sábado, agosto 16, 2014
Ideologia partidária x Doutrina dos Espíritos
Ideologia
partidária x Doutrina dos Espíritos
O legado
da tolerância doutrinária não se deve manifestar na forma de omissão diante das
enxertias conceituais e ideias anômalas que alguns companheiros intentam impor
nas instituições doutrinárias em nome da militância política. Principalmente
nas proximidades das disputas para eleições político-partidárias, em que surgem
aqui e acolá discussões sobre se o espírita deve ou não candidatar-se a algum
cargo eletivo.
Em
verdade, a Doutrina dos Espíritos não estimula o engajamento para funções nas
estruturas político-partidárias. E não ajusta sua tribuna a serviço da
propaganda partidária de quaisquer candidatos. A tarefa urgente do espírita é a
transformação de comportamento individual, a luta pelo ideal do bem, em nome do
Evangelho. Agindo assim, os espíritas não estão alheios às questões políticas;
engana-se quem pensa o contrário. Os espíritas incorruptíveis, fiéis à família,
à sociedade e aos compromissos morais, são, integralmente, cidadãos ativos, que
exercem o direito e/ou obrigação (depende do ponto de vista) de votar; porém,
sem vínculos com as absurdas contendas ideológico-partidárias.
Se algum
confrade estiver vinculado a qualquer partido político, se deseja concorrer
como candidato a cargo eletivo, obviamente tem total liberdade de fazê-lo, mas
que atue bem longe dos ambientes espíritas, de modo que não camufle, dentro da
Instituição Espírita, disfarçada intenção, visando conquistar votos dos
frequentadores. O excesso de cautela nesse caso é recomendável; não é questão
de preconceitos; é até uma questão de lógica, pois, em se discutindo assuntos
da política humana, é inadmissível trazer, para as hostes espíritas, o
partidarismo, a ideologia (de “direita”, “esquerda”, “centro”, “ambas” etc.
etc. etc.). Conquanto, como cidadão, cada espírita tenha o direito e o
livre-arbítrio para militar no universo fragmentado das ideologias
político-partidárias, não tem o direito de confundir as coisas. Não esqueçamos
que o Espiritismo não é um fragmento da política mundana, nem tampouco se envolve com grupos políticos
sectários, que utilizam meios contraditórios com os fins de poder.
Como
vimos, por razões óbvias, repetimos, é imperioso distinguir o interesse de
valor inócuo da política humana da excelsa política de Jesus – a “Verdadeira
luz que alumia a todo homem”(1). Quando trabalhamos pela erradicação da miséria
e da exclusão social, estamos adotando a política “d’Aquele que é desde o
princípio”(2). A política do verdadeiro espírita é a favor do ser humano e de
seu crescimento espiritual. O espírita consciente não se submete nem se omite
diante do poder político, e nem tampouco assume o lugar de “oposição” ou de
“situação”. Até porque "o discípulo sincero do Evangelho não necessita
respirar o clima da política administrativa do mundo para cumprir o ministério
que lhe é cometido. O Governador da Terra, entre nós, para atender aos
objetivos da política do amor, representou, antes de tudo, os interesses de
Deus junto do coração humano, sem necessidade de portarias e decretos,
respeitáveis embora"(3).
Bezerra e
Eurípedes
O primeiro
capítulo do Estatuto da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas estabelece a
seguinte PROIBIÇÃO (isso mesmo, PROIBIÇÃO!): “AS QUESTÕES POLÍTICAS, DE
CONTROVÉRSIA RELIGIOSA E DE ECONOMIA SOCIAL NELA [S.P.E.E.] SÃO INTERDITAS”.
Portanto, e por imparcial razão, é inaceitável alguém utilizar a tribuna
espírita para propaganda político-partidária. Da mesma forma, é situação deprimente
um espírita utilizar palanques eleitoreiros a fim de implorar votos, valendo-se
demagogicamente de sofismas e simulacros de “modéstia”, “pobreza”, “humildade”,
“altruísmo”, “tolerância”, exaltando suas inigualáveis “virtudes” e colossais
obras de “caridade”. Aconselhamos a tais imponderados "espíritas”,
mendicantes de votos, que se afastem do Espiritismo e optem por outro credo, a
fim de que seja assegurado ao movimento espírita a não contaminação dessa
infecciosa política reles e mesquinha de interesses pessoais.
Alguns
defensores da politização nas casas espíritas evocam Bezerra de Menezes e
Eurípedes Barsanulfo a fim de justificarem seus arrazoados. A carreira política
de Bezerra de Menezes iniciou-se em 1861, quando foi eleito vereador municipal
pelo Partido Liberal. Foi reeleito para o período 1864-1868 e elegeu-se
Deputado Geral em 1867. Novamente foi eleito vereador em 1873. Ocupou o cargo
de presidente da Câmara, que atualmente corresponde ao de prefeito do Rio de
Janeiro, de julho de 1878 a janeiro de 1881. Nessa época, a intensificação da
luta abolicionista teve a adesão de Bezerra, que usou de extrema prudência no
trato do assunto. Entretanto, no dia 16 de agosto de 1886, o público de duas
mil pessoas que lotava a sala de honra da Guarda Velha, no Rio de Janeiro,
ouviu, silencioso e atônito, o famoso médico e político anunciar sua conversão
ao Espiritismo. A partir daí, não se envolveu com o partidarismo político.
Quanto a
Eurípedes Barsanulfo, foi respeitável representante político de sua comunidade,
sem dúvida. Tornou-se secretário da Irmandade de São Vicente de Paula, tendo
participado ativamente da fundação do jornal "Gazeta de Sacramento" e
do "Liceu Sacramentano". Logo viu-se guindado à posição natural de
líder, por sua segura orientação quanto aos verdadeiros valores da vida.
Através de informações prestadas por um dos seus tios, tomou conhecimento da
existência dos fenômenos espíritas e das obras da Codificação Espírita. Diante
dos fatos, voltou completamente suas atividades para a nova Doutrina,
pesquisando por todos os meios e maneiras, até desfazer totalmente suas
dúvidas. A partir daí, o partidarismo político deixou de ser parte integrante
dos anseios do jovem mineiro.
Referências
bibliográficas:
1 João 1:9
2 1 João 2:13
3 Xavier, Francisco Cândido. Vinha de
Luz, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1999, cap. 59
4 Lc 1.32
5 VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita, Ditado
pelo Espírito André Luiz, Rio de janeiro: FEB, 2001, Cap. 10
6 Xavier, Francisco Cândido. O Consolador,
ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1984, pergunta 60
7 1Tm 1.17
8 Mt 2.15
9 Xavier, Francisco Cândido. O
Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1984,
pergunta 60.
Jorge
Hessen
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