quarta-feira, maio 17, 2017
Práticas exteriores
Práticas
exteriores
Warwick
Mota Warwick.mota@gmail.com
Alerta-nos
a trabalhadora espírita Suely Caldas Schubert1 que "É muito difícil a
pessoa que foi acostumada a uma religião com rituais despojar-se de todas essas
práticas ao ingressar nas hostes espíritas. [...]".
Embora a
resistência de alguns, precisamos tratar do tema "pureza
doutrinária", no âmbito do Movimento Espírita, sobretudo no que se refere
à prática dos cultos exteriores. É exatamente isso que vamos pontuar.
No seio do
Movimento Espírita, o que seriam práticas exteriores?
Interessante
observar que ao longo das sucessivas reencarnações o homem traz para si, ou
para os seus atos, uma carga mítica muito intensa. E todo o processo da
construção das religiões tradicionais parte, inicialmente, da construção dos
mitos.
Do
alicerce da Mitologia, partimos em nossa caminhada à cristalização das práticas
que acompanham o desenvolvimento emocional do homem.
E,
inacreditavelmente, nos dias de hoje, com toda a base científica de que
dispomos, ainda vemos muitos confrades querendo incluir certas práticas
exteriores no âmbito da Doutrina Espírita.
Obviamente
que a preocupação, aqui, não tem relação com o purismo doutrinário em si, mas
com o resgate da verdadeira pureza que todo crente deve observar, tão bem exemplificada
na passagem em que Jesus responde ao questionamento que lhe fora feito, acerca
das mãos não lavadas (Mateus, 15:1 a 20).
Na
passagem citada, os fariseus questionam o Mestre por que seus discípulos, antes
de se sentarem à mesa, não haviam respeitado o preceito judaico que lhes
ordenava lavarem as mãos, fazendo, em função desse clichê, veemente cobrança.
Retruca-lhes,
então, Jesus, devolvendo o questionamento correto:
- Por que
violais, vós outros, os mandamentos?
Referia-se
o Mestre ao fato de que a verdadeira pureza não consiste em lavar as mãos, mas
em ter o coração puro, íntegro, sincero.
Como
sempre, Jesus realça o sentimento.
Em
Sementeira da fraternidade, Vianna de Carvalho2 já nos alertava para as
adulterações a que a Doutrina dos Espíritos muitas vezes se vê submetida, no
dia a dia da prática menos esclarecida.
Ora, um
dos pressupostos básicos da Doutrina Espírita é não ter prática ritualística,
nem culto exterior, nem sacerdote, nem formalismos de espécie alguma. É
religião, sim, por nos religar à Divindade, mas prescinde do culto externo.
Com a
Doutrina Espírita, não mais idolatria, nem totens, nem mitos, nem altares, nem incenso
que, afinal de contas, não passam de formas materialistas a se imiscuírem no
terreno da religiosidade.
O Espiritismo,
na forma pulcra com que o recebemos do insigne Codificador, chegou-nos em
função do próprio processo de amadurecimento do entendimento humano, ocorrido
ao longo dos séculos. Somente nos foi enviado quando nossa racionalidade assim
o permitiu, quando saímos da infância espiritual, porque, até então, para tudo
admitíamos o castigo, a punição, sem compreendermos a liberdade de escolher e
de colher os frutos das próprias escolhas, boas ou más.
Quando
"[...] O mal chegara ao cúmulo [...]",3 eis que Jesus nos envia o
Consolador, consoante outrora prometido.
No
passado, com a força dos dogmas, era como se os ritos purificassem o homem.
Hoje já entendemos que é o esforço da caminhada no Bem que nos purifica.
A Doutrina
Espírita vem exatamente esclarecer que não necessitamos de comportamentos
ritualísticos, visto que postula a fé raciocinada, permite a análise do simples
ao complexo, do geral ao particular, da lógica pura e simples, de acordo com os
pressupostos kardequianos, na compilação dos elementos doutrinários.
Em datas
cristãs, especialmente na Semana Santa; em ritos de passagem, como no
nascimento de filhos, na morte de alguém ou nos esponsais de amigos, por que
temos tanta dificuldade em nos livrar dos costumes cristalizados?
Por que
ficarmos presos aos fenômenos?
Que
façamos nossas reflexões, mas não nos comportemos mais como se em outros cultos
estivéssemos.
Somos
espíritas e não necessitamos de comportamentos artificiais, presos a dogmas e a
práticas externas. Embora a nossa memória extra cerebral guarde esses
comportamentos atávicos, o Espiritismo dispensa-os totalmente, considerando-se
que nos basta a essência dos ensinamentos de Jesus, o espírito, que vivifica.
É o Mestre
quem nos ensina que o sacrifício agradável ao Senhor é realmente o da superação
das mazelas íntimas, na busca do perdão, da reparação das faltas cometidas, da
reconciliação com o adversário.4 Esta, sim, a verdadeira prática.
Há muita
gente que ainda deixa um livro aberto em casa, geralmente uma Bíblia ou uma obra
de Allan Kardec, como se isso fosse proteger sua residência.
Entretanto,
para que o Evangelho de Jesus dê sentido às nossas vidas, seja uma luz em
nossas casas, precisa é ser praticado, e não deixado meramente aberto...
Ora, se
cremos em Deus, na Espiritualidade que nos protege e em nossa capacidade de discernir
o Bem, por que lançar mão de rituais? Estejamos atentos: Espiritismo é questão
de fundo, não de forma.
Precisamos
realçar a pureza da nossa Doutrina, abrindo mão de concessões tão ao gosto de
outras denominações religiosas.
Afinal, já
sabemos que toda mudança acontece de dentro para fora, inclusive a educação. Só
a modificação íntima, a que operamos na nossa intimidade, é verdadeira, porque
isenta dos artificialismos da falsa virtude.
REFERÊNCIAS:
1 REFORMADOR,
ano 123, n. 2.111, fev. 2005. Práticas exteriores, p. 18(56) - 19(57).
Disponível em: http://www. sistemas.febnet.org.br/acervo/revistas/2005/WebSearch/page.php?pagi-
na=41. Acesso em: 15 mar. 2016.
2 ano 99,
n. 1.833,dez. 1981. O Espírita perante o Espiritismo, segundo Vianna de
Carvalho, articulista Júlio César de Sá Roriz, p. 17(373)-19(375). Disponível
em: http://www.sistemas. febnet.org.br/acervo/revistas/1981/ WebSearch/page.php?pagina=361.
Acesso em: 26 mar. 2016.
3 KARDEC,
Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6.
imp. (Edição Histórica). Bra-sília, FEB, 2015. cap. 18, it. 2, p. 245.
4 cap. 10,
its. 7 e 8, p. 143
Fonte: Reformador
maio de 2017