sábado, abril 26, 2014
Somos marionetes de nós mesmos? ELIANA HADDAD
Por ELIANA HADDAD
O livre-arbítrio só existe antes de encarnarmos,
quando escolhemos o gênero de provas por que temos que passar? Se é assim,
então somos marionetes de nós mesmos?
Paula Pessoa. Santarém, PA.
A questão do livre-arbítrio merece especial atenção
para não ser mal interpretada. Nela está uma chave importante para se
compreender a visão espírita da vida.
Explica a doutrina espírita que o homem é livre para
escolher e para desistir de suas escolhas, mas o exercício dessa liberdade
estará sempre condicionado à sua evolução moral. Assim, podemos fazer as nossas
escolhas, mas também cabe a nós realizá-las ou não. E isso não implica
castigos, porque a justiça divina é misericordiosa, dando-nos novas
oportunidades, até que consigamos ficar em paz com a nossa consciência,
quitando débitos contraídos ou realizando novas tarefas no Bem.
Conforme o espírito vai progredindo, vai passando por
experiências, como encarnado e desencarnado, e aprendendo paulatinamente a
agir, pensar, conhecer, a amar e também a escolher melhor, pois seu conceito de
felicidade também se transforma. Ter uma encarnação feliz não é ter tudo de
bom, mas conseguir realizar o que é necessário, e muitas vezes isso exige
sacrifícios, superações, por não ser o 'necessário' tudo o que queremos. Muitas
vezes, diante das provas, nos perguntamos "como fui escolher isso?",
esquecendo-nos de que nossa vida é resultado das nossas próprias ações,
pretéritas e presentes, e que a nossa colheita é sempre submetida à lei do
amor.
Assim, quanto mais nos esforçamos e nos dedicamos ao
Bem, mais vamos abatendo nossas ações negativas, sendo o nosso esforço no
cumprimento da lei divina também levado em conta, porque nossa consciência sabe
do que fomos e somos capazes de realizar na exata medida das nossas
possibilidades.
Allan Kardec diz que o homem não é fatalmente levado
ao mal; os atos que pratica não foram previamente determinados; os crimes que
comete não resultam de uma sentença do destino. “Ele pode escolher uma
existência em que seja arrastado ao crime (...) pelas circunstâncias que
sobrevenham, mas será sempre livre de agir ou não agir. Assim, o livre-arbítrio
existe para ele, quando no estado de espírito [desencarnado], ao fazer a
escolha da existência e das provas e, como encarnado, na faculdade de ceder ou
de resistir aos arrastamentos a que todos nos temos voluntariamente submetido.”
Ressalta a doutrina dos espíritos também que devemos
combater nossas más tendências, através de uma educação que se baseie no estudo
aprofundado da natureza moral do homem. Como o progresso não dá saltos, a
justiça divina respeita a nossa dificuldade e dispõe de um mecanismo de amor e
aprendizado para nos auxiliar que muitas vezes não compreendemos: a
reencarnação. Como oportunidades de novas realizações, com elas, tantas quantas
nos forem necessárias, ainda temos o esquecimento do passado. E é nos
relacionamentos, nas condições da vida atual, que vamos lapidando a nossa pedra
bruta, esforçando-nos nos embates do dia a dia para atingirmos esse progresso,
que é inexorável, porque fomos criados por Deus para sermos felizes. "Sois
deuses, sois luzes", disse Jesus.
Pela nossa imperfeição ainda e maior apego ao lado
material da vida, não entendemos o que seja realmente felicidade para o
espírito, confundindo essas oportunidades benditas de aprendizado como
castigos, nos rebelando diante do remédio amargo elaborado por nós mesmos,
feito sob medida para alcançarmos a paz das nossas consciências. Assim, a vida
nos trata, e não nos maltrata como muitas vezes imaginamos. Podemos modificar,
portanto, os nossos destinos todos os dias e, por maiores que sejam as nossas
dificuldades e os nossos conflitos, nossa finalidade será sempre crescer,
superar, evoluir. Dessa forma, vamos aprendendo a escolher e a decidir. "O
espírito procede à escolha de suas futuras existências corporais, de acordo com
o grau de perfeição a que haja chegado, e é nisso que consiste sobretudo o seu
livre-arbítrio", explica a doutrina.
Os espíritos nos esclarecem que não há fatalidade.
"Se assim fosse, o homem seria qual máquina sem vontade" e "de
que lhe serviria a inteligência, desde que houvesse de estar invariavelmente
dominado, em todos os seus atos, pela força do destino? Seria a destruição de
toda liberdade moral; já não haveria para o homem responsabilidade, nem, por
conseguinte, bem, nem mal, crimes ou virtudes". A fatalidade, porém,
segundo eles, não é uma 'palavra vã'. Ela existe na posição que o homem ocupa
na Terra e nas funções que aí desempenha, em consequência do gênero de vida que
escolheu como prova, expiação ou missão. "Ele sofre fatalmente todas as
vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são
inerentes. Aí, porém, acaba a fatalidade, pois da sua vontade depende ceder ou
não a essas tendências".
Allan Kardec. O livro dos Espíritos, questão: 872
Fonte: Correio Fraterno março/abril 2014