terça-feira, maio 09, 2017
Cigarra e Formiga
Cigarra e
Formiga
Acordei
cedo, como de costume, e ouvi o canto (sofrido) da cigarra. Lembrei-me,
automaticamente, da fábula “A cigarra e a formiga” e da letra da música de
Raulzito: “a formiga só trabalha porque não sabe cantar”.
Isso me
remeteu à dinâmica da vida e às diferenças entre as pessoas. O quanto cada um
pode ofertar ao Universo, na proporção nem sempre exata do que, dele, recebe.
Um moço nazareno teria falado, por meio de parábola, nos talentos. As virtudes
– e não os dinheiros – confiados pelo Senhor (Deus) aos homens.
E todos
têm os mesmos talentos? Idealmente, sim. Nas práxis, não!
E por quê?
Qual a razão, então, das diferenças? Qual a razão lógica para uns serem
cigarras e outros, formigas?
Não vamos
tratar de crenças. Nem de argumentos religiosos. Eles, por certo, não serão
jamais suficientes para a elegia à inteligência, posto que a fé é um sentimento
(assaz inexplicável), e as crenças se baseiam nas expectativas, nos desejos,
nos anseios – nada racionais – do ser humano. Inegavelmente, a fé pode produzir
prodígios, pode alavancar mudanças, pode proporcionar vitórias, é fato. Mas não
pode, ela, a fé, sozinha, ser o combustível e o alimento (único) para todas as
situações da vida.
É preciso
mais!
Voltemos
às diferenças... você sabe o porquê de dois filhos gêmeos univitelinos não
terem personalidades idênticas? Você pode explicar, racionalmente, o porquê de
uma sala inteira de acadêmicos de Direito (ou qualquer outra habilitação) não
obter o mesmo resultado numa prova de concurso público ou a totalidade deles
optar por uma das vertentes da formação jurídica, em detrimento das demais?
Você sabe porque membros de um mesmo agrupamento humano não têm as mesmas
reações e atitudes diante de dado fato?
Você é uma
cigarra ou uma formiga? Sempre, ou às vezes? Consegue delimitar o quão formiga
é e o quão cigarra deseja ser? Ou vice-versa? É melhor ser formiga ou cigarra?
Quando? Onde? Por quê?
Me perdoe,
sinceramente, se eu coloco “caraminholas” na sua “cachola”. Estou aqui, para
isso. Um certo comunicador teria dito: - eu vim para confundir! No caso,
jocosamente, ele queria dizer: - Eu vim para fazer pensar!
E as
pessoas, em geral, querem pensar? Ou querem respostas prontas, tipos pratos
feitos?
Grande
parte diz, já tenho preocupações demais, já tenho os afazeres do dia-a-dia, as
preocupações da luta pela sobrevivência e as agruras dos relacionamentos
conviviais... Não quero “mais” coisas para me preocupar...
Será,
mesmo?
As
diferenças, meu amigo, não são egressas de “benesses” divinas, nem, tampouco,
“condenações” impostas pela Divindade ou pelo Universo a você, ou ao outro...
Não há sortilégios, não há “jeitinhos”, não existem dons imerecidos nem
tragédias sem utilidade (lógica).
É fato que
as religiões em geral – pelo menos as muitas que conheço – pregam a ideia dos
infortúnios como “pena” e dos sucessos como “graça”. Fica muito mais fácil
“trabalhar” a doutrinação dos fiéis, estabelecendo ritos “necessários” que
devem ser cumpridos e obedecidos (cegamente), pois quando o adepto deles se
afasta, recebe a reprimenda e, quando convicto, fica mais próximo da “tal”
felicidade... Trabalha-se o condicionamento psicológico, baseado no
“toma-lá-dá-cá”, como se o Ministério Espiritual fosse um grande balcão de
negócios (desculpe-me se a ideia remeter seu olhar para algumas seitas cristãs
da atualidade e a convivência e rotina nos “templos”, pois não terá sido mera
coincidência essa ilação).
Podemos
ser formigas, sempre! Ou podemos ser cigarras, sempre! Ou podemos ser, ora
cigarras, ora formigas... basta escolhermos!
Como
“igualar” seres desiguais na morfologia, nos elementos externos assim como nos
internos? Como “aceitar” que, em uma única vida (física), TODOS possam
“cumprir” com suas obrigações, missões, responsabilidades, desígnios, ou o que
você quiser denominar? Como entender que uma criatura alcance a longevidade
centenária, enquanto outra faleça em tenra idade, “aceitando” que ambas tiveram
as “mesmas chances”? Como comparar um cego de nascença com uma pessoa que
alcance vida madura sem precisar de lentes adicionais? De um indivíduo que
nasça com membros atrofiados ou paralisados (ou os tenha em algum quadrante da
vida), e outro que consiga correr e pular até os oitenta anos? Como entender
que uns nascem na mais absoluta pobreza e precariedade de recursos e outros no
berço nobre de uma família nobre? Como entender que de dois homens, nascidos na
periferia, um se torne valoroso homem, rico empresário e outro viva de furtos ou
“bicos”, na pobreza extrema?
Somente
entendendo que, formigas ou cigarras, estamos aqui “de passagem”, como aquele
ser cantado em prosa e verso, de uma estação de trem, nos “encontros e
despedidas” da (s) vida (s) sucessiva (s)... Ou de uma única vida, a espiritual,
que ora se processa no vaso corporal, ora fora dele...
Sim, você
pode considerar isso, também, objeto de “crenças”. E não estarás sozinho, posto
que, da Humanidade Espiritualista que aceita a Palingênesia (Reencarnações), a
imensa maioria seja de religiosos que apenas “creem” na vida espiritual, na
necessidade da encarnação (vida material) e, uma parte deles, mais orientais do
que ocidentais, ainda hoje, propugne pela realidade do “nascer de novo”, dito
por aquele Carpinteiro ao Doutor da Lei, certa feita...
As
formigas carregam “o piano”. As cigarras embelezam o dia com sua melodia.
Sejamos formigas, quando preciso. E cigarras, quando necessário. Agora mesmo,
ao fazer esta pequena crônica, estou “sendo” formiga. Daqui a pouco, quando ela
estiver sendo lida, estarei regozijando qual cigarra, feliz e faceira...
A cigarra
já não está mais, agora, cantando... pode ter se recolhido. Pode ter morrido,
cumprido sua etapa, enquanto as formigas do quintal de casa continuam a
recolher e armazenar folhas para o consumo, no inverno.
Eu e você
vamos formigar, hoje, amanhã, até o final desta vida. Mas poderemos e deveremos
cigarrear, muitas vezes... espero, francamente, que, cigarra ou formiga, você
agradeça ao Universo (mais) esta oportunidade e aproveite-a como puder...
haverá outras... mas se nos dedicarmos um pouquinho mais, poderemos acelerar
nossos passos na direção da LUZ.
Marcelo
Henrique: