quinta-feira, maio 25, 2017
REVISTA VERDADE E LUZ
REVISTA
VERDADE E LUZ
A segunda época da revista
Verdade e Luz, hoje praticamente esquecida, ajuda a recuperar parte importante
da história do Espiritismo e a corrigir enganos cometidos na biografia do
extraordinário espírita conhecido por Batuíra.
O jornal Verdade e Luz,
fundado em São Paulo no final do século XIX pelo português Antonio Gonçalves da
Silva, apelidado de Batuíra, teve uma vida e uma história considerável,
dividida em duas partes: a primeira época, em que a publicação começou como
jornal e quase ao final desse período transformou-se em revista, e a segunda
época, quando retornou à circulação após um período de interrupção, como
revista de boa qualidade. É desta segunda época que vamos falar, uma vez que
ela se encontra esquecida e não conta com registros capazes de serem
compulsados pelos pesquisadores e historiadores.
Tenho em mãos 36 exemplares
da revista Verdade e Luz, segunda época, correspondendo aos anos 1922, quando
foi retomada depois de quatro anos sem circular, até 1926. Tudo indica que saiu
do cenário ao final de 1926 e não mais retornou. Seu diretor, Pedro Lameira de
Andrade, após esse ano, seguiu como presidente da Instituição Verdade e Luz até
a data de sua desencarnação, ocorrida em 1937.
O colégio Allan Kardec,
fundado por Eurípedes Barsanulpho, foi tema de várias reportagens na revista
Verdade e Luz, acompanhadas de fotos como esta.
Os exemplares da revista
Verdade e Luz são uma fonte permanente de curiosidade e não resta dúvida que o
material nela contido atende com sobra ao desejo de saber sobre o pensamento e
os fatos do período em que a revista circulou, fatos estes não apenas
relacionados a São Paulo, mas também ao panorama doutrinário nacional. Vejamos,
portanto, alguns deles.
O primeiro número da 2ª
época aparece com a data de 3 de maio de 1922, interrompendo, assim, o período
de quatro anos em que a revista teve sua publicação interrompida. Agora sua
periodicidade é quinzenal e ela ressurge como órgão não apenas da Instituição
Verdade e Luz, mas, também, da Associação Espírita São Pedro e São Paulo, à
qual Lameira de Andrade estava ligado. Mais tarde, por razões não conhecidas
ainda, a revista se torna órgão oficial apenas da Associação. Em novembro de
1923, ela passa a circular mensalmente, premida pelas dificuldades financeiras,
fato que se mostrará constante a partir de então. E em janeiro de 1926 a
periodicidade se torna incerta.
Neste primeiro número
aparece uma nota à página 19 com o seguinte título: “Seria fluídico o corpo de
Jesus?” Lameira de Andrade informa que está ultimando a publicação de um livro
de análise do propalado corpo de Jesus no qual se conclui que esse corpo era
carnal e não fluídico, como desejam os roustainguistas. No período de
preparação do meu livro “O corpo fluídico”, em 1981/1982, de posse dessa
notícia, envidei esforços para encontrar o referido livro, sem sucesso. A
própria revista jamais deu notícia sobre o lançamento desse livro, o que leva a
crer que não tenha sido publicado. No entanto, era evidente o desgosto de
Lameira de Andrade com aqueles que defendiam a tese roustainguista, tanto assim
que em diferentes números da revista ele retoma o assunto de forma crítica.
Inúmeros articulistas
conceituados passaram a escrever na Verdade e Luz nesta sua 2ª época, já a
partir de 1922. Entre eles estão: Pedro de Camargo, assinando com o pseudônimo
de Vinícius, Vianna de Carvalho, Pery de Campos, Mariano Rango D’Aragona, que
manteve uma seção onde escrevia em italiano; Romeu do Amaral Camargo, Aura
Celeste (com textos próprios e psicografados, pois era, então, médium), além de
outros.
O número 4, de 18 de junho
de 1923, tem grande parte de suas páginas, a capa, inclusive, dedicadas a um
fato que ganhou destaque na imprensa em geral e nos meios espíritas. Trata-se
da conversão do conhecido escritor e poeta Coelho Netto ao Espiritismo. De
início, a revista reproduz o texto escrito e assinado pelo próprio escritor,
publicado pelo Jornal do Brasil, edição de 7 de junho de 1923, no qual o
literato revela sua conversão. Na sequência, aparece um outro texto da redação
com comentários entusiasmados sobre esse fato. Na mesma edição, a revista
reproduz um outro texto literário assinado por Coelho Netto, fato que se
repetiria nas edições posteriores. Finalmente, em dezembro a notícia de que
naquele mês Coelho Netto estaria fazendo uma conferência no Teatro Municipal de
São Paulo, cuja renda seria revertida a favor do Abrigo Batuíra, sob o título
“A vida além da morte”, conferência esta publicada posteriormente na forma de
opúsculo.
O provável último número da
revista Verdade e Luz foi publicado em outubro de 1926. A princípio, não há
indícios de que a revista estava encerrando sua publicação. Entre as notícias,
chama a atenção aquela que informa, em cinco páginas, sobre a desencarnação do
conhecido líder espírita Vianna de Carvalho, fato ocorrido no dia 3 daquele
mesmo mês, estando Vianna a bordo do navio Íris, no qual havia embarcado em
Recife, onde então residia, em direção ao Rio de Janeiro, para tratar de uma
grave doença que o debilitava. Porém, um encarte (reproduzido ao lado),
colocado de última hora, avisava sobre a suspensão da publicação da revista e
informava que depois de organizada a recém-fundada Federação Espírita do Estado
de São Paulo, um novo órgão de imprensa certamente surgiria. Mas como a
Federação parece não ter vingado, a revista seguiu lhe os passos
Eduardo Monteiro, seus
livros históricos e a revista Verdade e Luz
Aqui é preciso fazer um
registro e algumas correções. Eduardo Carvalho Monteiro, com quem dividi uma
longa amizade e a coautoria de três livros, escreveu duas obras de resgate da
figura sem par de Batuíra. Uma delas é a biografia desse português extraordinário;
a segunda é o livro onde narra a história da imprensa espírita em São Paulo nos
cem anos anteriores à edição do livro. Eduardo escreve que o jornal Verdade e
Luz é um dos pioneiros da imprensa espírita em terras paulistas, uma vez que
foi lançado no ano de 1890, mas não registra, em nenhum dos dois livros, este
fato: Verdade e Luz teve duas fases, sendo a segunda sob o comando do advogado
Pedro Lameira de Andrade, cujo marco inicial é o ano de 1922. Lameira de
Andrade assumiu a direção da Instituição Verdade e Luz, fundada por Batuíra, no
ano de 1921 e a comandou até 1937, conseguindo recuperá-la de sua quase
extinção. Eduardo registra apenas a primeira fase do jornal. A pergunta é: por
que?
Quando Eduardo comunicou-me
a intenção de ampliar o texto dos 70 anos para os últimos 100 anos da imprensa
espírita em São Paulo, coloquei em suas mãos todos os exemplares que possuía da
segunda época da revista Verdade e Luz. Pouco antes de publicar o livro,
Eduardo devolveu-me, a meu pedido, aqueles exemplares, pois eu desejava
continuar os meus estudos sobre o material contido naquela publicação. Minha
surpresa foi grande ao constatar que o livro do Eduardo não fazia nenhuma
menção às revistas, deixando, portanto, um vazio histórico aí.
Sobre a revista Verdade e
Luz, Eduardo informa apenas o seguinte no livro referido: “Não sabemos se o
periódico circulou após o desencarne de Batuíra, mas tudo indica que não, por
muito tempo, face às dificuldades financeiras encontradas por seus sucessores.
Em dezembro de 1922, já sob o comando de Lameira de Andrade, voltou a circular
quinzenalmente em formato de revista”. A verdade, porém, é que os registros
indicam que a revista deixou de circular somente em 1918, ou seja, nove anos
depois da desencarnação de Batuíra, sendo que quatro anos após, em 1922,
Lameira de Andrade retomou a sua publicação.
Prédio adquirido para
instalação do Abrigo Batuíra, fundado na administração Lameira de Andrade
As notas que Eduardo
apresenta sobre a Instituição Verdade e Luz do período pós-Batuíra contêm
lacunas, especialmente em relação à administração de Lameira de Andrade, sobre
quem Eduardo parece não ter conseguido material mais consistente, material que
a revista em sua segunda época já fornecia, mas que ele, infelizmente, não
percebeu. Por exemplo, foi na administração de
Lameira de Andrade que a
Instituição adquiriu um grande imóvel na Capital paulista (e não em Poá, como
equivocadamente registra Eduardo) destinado à instalação do Abrigo Batuíra
inaugurado em 1º de abril de 1923. A edição da revista de 18 de abril de 1923
traz matéria sobre o fato, acompanhada de fotos do imóvel e da transcrição da
ata de fundação, onde se encontra registrado, inclusive, que o imóvel estava
localizado na rua Scuvero, 28, Cambuci.
Equipe da Instituição que
comandou a entrega de cestas de alimentos no Natal de 1924. Ao centro, sentado,
Pedro Lameira de Andrade.
Foi, portanto, Lameira de
Andrade que deu vida ao projeto do Abrigo e não a sua sucessora na presidência
da Instituição, Maria Janoni Novazzi, como entendeu Eduardo no livro biográfico
de Batuíra. Neste, Eduardo informa que a nova presidente recebeu a Instituição
muito endividada e a reergueu, fundando, inclusive, o Abrigo Batuíra, mas –
note-se – esta senhora entrou para a Instituição apenas em 1934, como Eduardo,
ele próprio, registra, e assumiu a presidência em 1936, porém, o Abrigo Batuíra
foi fundado em 1923, sob a administração de Lameira de Andrade.
A Federação Espírita de São
Paulo e sua fundação em 1926.
A data de fundação da atual
Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp) é julho de 1936, mas é certo
que dez anos antes, ou seja, em 1926 ela foi dada como fundada. A notícia
completa se encontra na edição da revista Verdade e Luz de janeiro/fevereiro de
1926 e na subsequente, que corresponde aos meses de março a junho do mesmo ano
(veja-se que aqui a revista já passa por problemas de periodicidade). A verdade
é que a intenção de criar uma instituição desse porte já vinha sendo
amadurecida há alguns anos e a revista dirigida por Lameira de Andrade,
curiosamente, mantinha desde o início uma coluna permanente e não assinada com
o título de “Orientação aos centros”.
Na edição seguinte, com o
título “Fundação da Federação Espírita do Estado de São Paulo”, a revista
informa: “Conforme noticiamos no nosso número passado, foi, no dia 28 de março,
unanimemente fundada a Federação Espírita do Estado de São Paulo, destinada a
incentivar e exemplificar a solidariedade entre todas as sociedades
espíritas…”. A ideologia norteadora da nova instituição pode ser vista neste
parágrafo: “A Federação Espírita do Estado de São Paulo não é uma associação
com[o] todas as congêneres existentes no Brasil, sem exceção; é uma “associação
de associações”, é uma “síntese de associações”, é o “centro”, o “pivô”, a
“fonte”, a “fortaleza”, o “facho” onde as sociedades adesas encontrarão o
amparo, a bússola, a luz, a vida enfim. Trata-se de uma crítica ao modelo então
dominante de federações criadas e dirigidas por indivíduos, tendo como exemplo
a própria Federação Espírita Brasileira, já à época pouco operante e muito
contestada. A assembleia de fundação foi dirigida por Pedro de Camargo, o
Vinícius, e aprovou a primeira diretoria com mandato de um ano de duração,
tendo na sua presidência o Dr. Pedro de Monte Ablas, elegendo, também, um
Conselho Deliberativo composto por quarenta membros, sendo 25 individuais e 15
coletivos (centros Espíritas). Dentre os membros individuais aparece o nome do
famoso médium Carlos Mirabelli e entre os sócios coletivos o do Centro Espírita
Fraternidade, de Jundiaí. Por fim, a assembleia contou com a presença de 62
pessoas, 27 centros espíritas representados, além de 4 veículos da imprensa
espírita.
Detalhe interessante: como
registrado anteriormente, a revista Verdade e Luz provavelmente, encerrou suas
atividades em outubro de 1926, conforme se lê no encarte reproduzido acima. Mas
esse mesmo encarte lança dúvidas sobre a Federação Espírita do Estado de São
Paulo ao registrar que uma nova assembleia seria realizada e precisaria contar
com maior número de centros espíritas e de pessoas, a fim de viabilizá-la. Mais
abaixo, lê-se que a Federação teria como seu órgão de imprensa oficial o jornal
Diário da Noite, que então era publicado na capital paulista. Pode-se, pois,
concluir que nem a revista Verdade e Luz voltou a ser publicada, nem a
Federação Espírita conseguiu de fato concluir sua fundação, uma vez que não se
teve mais notícias dela e, posteriormente, em julho de 1936, dez anos depois,
ela seria novamente fundada e em seus documentos não há menção à existência de
nenhuma outra criada anteriormente. As causas desses acontecimentos desafiam a
paciência dos historiadores e eventuais interessados nos fatos relacionados aos
caminhos do Espiritismo brasileiro.
Um movimento chamado
Constituinte Espírita Nacional
Plenário da Constituinte
Espírita Nacional realizada no Rio de Janeiro e da qual resultou a Liga
Espírita do Brasil.
Desde o momento em que
surgiu a ideia, em 1925, do movimento para realizar uma Constituinte Espírita
Nacional a revista Verdade e Luz emprestou inteiro apoio e abriu suas páginas
para exaltar aquele pleito, que parecia de acordo com a forma de pensar de
Lameira de Andrade e seus companheiros, além dos propósitos que alimentavam de
dotar o estado de São Paulo de uma Federação Espírita.
Nesta foto da revista Verdade
e Luz, a mesa diretora na instalação da Constituinte Espírita Nacional, sob a
presidência do Desembargador Gustavo Farnese.
Na edição de novembro de
1925, a revista Verdade e Luz informa sobre o recebimento da circular enviada
pela comissão organizadora e reproduz o inteiro teor do documento, registrando,
ao final da notícia, a intenção de participar do evento, o que de fato ocorreu
através de seu diretor, Lameira de Andrade.
Na edição seguinte, de
dezembro daquele ano, a revista dá a notícia de que a FEB havia recusado o
convite que lhe fora feito para comparecer e participar da Constituinte,
reproduzindo o inteiro teor da carta enviada à comissão por aquela instituição
e, em seguida, reproduz também o texto-resposta da comissão à FEB. Ainda nessa
edição, a revista reproduz a entrevista sobre a Constituinte, publicada no “O
Jornal”, edição de 4 de dezembro de 1925, dada por Nóbrega da Cunha.
Na edição seguinte, de
janeiro-fevereiro de 1926, a revista prossegue com a repercussão do evento, mas
registra sua crítica ao fato da comissão organizadora não haver ainda publicado
o programa dos trabalhos e o anteprojeto da Liga Espírita do Brasil, cuja
fundação estava prevista para aquele congresso. Reproduz, também, uma matéria
extensa publicada pelo Jornal Espírita, de Porto Alegre, em torno da
Constituinte e sua oportunidade, bem como uma entrevista publicada pelo jornal
O Globo, feita com o senhor Jarbas Ramos, diretor do jornal Brasil Espírita.
Nesta entrevista surgiu a menção à questão defendida por Roustaing do corpo
fluídico de Jesus, fato este que levou Lameira de Andrade a acrescentar uma
nota esclarecedora do assunto, concluindo pela tese do corpo material, físico
de Jesus.
A reportagem sobre a
realização da Constituinte, na cidade do Rio de Janeiro, foi publicada na
edição de março-junho de 1926 e é antecedida por um depoimento de Lameira de
Andrade, onde registra a sua surpresa pelo clima de entendimento e fraternidade
que encontrou entre os espíritas presentes, uma vez que, disse Lameira, o comum
nesse tipo de reunião entre espíritas é perceber um vazio de ideias e a
presença de grupos sectários. Segue-se a reportagem com mais de 18 páginas, com
pormenores sobre o desenrolar do evento, a criação da Liga Espírita do Brasil e
os passos futuros esperados para a nova instituição.
A Constituinte Espírita
Nacional não se realizou pacificamente e Lameira de Andrade não deixa de
registrar o fato. Não teve apenas a oposição da FEB, que temia perder seu poder
com a fundação da Liga Espírita do Brasil, mas de alguns outros setores do
movimento espírita. Por exemplo, Cairbar Schutel publicou em O Clarim, jornal
que publicava em Matão, matéria sobre a realização da Constituinte em que a desabonava
e, mais, dizia que ela fora desorganizada e confusa, valendo-se disso para
dizer: “folgamos imensamente ter nos precavido de tomar parte em tão
heterogênea reunião”. Mas Cairbar se utilizou de informações chegadas até ele
para emitir seu parecer sem estar ele próprio presente como testemunha ocular
da história e isso levou Lameira de Andrade, que era seu amigo, a publicar
nessa mesma edição da revista, matéria assinada por Eolia V. Doria, na qual
esse autor rebate Cairbar a partir da citação do dito: “contra fatos não há
argumentos”, elencando uma série da argumentos contrários, inclusive a opinião
daqueles que participaram do evento e os números dos presentes e representados,
entre estes mais de 300 centros espíritas do Brasil. Argumenta, também, que à
época a FEB era desleixada em relação ao movimento federativo e recebia
críticas de todos os lados por isso. Vale-se de informações publicadas pelo
então 2o. Secretário da FEB, Guillon Ribeiro, que dava conta de que só haviam
49 centros espíritas registrados como filiados, então, acrescentando que mesmo
assim o registro não era confiável, pois estava envelhecido e alguns desses
centros já não mais existiam. Assim, o próprio Guillon reconhecia a
incompetência da FEB para liderar o movimento, vindo daí a ideia da realização
da Constituinte e com esta a criação da Liga Espírita do Brasil para realizar o
trabalho que a FEB não conseguia.
A título de informação, a
Liga Espírita do Brasil também não logrou êxito nesse campo e foi, anos depois,
transformada em federativa do Rio de Janeiro, mas essa é uma outra parte da
história. Para informações mais detalhadas sobre a Constituinte e a FEB, clique aqui.
http://www.expedienteonline.com.br/documentos/revista-verdade-e-luz/