sexta-feira, fevereiro 17, 2017

 

O Vento Que Sopra Pelas Flores

 

Uma História Tibetana De Cura

De Lee Paton

 

Há vários anos atrás, em Seattle, Washington, vivia um

refugiado tibetano de 52 anos de idade.

"Tenzin", é como vou chamá-lo, foi diagnosticado como

portador de uma forma de linfoma das mais fáceis de curar.

Ele foi internado em um hospital e recebeu a primeira dose

de quimioterapia.

Mas durante o tratamento, este homem normalmente gentil

tornou-se agressivo e irritado; arrancou a agulha intravenosa

de seu braço e negou-se a cooperar.

Ele então gritou com as enfermeiras e discutiu com todos

ao seu redor.

Os médicos e enfermeiros ficaram desconcertados.

 

Depois, a esposa de Tenzin falou com o pessoal do hospital.

Ela contou que Tenzin foi um prisioneiro político dos

chineses por 17 anos.

 

Eles mataram sua primeira esposa e ele foi repetidamente

torturado e brutalizado durante todo o tempo em que

esteve preso.

As normas e regulamentos do hospital, juntamente com

a quimioterapia, fez Tenzin recordar todo o sofrimento

que passou nas mãos dos chineses.

 

"Eu sei que vocês querem ajudá-lo," ela disse, "mas ele

se sente torturado pelo tratamento.

Eles fazem com que ele sinta ódio internamente ?

da mesma maneira que os chineses fizeram ele se sentir.

Ele prefere morrer do que viver com o ódio que ele está

sentindo agora.

E, segundo nossas crenças, é mito ruim ter tamanho ódio

no coração na hora da morte.

Ele precisa estar apto para rezar e limpar seu coração."

 

 

Assim, o médico dispensou Tenzin e recomendou

uma equipe da clínica de repouso para visitá-lo em casa.

Eu era a enfermeira encarregada de cuidar dele.

Eu entrei em contato com um representante da

"Anistia Internacional" para pedir-lhe conselhos.

Ele me disse que a única forma de sanar o trauma da

tortura era "falar a respeito".

"Essa pessoa perdeu sua confiança na humanidade e

sente que a esperança é impossível."

Mas quando eu encorajei Tenzin a falar sobre suas

experiências, ele ergueu suas mãos e me fez parar.

Ele disse, "Eu preciso aprender a amar de novo se eu

quiser curar minha alma. Sua tarefa não é fazer perguntas.

Sua tarefa é me ensinar a amar novamente."

 

Respirei profundamente e perguntei,

"E como eu posso fazê-lo amar de novo?

" Tenzin respondeu prontamente, "Sente-se, tome meu

chá e coma meus biscoitos."

O chá tibetano é um chá preto forte, coberto com manteiga

de iaque e sal. Não é fácil de bebê-lo!

Mas, foi o que eu fiz.

Por várias semanas, Tenzin, sua mulher e eu nos

sentamos juntos e tomamos chá.

Nós também conversamos com os médicos para achar

formas de tratar suas dores físicas.

Mas era sua dor espiritual que deveria ser diminuída.

Cada vez que eu chegava, via Tenzin sentado de pernas

cruzadas em sua cama, recitando preces de seus livros.

Com o passar do tempo, sua mulher foi pendurando

mais e mais 'thankas', bandeirolas  budistas coloridas, nas paredes.

Em pouco tempo, o quarto parecia um colorido templo religioso.

 

Na chegada da primavera, eu perguntei o que os tibetanos

faziam quando estavam doentes na primavera.

Ele abriu um grande sorriso e disse, "Nós nos sentamos

e aspiramos o vento que sopra pelas flores."

Eu pensei que ele estava falando poeticamente, mas suas

suas palavras eram literais.

Ele explicou que os tibetanos fazem isso para serem

pulverizados com o pólen das novas floradas,

carregadas pela brisa.

Eles acreditam que esse pólen é um potente medicamento.

 

No primeiro momento, achar muitas floradas parecia

um pouco difícil.

Mas, um amigo sugeriu que Tenzin visitasse algumas

floriculturas locais.

Eu liguei para o gerente de uma floricultura e expliquei-lhe

a situação. Sua reação inicial foi "Você quer o que???"

Mas quando eu expliquei melhor o meu pedido,

ele concordou.

 

Então, no final –de -semana seguinte, eu busquei Tenzin,

sua esposa e suas provisões para a tarde: chá preto,

manteiga, sal, xícaras, biscoitos, almofadas e livros

de preces.

Eu os deixei na floricultura e combinei de pegá-los às 17 horas.

No outro final – de - semana, visitamos uma outra floricultura.

E mais outra no terceiro fim-de-semana.

 

Na quarta semana, eu comecei a receber convites das

floriculturas para Tenzin e sua mulher para voltarem novamente.

Um dos gerentes disse,

"Nós temos uma nova remessa de nicotinas e lindas fuchsias?ah, sim!

E temos belas dafnias.

Eu sei que eles vão adorar o perfume das dafnias!

E eu quase me esqueci!

Temos uns novos bancos de jardim que Tenzin e sua

esposa vão adorar!"

 

No mesmo dia, outra floricultura ligou dizendo que eles

tinham recebido birutas coloridas para Tenzin saber de

que direção o vento estava soprando.

Logo, as floriculturas estavam competindo pelas visitas

de Tenzin.

As pessoas começaram a se importar com o casal tibetano.

 

Os empregados arrumavam os móveis de frente para o

vento. Outros traziam água quente para o chá.

Alguns fregueses regulares deixavam seus carrinhos

de compras próximos do casal.

E no final do verão, Tenzin voltou ao seu médico para

novos exames e determinar o desenvolvimento da doença.

Mas o doutor não achou nenhuma evidência de câncer.

Ele estava abobalhado; disse à Tenzin que ele simplesmente

não sabia explicar aquilo.

 

Tenzin levantou seu dedo e disse,

"Eu sei porque o câncer se foi.

Ele não podia mais viver num corpo tão cheio de amor.

Quando eu comecei a sentir a compaixão das pessoas da

clínica, dos empregados das floriculturas, e todas essas

pessoas que queriam saber de mim, eu comecei a mudar

por dentro. Agora, eu me sinto afortunado por ter a

oportunidade de ser curado dessa forma.

Doutor, por favor, não acredite que a sua medicina

é a única cura.

Às vezes, a compaixão pode também curar um câncer."

 

 

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