terça-feira, maio 16, 2017

 

A prática mediúnica na Casa Espírita


A prática mediúnica na Casa Espírita

Marta Antunes Moura - e mail: martaantunes@febnet.org.br

A Federação Espírita Brasileira publicou em novembro último, durante a reunião ordinária do Conselho Federativo Nacional, o livro Orientação para a prática mediúnica no centro espírita, planejado e elaborado em conjunto com os coordenadores da mediunidade das federativas estaduais.

Trata-se de um documento orientador do trabalho de unificação, no campo da atividade prática da mediunidade, pautado pela simplicidade e objetividade, mas com referências às obras da Codificação Espírita, em especial O livro dos médiuns, e às de autores, encarnados e desencarnados, que guardam fidelidade com os postulados espíritas anunciados por Allan Kardec. A obra recém-publicada tem como abertura uma bela e significativa mensagem de Manoel Philomeno de Miranda, psicografia de Divaldo Franco, intitulada Responsabilidade Mediúnica. Os conteúdos do livro estão formatados em duas partes: a primeira trata da organização e do funcionamento da reunião mediúnica, a segunda apresenta um resumo de todos os assuntos constituintes de O livro dos médiuns: introdução, capítulos e conclusão. É uma publicação essencialmente doutrinária, em que se procura aliar a teoria espírita à prática mediúnica, entendida como útil ao trabalho mediúnico usual das casas espíritas.

A despeito da existência na literatura espírita de inúmeras e sérias orientações transmitidas por entidades esclarecidas, por intermédio de respeitáveis médiuns, que ensinam como deve ser organizada e conduzida uma reunião mediúnica, percebe-se, aqui e acolá, que a prática mediúnica ainda se encontra impregnada de interpretações pessoais ou regulada por ideias equivocadas, transmitidas por Espíritos identificados como "mentores", ideias que contrariam os fundamentos espíritas. Vemos então que a comunicabilidade dos Espíritos desencarnados, algo natural em si mesmo, passa a apresentar, em certas circunstâncias, aspecto místico, miraculoso ou fenomenológico, características que entram em rota de colisão com os princípios e objetivos norteadores da manifestação dos Espíritos ensinados pelo Espiritismo.

Na verdade, é de fundamental importância desestimular o excessivo entusiasmo manifestado por alguns espíritas pelo fenômeno mediúnico, lembrando-lhes este conselho do Espírito André Luiz:

[...] deter-se no sentido moral dos fatos e das lições. Na mediunidade, o fenômeno constitui o envoltório externo que reveste o fruto do ensina¬mento.1

Percebe-se, então, que não foi por acaso que o Codificador inseriu alerta a respeito, já na Introdução de O livro dos médiuns: "[...] A ignorância e a leviandade de certos médiuns têm gerado mais prejuízos do que se pensa na opinião de muita gente".2 Acrescenta, em seguida, palavras que se mantêm atuais:

Nos últimos anos o Espiritismo tem realizado grandes progressos, imensos progressos, sobretudo os que conseguiu efetivar depois que tomou o rumo filosófico, porque passou a ser apreciado pelas pessoas esclarecidas. Hoje, já não é um espetáculo, mas uma Doutrina de que não mais riem os que zombavam das mesas girantes. Esforçando-nos por levá-lo para esse terreno e aí mantê-lo, estamos certos de que lhe conquistaremos mais adeptos úteis do que provocando, a torto e a direito, manifestações que se prestariam a abusos. [...].3

Parece-nos que a chave para entender corretamente a dinâmica da prática mediúnica, tal como nos ensinam os Espíritos esclarecidos, se resume nesta expressão, assinalada por Kardec: "pessoas esclarecidas". Ora, sem o devido esclarecimento a respeito do que é uma reunião mediúnica, quais são as suas finalidades e, principalmente, o papel desempenhado pelos membros da equipe na reunião, é muito difícil, diria impossível, obter bons resultados. Para tanto, é importante que o participante tenha, primeiramente, base doutrinária segura que lhe dê possibilidade "[...] de fundar a unidade de princípios, de fazer adeptos esclarecidos, capazes de espalhar as ideias espíritas e de desenvolver grande número de médiuns [...]",4 esclarece Kardec. Este participante deve, em segundo lugar, encontrar-se integrado à Instituição Espírita que o abriga, esforçando-se para adquirir o hábito de estudo, pois, segundo Emmanuel: "O médium tem obrigação de estudar muito, observar intensamente e trabalhar em todos os instantes pela sua própria iluminação. [...]".5

É comum que só se considere médium o indivíduo que é portador de uma faculdade psíquica mais evidente, de efeitos patentes. Contudo, é imperioso considerar que todos os seres humanos são médiuns, pois a mediunidade é uma faculdade inerente ao psiquismo humano. Os níveis de desenvolvimento da faculdade guardam relação com o seu uso, o quanto ela foi exercitada nas reencarnações sucessivas e nas experiências vividas no Plano Espiritual. Allan Kardec afirma, a propósito:

Médium é toda pessoa que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos. Esta faculdade é inerente ao homem e, por conseguinte, não constitui privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que não possuam alguns rudimentos dessa faculdade. [...] Usualmente, porém, essa qualificação só se aplica àqueles em quem a faculdade se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva. [...].'5

Outro ponto, não menos importante, é guardarmos a firme convicção de que, na reunião mediúnica, há duas equipes funcionando integradamente, compostas, respectivamente, por participantes encarnados e desencarnados. Aliás, é a equipe dos trabalhadores desencarnados que planeja e define o roteiro geral da reunião, quantas e quais manifestações dos Espíritos ocorrerão, o gênero de atendimento e auxílio que serão prestados etc. Durante a reunião mediúnica não há espaço para improvisações, mas todos os seus integrantes são convocados a garantir a união fraterna, mantendo a harmonia reinante, por meio de boas emissões mentais que têm o poder de neutralizar influências inferiores surgidas durante o transcurso da atividade espírita. O grupo deve funcionar como "[...] um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades são as resultantes das dos seus membros, formando uma espécie de feixe. Ora, quanto mais homogêneo for esse feixe, tanto mais força terá.".7

A reunião mediúnica na Casa Espírita deve ser privativa, jamais pública e, necessariamente, não ser somente séria, mas também instrutiva, visto que nem tudo que é sério é instrutivo ou esclarecido:

Uma reunião só é verdadeiramente séria quando cogita de coisas úteis, com exclusão de todas as demais. Se seus integrantes aspiram a obter fenômenos extraordinários, por mera curiosidade ou passatempo, os Espíritos que os produzem podem até comparecer, mas os outros daí se afastarão. Numa palavra, qualquer que seja o caráter de uma reunião, haverá sempre Espíritos dispostos a secundar as tendências dos que a componham. [„.]8

O trabalhador espírita de boa vontade, o que se esforça para se tornar uma pessoa melhor, intelectual e moralmente, aprende a controlar o próprio pensamento por efeito da vontade operante, cooperando na manutenção da ordem e da harmonia. A ação mental bem administrada é importante em qualquer situação, mas na prática mediúnica é de grande valia, sobretudo no atendimento a Espíritos portadores de grande sofrimento. Emmanuel esclarece a respeito:

Em qualquer estudo da mediunidade, não podemos esquecer que o pensamento vige na base de todos os fenômenos de sintonia da esfera da alma. [...]

Verificamos, no símile, que a energia mental, inelutavelmente ligada à consciência que a produz, obedece à vontade. E, compreendendo-se no pensamento a primeira estação de abordagem magnética, em nossas relações uns com os outros, seja qual for a mediunidade de alguém, é na vida íntima que palpita a condução de todo recurso psíquico. [...]

O pensamento é, portanto, nosso cartão de visita. Com ele, representamos ao pé dos outros, conforme nossos próprios desejos, a harmonia ou a perturbação, a saúde ou a doença, a intolerância ou o entendimento, a luz dos construtores do bem ou a sombra dos carregadores do mal.9

REFERÊNCIAS:

1             VIEIRA, Waldo. Conduta espírita. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2015. cap. 29 - Perante o fenômeno, p. 82.

2             KARDEC, Allan. 0 Livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2016. Introdução, p. 14.

                3             ..             . p. He 15.

                4             . Obras póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 40. ed. 2. reimp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2010. pt. 2, Projeto 1868, it. Ensino espírita.

5             XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. q. 392.

8 KARDEC, Allan. 0 Livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2016. pt. 2, cap. 14, it. 159.cap. 29, it. 331. it. 327.

9             XAVIER, Francisco C. Seara dos médiuns. Pelo Espírito Emmanuel. 20. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 2 - Cartão de visita.

 

Fonte: Reformador Maio 2017

 

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