidades alheias e passam a ser
assumidas por nós, na exata conscientização de nossos compromissos conosco e
com o semelhante.
Profissional de marketing, Umberto é orador e escritor
brasileiro morando atualmente na Flórida, E.U.A.
Fonte: Correio Fraterno março/abril 2014