domingo, agosto 24, 2014
Enxoval de bebê
Enxoval de
bebê
Por: Jader
Sampaio – Psicólogo, professor do Departamento de Psicologia (UFMG)e doutor em
Administração. Além de escritor, Jáder também coordena o blog:
Espiritismocomentado.blogspot.com.br
A ACS
chegou meio tímida. ACS é a sigla que o pessoal da saúde municipal usa para
designar os agentes comunitários de saúde, profissionais que visitam as
famílias de uma região para promover ações, acompanhar as famílias, identificar
problemas que possam prejudicar a saúde e muitas coisas mais.
—Doutora
Ana, fiquei sabendo que a senhora tem como conseguir um enxoval, falou a agente
meio tímida.
Na
verdade, a informação não devia ser bem essa. Ela deve ter sabido que a doutora
era espírita, e todo mundo na comunidade sabe que os espíritas costumam fazer
algumas ações de apoio emergencial à pobreza, para o desgosto dos supostamente
politizados, desejosos de soluções permanentes e insensíveis aos problemas
emergenciais.
—Consigo
sim, o que aconteceu?
—Sabe
doutora, é uma família com uma adolescente da comunidade, que acabou de ter um
neném. O pai é da mesma idade e não trabalha. A família depende do salário da
avó, que não dá para fazer muita coisa, além de pôr comida em casa. O neném
está enrolado em uns panos porque não tem nada...
A história
é antiga. As figuras masculinas são negativas, vistas como um mal necessário.
As famílias nucleares se dissolvem, a mãe fica com a responsabilidade de cuidar
dos filhos, se tiver sorte, com algum apoio dos parentes. Com a ausência de
casa, para trabalhar, os filhos crescem, às vezes, no sistema dos mais velhos
cuidarem dos mais novos, especialmente se não existe creche e a escola atende
apenas meio período.
—Mas, se
não der, não tem problema, eu procuro a doutora sicrana.
A doutora
sicrana também era espírita, sua principal credencial para conseguir o
desejado.
—Claro que
consigo. Vou conversar com uns amigos e vejo o que posso fazer.
Os amigos
também são espíritas. Mantêm a tradição de encontrarem-se uma vez por mês para
montar os enxovaizinhos. E uma herança de família, tarefa que os pais faziam
com o apoio de amigos e que foi perpetuada pelos filhos, após duas desencarnações
inesperadas e relativamente rápidas. "Foram-se os anéis, ficaram-se os
dedos."
—Mara,
você me consegue um enxovalzinho? Falou ao telefone. Estou com uma família
precisando com urgência.
—Claro,
Ana, você consegue buscar aqui no trabalho do Ademir?
—Dou um
jeito!
O jeito
foi familiar. Nem pensar em usar a estrutura do município para fazer o trabalho
que deveria ser obrigação do Estado. O sobrinho da médica foi acionado e
colaborou com a empreitada.
O belo
discurso repetido nas reuniões com a comunidade, quando os ACS foram criados,
ainda ressoa em minha memória: Saúde não é só remédio, não é só médico, saúde é
também a casa em que moramos, as condições de vida, e é necessário cuidar
dessas coisas também, falar delas... Acho que as pessoas descobriram que não
adianta voz e consciência, se do outro lado a burocracia continua inoperante.
Tem horas que dá tristeza de ver o quão pouco um assistente social pode fazer
em um posto de saúde.
O
enxovalzinho chegou, mercê do sobrinho, da amiga e da espírita. Veio dentro de
um grande saco plástico transparente, com um monte de coisas bonitas. Uma
caneca, mamadeiras, roupas, fraldas, colhe- rinhas, bicos (para a tristeza de
alguns dentistas). O leitor deve ser capaz de imaginar um pratinho fundo, todo
colorido, feito de material sintético, mas estampado com bom gosto. Algo tão
lindo que eu amaria ter recebido para minhas filhas.
—Não dá
para resolver o problema, mas já é alguma coisa - falou a doutora Ana, que,
pediatra, sabia que iria receber o menino, talvez trazido pela avó, para fazer
a puericultura, a vacinação, e os exames diversos, rezando para que a família
consiga seguir as orientações de promoção de saúde.
Mara
explicou:
—Tem
coisas que eu nem sei ao certo de onde vêm. São muitas pessoas envolvidas nesta
singela atividade.
Recordei
do meu centro espírita, quando nas manhãs de sábado recebíamos as gestantes,
quase todas muito novas, de ventre volumoso e expressão de curiosidade, para
fazer o 'curso'. Médicos, enfermeiros, psicólogos e muitos outros profissionais,
além de outros voluntários sem formação na área de saúde, ofereciam um café da
manhã, fumegante, nas canecas de plástico azul, com um pãozinho recheado, às
vezes com margarina, às vezes com um delicioso doce de banana. Tomávamos café
com leite juntos, e depois todas iam para a sala de aula, discutir o sentido de
ser mãe, os cuidados com os filhos, planejamento familiar e muitas outras
coisas de interesse. Talvez elas jamais conseguissem aprender no sistema de
saúde ou com as pessoas mais experientes da família.
Ainda há
rincões da grande capital mineira em que o Estado não chega, a família não
consegue, mas a caridade e a solidariedade podem mitigar e humanizar o que
tentam nos ocultar com números. O convite de Caritas em O evangelho segundo o
espiritismo continua relevante.
Fonte:
Correio Fraterno - julho/gosto 2014