quinta-feira, julho 20, 2017
O que é preciso saber sobre o mundo espiritual, antes de chegar lá. E saiba — você vai. Incluindo: “Confissões de um morto”
O que é
preciso saber sobre o mundo espiritual, antes de chegar lá. E saiba — você vai.
Incluindo: “Confissões de um morto”
Por Paulo
Henrique de Figueiredo, autor de Mesmer – a ciência negada do magnetismo animal
e de Revolução Espírita – a teoria esquecida de Allan Kardec.
Tempo de
leitura: 8 minutos
O espírito
Lammenais, comenta um fato observado comumente no mundo dos espíritos:
“
“Lá, vemos Espíritos que, muito tempo mesmo
depois de sua morte, se creem ainda vivos, vagam ou acreditam se ocuparem de
suas tarefas terrestres, isso acontece porque se iludem completamente sobre a
sua posição e não se dão nenhuma conta de seu estado espiritual”.
Está lá na
Revista Espírita de 1863. Já não basta enfrentar as dificuldades do dia-a-dia
aqui neste mundo, anos a fio, e o camarada, depois de morto, ao invés de se
preocupar com as novidades do além, distraído, continua vivendo o cotidiano da
vida que se foi. Certamente, seguirá reclamando da conta da luz, do preço do
feijão, dos empresários e políticos corruptos, ou até fará sua fezinha na
loteria, sem saber que se ganhar não vai mesmo encher os bolsos. Vagando por
aí, ao atravessar as ruas, o indivíduo, sem reconhecer-se como alma penada que
é, olha atento para um lado e outro antes de pisar na faixa, morrendo de medo
de ser atropelado e ir-se desta para melhor. Ou seja, sem saber que já não é
mais desta, não se dá ao trabalho de encontrar coisa melhor, e fica na mesma.
Como escapar dessa roubada?
O espírito
Lammenais, quando vivo foi entre nós um padre liberal muito preocupado com as
necessidades do povo, sendo um dos precursores do socialismo. Escreveu o livro
Palavras de um crente, contra a ambição dos reis, nobres e governantes
opressores, convocando os trabalhadores a se unirem em busca de seus direitos.
Para ele, a exploração dos proletários é pior do que a escravidão. Para
construir um futuro melhor, seria preciso educar o povo para que reconheça a
legitimidade de seus direitos e lutar para abolir os privilégios e monopólios,
sem violência, mas com o uso consciente do voto. Quando apontou a necessidade
de igualdade política e um rígido controle dos políticos e administradores, na
obra O país e o governo, foi parar na prisão por um ano, em 1840. Não é
possível conhecer sua história hoje sem imaginar como seria sua atuação em
nossos tempos de lava-jato, delações, desmandos e privilégios. Afastou-se da
igreja quando se conscientizou dos abusos ao entrar no Vaticano. Foi eleito pelo
povo para a Assembleia Nacional em 1848 adentrando à política. Se aposentou em
1851 e, fato inevitável, morreu em 1854, aos 72 anos. É incrível, mas chegou ao
mundo espiritual, ambientou-se rapidamente, e alguns anos depois, quando Allan
Kardec começou a conversar com os espíritos, estava pronto para ajudar.
Pois bem,
entre aqueles espíritos que morrem e não sabem disso, há os que acreditavam em
vida na ideia materialista do nada. No entanto, como se acreditam vivos,
conservam a crença no nada depois da morte, que para eles não chegou! Lammenais
explica que isso não será para sempre, chegará o dia que essa vida de alma
vagante cansa, se esgota, os detalhes vão revelando o engano, e um dia cai a
ficha. Diz ele:
“
“Chega um
momento onde, do outro lado o véu se rasga, e onde as ideias materialistas são
inaceitáveis”.
Lammenais,
liberal pensador, depois da morte, demonstra os mesmos valores de vanguarda no
outro mundo, analisando a vida espiritual. Suas palavras são até poéticas:
“
“O
suplício dos materialistas é lamentar as alegrias e as satisfações terrestres,
eles que não podem ainda nem compreender nem sentir as alegrias e as perfeições
da alma; e vede o abaixamento moral desses Espíritos que vivem completamente na
esterilidade moral e física, de lamentar esses bens que fizeram momentaneamente
a sua alegria e que fazem atualmente o seu suplício”.
Esse é o
mais difícil ponto a ser aceito depois da morte. Toda luta pelos privilégios,
pelo esforço em acumular nos cofres dinheiro, joias e bens, perde todo o sentido
e valor (isso mesmo, colega, esta frase foi para mencionar os políticos ficha
suja). Mas, por outro lado, existem aqueles que são simples no viver, mas
soberbos ao desprezar a vida após a morte, divulgando com sorriso nos lábios a
ideia do nada, os materialistas das ideias. Lammenais comenta sobre eles,
quando se conscientizam da realidade do espírito quando reconhecem estar mortos
no além:
“
“é verdade
que sem ser materialista pela satisfação de suas paixões terrestres, pode-se
sê-lo mais nas ideias e no espírito do que nos atos da vida. São aqueles que
não ousam aprofundar as causas de sua existência”.
Usando uma
figura genial, conclui sobre o destino deles:
“
“Aqueles,
no outro mundo, serão punidos do mesmo modo; nadam na verdade, mas não são por
ela penetrados; seu orgulho rebaixado fá-los sofrer, e lamentam esses dias
terrestres onde, pelo menos, tinham a liberdade de duvidar”.
Lembrei-me
de um caso interessante, ocorrido com uma amiga evangélica e médium, isso
mesmo, mediunidade ocorre com todo mundo, até com quem vai na igreja ou não
acredita. Uma noite, começou a ver um clarão de luz em seu quarto, e um cheiro
forte de defunto. Ficou espantada e se encolheu na cama, puxando o lençol, e
olhando entre os dedos para o vulto que surgia. Era um homem, e curiosamente
flutuava, sem que se pudesse ver os pés. Era seu cunhado, Jairo, morto,
enterrado e rezado já a algumas semanas.
— Maria,
sou eu, vim pedir ajuda, morri, mas não consigo subir. — Disse o morto aflito.
— Mas que
cheiro é esse, Jairo? — Toma coragem e pergunta a cunhada morta de medo (ou
será viva de medo?).
— Isso é
por conta do meu corpo embatumado, que não consigo largar. Mas tenho que lhe
contar algo que me atormenta, não para de pensar nisso um minuto que seja. —
Explica Jairo, de seu jeito, o tormento que vive. E continua:
— Morri e
guardei comigo um segredo, que por vergonha nunca contei, mas que agora me
deixa aflito. Dois meses passados, fiquei sem saída com uma dívida
inconfessável. Não sabia mais o que fazer, pensava no pior, quando lembrei de
um dinheiro guardado, era para o aluguel que a minha irmã poupou do salário,
como sempre fazia regularmente. Peguei escondido, gastei e me calei, sem saber
que dias depois cairia morto assassinado, por uma bobagem de fim de baile. Agora
estou aflito e desesperado, pois ela está acusando uma sobrinha, pensando mal
da pobre menina, sem cogitar da verdade, que guardo comigo. Maria, você que
pode me ver e ouvir, é minha esperança de corrigir esse deslize que me corta o
coração, me prende entre os vivos como correntes de um condenado! — Conclui,
com a voz tremendo e em lágrimas.
Maria já
não temia por mais estranho que fosse. Era muito amiga de Jairo, passavam horas
conversando no quintal, rindo da vida. Agora era hora de ajudar o amigo, sem se
preocupar com explicações ou temores. Além do mais, nunca soube nada sobre o
caso relatado. Nem sabia que um dinheiro havia sumido.
No dia
seguinte procurou a irmã de Jairo, relatando todos os detalhes da aparição, do
segredo e da revelação. A moça só chorava. Se o Jairo tivesse pedido, teria
entregue o dinheiro, dando bronca, mas ajudava, disse ela. Não precisava fazer
isso. E a sobrinha, coitada? Certamente um dia iria jogar na cara da menina e
criar um problema de relacionamento sem ter razão. A menina dormia preocupada,
sendo acusada sem culpa. E o Jairo, morto que sabia que estava morto, não
conseguia viver sua vida de alma, preso entre os vivos, amarrado ao cotidiano
nosso de correr atrás do dinheiro para saldar as necessidades deste mundo. Remorso
é o maior dos problemas da outra vida. E pode ser por uma coisa que aqui,
parece pouco. E a Maria, por segurar o pavor e dar atenção ao fantasma, levando
a sério e não achando que era um demônio a ser expulso, mas seu cunhado,
vivinho da silva, como nos velhos tempos de conversa na varanda, fazendo um
último apelo à amiga.
Esse é o
maior dos bons conselhos para quem quer chegar bem ao mundo dos espíritos. Sabe
aquela coisa que fica martelando na cabeça, a cobrança da consciência, que vem
de vez em quando ao encostar a cabeça no travesseiro, não deixando dormir?
Resolva o quanto antes. Seja como for: Converse, confesse, retribua, perdoe,
peça perdão, ajude, deixe ajudar, faça o que for necessário, com segurança e
boa vontade. Mas não deixe para depois. Pois qualquer um de nós está sujeito a
não levantar da cama no dia seguinte, pois chegou a derradeira hora. E não há
nada mais inevitável do que ir desta! mas que seja então, ir desta… para bem
melhor!