sábado, abril 26, 2014
Universidade investiga o método de Kardec ELIANA HADDAD
Universidade
investiga o método de Kardec
Por ELIANA
HADDAD
O
interesse que moveu Allan Kardec em seus estudos sobre a existência do mundo
dos espíritos e suas relações não teve inicialmente o objetivo de desacreditar
a ciência, mas de alertar os materialistas para o fato de que havia algo mais
que ela não estava considerando, por falta de observado e pesquisa adequada.
Cerca de
160 anos depois, a metodologia para a investigação dos fenômenos mediúnicos é
tema de pesquisa realizada na Universidade Federal de Juiz de Fora, MG e revela
a importância do assunto, que toca em um dos pontos mais debatidos entre os céticos,
que não consideram o espiritismo ciência, por não entenderem o método
desenvolvido por Kardec para obter informações sobre a dimensão espiritual do
universo. Para realizar a pesquisa, além de analisar toda a obra publicada pelo
codificador, o historiador Marcelo Pimentel teve acesso a documentos originais
inéditos de Kardec.
Marcelo
Pimentel: Investigações que preenchem lacunas da história da ciência e da
medicina.
Uma defesa
de mestrado realizada em 25 de fevereiro pelo historiador Marcelo Guião Pimentel
levou para o Programa de Pós-Graduação em Saúde Brasileira da Universidade
Federal de Juiz de Fora, MG, um tema de interesse para espíritas e não
espíritas, ao apresentar na academia o método utilizado por Allan Kardec para a
investigação dos fenômenos mediúnicos.
A questão
é de suma importância, porque toca em um dos pontos mais debatidos pelos
céticos e pelos cientistas materialistas que não consideram o espiritismo
ciência, muitas vezes pela falta de estudo e entendimento do método que Kardec
buscou desenvolver para obter informações úteis e confiáveis sobre a dimensão
espiritual do universo. A tese teve orientação do professor Dr. Alexander
Moreira-Almeida e co-orientação do professor Dr. Klaus Chaves Alberto,
respectivamente, coordenador geral e coordenador da área de ciências humanas do
Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, que funciona na mesma
universidade desde 2006. Participaram da banca examinadora o professor Dr.
Silvio Seno Chibeni, da Universidade Estadual de Campinas, e o professor Dr.
Gustavo Arja Castañon, da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Marcelo
Pimentel concentrou sua pesquisa na leitura e análise de toda obra publicada
por Kardec: seus livros e os doze volumes da Revue Spirite: Journal d'Études
Psychologiques. Foram também obtidos e analisados documentos originais inéditos
de Kardec, em viagem de pesquisa por um mês na França com o financiamento da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais.
Como você
analisa a importância de Kardec como pesquisador?
Marcelo
Guião Pimentel: Allan Kardec foi importante, porque desenvolveu pesquisas
pioneiras sobre os fenômenos mediúnicos. Ele propôs uma abordagem abrangente
das manifestações mediúnicas que ocorriam na metade do século 19. Kardec buscou
analisar as principais teorias a respeito do tema e concluiu que a hipótese da
existência dos espíritos era aquela que melhor explicava o conjunto dos
fenômenos observados.
Em que o
método de Kardec se diferencia?
Kardec foi
além dos demais pesquisadores, utilizando os médiuns como modo de acesso direto
a dados empíricos a respeito do mundo espiritual. Para ele, o mundo relatado
pelos espíritos não era metafísico, e sim uma parte do mundo natural ainda
pouco explorado. Em diversas passagens da obra de Kardec podemos vê-lo comparando
o mundo espiritual com o mundo microscópio. Algumas vezes ele fazia a analogia
do médium como um microscópio do mundo espiritual. Kardec também se
diferenciava pela busca ativa por informações a respeito dos princípios que
integraram o espiritismo. Ele procurava ampliar sua base de dados empíricos
utilizando diversos médiuns, muitas vezes desconhecidos uns dos outros.
Enfatizava a descrição e a interpretação do conteúdo das mensagens obtidas
durante o transe mediúnico, comparando semelhanças e diferenças entre elas em
busca de informações úteis que pudessem integrar sua teoria. Kardec dava uma
grande ênfase na análise do conteúdo das informações, sendo menos relevante a
autoria das mensagens. No decorrer de sua pesquisa, contou com um número cada
vez maior de correspondentes que foi de grande importância para a multiplicação
dos relatos mediúnicos com os quais ele criou, desenvolveu e reformulou os seus
princípios acerca do mundo espiritual. A Revista Espírita foi um espaço
destacado de debates com os seus correspondentes, contribuindo para o
amadurecimento das ideias a respeito do espiritismo. Pesquisador ativo, Kardec
também se utilizava de casos históricos acerca dos fenômenos mediúnicos e
também de pesquisas de campo, visitando médiuns e locais onde as manifestações
espirituais se davam. Do conjunto de informações obtidas, ele desenvolveu a
teoria espírita.
Quais as
contribuições que uma melhor compreensão da metodologia do espiritismo pode
trazer à ciência?
Pode
contribuir para o debate acadêmico acerca dos fenômenos anômalos que envolvem
experiências conhecidas como espirituais, psíquicas ou mediúnicas.
Investigações históricas não só do método de Allan Kardec, mas também de outros
pesquisadores que conduziram pesquisas sobre o tema poderiam retomar teorias e
metodologias fomentadoras de novas abordagens empíricas, bem como tornar mais
bem conhecida uma longa tradição de investigações no campo da mediunidade. No
nosso grupo temos um doutorando, Alexandre Sech Júnior, que está investigando
outro pioneiro, William James.
Há um
crescente interesse no meio acadêmico sobre as relações entre espiritualidade e
ciência. Por quê?
Cada vez
mais têm surgido em diversas partes do mundo estudos sobre os impactos
positivos da espiritualidade na saúde do ser humano e as suas implicações em
diversos ramos da sociedade.
Em sua
dissertação, você defende o caráter progressivo da pesquisa de Kardec. Por que
isso aconteceu?
Kardec via
o espiritismo como uma ciência, portanto passível de ser aprimorada e
modificada. Em um primeiro momento, contava com um número restrito de médiuns
(cerca de dez), contudo, à medida que esse número foi ampliado, devido à
repercussão de sua obra em diversas regiões do mundo, ele passou a recolher uma
base maior de dados, o que permitiu o aprofundamento de aspectos de sua teoria.
E o que se pode perceber com a leitura do 'Ensaio teórico das sensações dos
espíritos', publicado na segunda edição de O livro dos espíritos. O ensaio é
resultado de uma pesquisa que pode ser acompanhada desde a primeira edição de O
livro dos espíritos, passando pelas edições da Revista Espírita de 1858 até o
mês de dezembro, quando Kardec publica o artigo 'Sensações dos espíritos' em
que apresenta suas primeiras conclusões sobre o tema. Este artigo ainda recebe
algumas modificações baseadas na análise das informações dadas pelos médiuns
entre 1859 e 1860 até a sua publicação na segunda edição de O livro dos
espíritos, em 1860.
Você
acredita ser necessário retomar os estudos sobre os aspectos históricos e
filosóficos das pesquisas científicas sobre as relações entre espiritualidade e
saúde?
Sim. Os
estudos atuais nesse campo têm tido uma grande repercussão no meio acadêmico e
na sociedade em geral. Contudo, pouco se sabe sobre a história dessas
pesquisas. Estudos que busquem investigar suas tradições podem fortalecer essa
área academicamente e fomentar novos trabalhos.
E na área
da metodologia científica? Isso poderia provocar uma revisão de teorias?
Como
historiador, é difícil medir o impacto desse estudo na área de metodologia
científica. Em seus aspectos históricos, acredito que sim. Apesar da
repercussão que o espiritismo teve entre pesquisadores renomados da Europa na
segunda metade do século 19, e na história da saúde mental no Brasil, o método
de Allan Kardec é pouco conhecido. Acredito que com mais discussões e estudos
acadêmicos sobre Kardec e seu método de investigação a academia possa inseri-lo
como um dos pioneiros das pesquisas psíquicas, em especial, da mediunidade. O
espiritismo não foi suficientemente explorado em seu aspecto metodológico de
investigação. Além disso, Kardec não buscou apresentar seus estudos sobre
espiritismo no ambiente acadêmico.
Por que
Kardec afirmava que o espiritismo não poderia ser enquadrado no mesmo ramo das
ciências tradicionais, como a química e a física, mas sim como uma nova
ciência?
Kardec
oferece diferentes definições do espiritismo enquanto ciência ao longo de sua
obra. Uma das mais citadas está na obra “O que é o espiritismo?” em que ele
definiu o espiritismo como "uma ciência que trata da natureza, origem e
destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal".
Parece-nos que a principal razão para ele não enquadrar o espiritismo entre as
ciências tradicionais diz respeito à delimitação de seu objeto de estudo.
Enquanto a física e a química têm como base a investigação da matéria, o
espiritismo investiga o ser pensante, o espírito. Além disso, para Kardec, o método
quantitativo e os experimentos laboratoriais praticados por essas modalidades
científicas não seriam adequadas para a investigação dos fenômenos inteligentes
gerados pelo espírito.
O
espiritismo continua um 'grande desconhecido', como já observara J. Herculano
Pires?
Acredito
que falta uma leitura mais criteriosa e aprofundada da obra de Allan Kardec,
notadamente em seu aspecto metodológico. Principalmente o conhecimento que pode
ser obtido a partir da leitura da Revista Espírita.
Você
defendeu que a análise do conteúdo da Revista Espírita pode revelar importantes
aspectos da construção teórica e metodológica do espiritismo. Pode dar um
exemplo?
Um bom
exemplo é o da evolução do entendimento sobre a possessão. No começo, Kardec
nega a possibilidade da possessão, como está expresso em O livro dos médiuns
(1861). Contudo, no livro A gênese, de 1868, ele admitiu a existência da
possessão para alguns casos de obsessão. O processo de convencimento de Kardec
só pode ser observado na Revista Espírita. Em março de 1862, ele tomou
conhecimento de uma série de fenômenos mediúnicos chamados pela imprensa de 'Os
possessos de Morzine'. Durante um ano, Kardec publicou uma ampla pesquisa sobre
o evento, totalizando seis artigos, onde afirmava ter evocado espíritos por diferentes
médiuns, promovendo entrevistas sobre o tema; promoveu estudos do tema com os
membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas; analisou casos
semelhantes registrados na história; comparou com fenômenos semelhantes
enviados por seus correspondentes de diferentes lugares; analisou artigos
publicados pela imprensa sobre a possessão em Morzine; leu diversos relatórios
oficiais e acadêmicos sobre a epidemia de possessão; observou casos de
possessão em várias localidades e realizou uma viagem de campo a Morzine para
avaliar os casos de possessão. Por fim, os dados analisados contribuíram para
que ele, em dezembro de 1863, se convencesse da possibilidade da possessão.
O que você
descobriu de novo e como esse material foi utilizado em seu trabalho?
Durante o
mês que estivemos na França, tivemos a oportunidade de conversar com diversos
pesquisadores acadêmicos, como Marion Aubrée, Guillaume Cuchet e Renaud Evrárd,
bem como pesquisadores e estudiosos da história do espiritismo, como Charles
Kempf, Jérémie Philippe e Pierre Etienne. Visitamos diversos arquivos públicos
e bibliotecas francesas em busca de fontes históricas sobre a vida de Allan
Kardec e sobre o espiritismo entre 1857 e 1869. Com a valiosa ajuda de Charles
Kempf, visitamos os arquivos da Union Spirite Française et Francophone em
Tours, na França, e conseguimos coletar diversas cartas, diplomas e outros
documentos que serviram de fontes de informação para a conhecermos melhor a
vida de Hippolyte Rivail, onde foi possível constatar a sua vasta erudição como
professor, escritor e membro de diversas sociedades científicas. Também
conseguimos acesso a algumas cartas do Kardec aparentemente nunca publicadas.
Ainda estamos analisando o conteúdo dessas cartas e pretendemos apresentá-las
juntamente com a sua análise em um trabalho futuro.
Qual o
papel de Kardec, na vinda do Consolador Prometido, com relação à equipe do
Espírito da Verdade?
Kardec foi
muito mais que um compilador ou secretário dos espíritos na constituição do
espiritismo. Ele foi um pesquisador ativo em busca das informações que
permitiram que ele constituísse a sua obra. Kardec afirmava que o espiritismo
seria o trabalho de uma dupla revelação: a divina ou espiritual, por ter sido a
partir das informações dos espíritos que ele teria realizado sua obra, mas
também pela revelação científica, onde o seu papel como pesquisador foi
fundamental na elaboração dos princípios que compõem o espiritismo.
Veja mais
sobre o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde e acesse os documentos
inéditos de Kardec em www.correiofratemo.com.br
Fonte:
Correio Fraterno março/abril 2014